Dentes tortos


(Escrito no ano de 1960 - Distribuição interna para os clientes)

NOTA: Foram mantidos a nomenclatura e os conceitos da época

Cléber Bidegain Pereira

A Ortodontia, o ramo da odontologia que se dedica à correção dos dentes tortos, alcançou tamanho desenvolvimento técnico, nos últimos anos, que permite ao especialista a realização de tratamentos eficientes, seguros e das melhores conseqüências para os pacientes.

A preocupação primeira dos pais é o aspecto estético, que geralmente leva à procura de correção dos dentes anteriores. Sem dúvida, o problema psicológico, a solução da aparência pessoal, colocando o indivíduo com mais segurança e tranqüilidade dentro da vida, é importantíssimo. No entanto não é essa, como parece desavisadamente, a única função do ortodontista. É fundamental, inclusive para a própria solução estética, a restauração do equilíbrio oclusal normal: todos os dentes em posições harmônicas com os seus vizinhos e antagonistas, bem como com os ossos de sustentação e perfil. Sem esse equilíbro oclusal normal, os dentes sofrerão, com sua má posição, o impacto das forças de mastigação em situação anômala, padecendo, então, traumatismo oclusal. Esse traumatismo é uma das principais causas das doenças dos tecidos de sustentação dos dentes (osso, ligamento, gengiva), doenças chamadas paradenciopatias (vulgarmente piorréia), que podem ocasionar a perda de todos os dentes, já se vê que a ortodontia transcende ao aspecto estético imediato.

A má posição dos dentes não permite, ainda, a benéfica massagem que os alimentos fazem nas gengivas, quando deslizam, depois de comprimidos pela mastigação. Isto resulta em gengivas sangrentas e hipertrofiadas, isto é, de volume aumentado.

Além disso, os dentes tortos colocam-se, geralmente muito juntos e com os pontos de contato incorretos, de maneira a não só aumentar a possibilidade de cáries, como a dificultar sua localização. Quando descobertas, ocorre serem muito avançadas, com as graves conseqüências que se conhecem.

Qual a idade para o início do tratamento

O conselho é aquela orientação conhecida e descuidada: prevenir é melhor do que remediar. Portanto, quanto mais cedo, mais acertado será tomar medidas. Em odontologia, significa providenciar antes mesmo dos dentes permanentes nascerem. Muitos dos problemas ortodônticos têm origem na falta de atenção que recebem os dentes de leite.

Se os dentes de leite estiverem muito cariados, sem restauração, ou forem extraídos, sem colocação de pequeno aparelho assegurador de espaço, os dentes permanentes, ao erupcionarem, não encontrarão lugar exato na arcada, tomando posição defeituosa. Maus hábitos, como chupar o dedo, posição defeituosa ao dormir, interposição da língua entre os dentes, respiração bucal, etc., causam maloclusões, que, com tratamento oportuno, poderão ser evitadas.

Pequenas correções, recuperação de espaço perdido, correção de um ou dois dentes com articulação cruzada, etc., quando realizadas cedo, evitam a generalização do mal.

Fácil compreender por dissermos ser cedo, muito cedo, o momento exato para preocupar-se com isso.

Um bom odontopediatra está capacitado para prevenir ou interceptar maloclusões, encaminhando ao ortodontista, quando achar oportuno.

Por que extrair dentes sãos, em Ortodontia?

Muito relutaram os ortodontistas, antes de aceitar o fato da extração de dentes definitivos e em perfeito estado, a fim de chegar à correção de problemas. Durante muito tempo, estiveram os especialistas divididos em dois grupos: extracionistas e não extracionistas. Estes últimos, em grande número, não podiam admitir a necessidade de mutilar o paciente para corrigir um defeito. Depois de muitas pesquisas e muito estudo, e principalmente ante a evidência dos casos tratados, chegou-se à conclusão mais acertada, hoje pacífica. Em muitos casos, é necessário extrair, sob pena de deformar e perfil ou ter recidiva. Assim, grandes nomes de ortodontia, adeptos do não extracionismo, depois de praticarem longamente sua escola, renderam-se à imposição e confessaram-se enganados.

A necessidade de extrair apresenta-se, principalmente, nos casos em que os ossos maxilares são pequenos para acomodar todos os dentes. Nestes casos, não há fuga da extração, pois é necessário diminuir o número de dentes, para poder alinhá-los dentro do maxilar, já que nada ou pouco se pode interferir no crescimento do próprio osso.

Numerosos são os casos de dentes amontoados por falta de espaço. Alguns devido ao descuido com a dentição de leite, ou à extrações prematuras destes dentes. Outros, por uma disrelação entre o tamanho dos dentes e o osso suporte.

Este último caso é realmente curioso e interessante, além de atual e generalizado.

O homem moderno está sofrendo uma transformação no seu aparelho mastigador. Em poucos séculos transformou completamente a maneira de alimentar-se. Enquanto que antes o homem usava os dentes para cortar e triturar os alimentos, hoje a atividade mastigatória diminuiu muitíssimo. Os alimentos são cozidos, cortados e até liquidificados, antes de irem à boca. Consequentemente, pela hipofunção, os ossos que sustentam os dentes estão diminuindo de tamanho, enquanto os próprios dentes não modificam suas dimensões. Daí a desproporção. A natureza, como sempre, vai encontrando sua própria solução. Relativamente a esse processo ela se ocupa, agora, em diminuir o número dos dentes. O terceiro molar está ausente ou arreliado em muitas pessoas. Em outras, há ausência congênita de incisivos laterais superiores ou pré-molares inferiores. Mas, nos casos em que isto não se dá, cabe no ortodontista extrair para compensar a falta de espaço.

Além da influência alimentar nesse fenômeno da evolução humana, outra causa interessante e comum provoca a disrelação entre osso e dentes. É a herança cruzada. O filho herda os dentes grandes do pai e os maxilares pequenos da mãe.

Quando se deve extrair, os primeiros pré-molares são, geralmente, os dentes indicados. Isto permite a regularização dos dentes anteriores e uma perfeita erupção do terceiro molar.

Não se pode negar ser lamentável a extração de dentes em perfeito estado. Mesmo para o especialista, é uma decisão difícil e muito mais o é para o paciente. No entanto, nunca será esse fato mais grave e rico de conseqüências perigosas do que o amontoamento dos dentes.

Vê-se que a ortodontia que se alarga em aperfeiçoamentos em nossos dias, ocupa uma posição importantíssima na solução de problemas dos indivíduos, tanto nos planos mais objetivos e imediatos de saúde e bem-estar, como nos mais elevados de ajustamento dentro da vida e possibilidade de realização.

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