Cléber Bidegain Pereira, C.D.
Desde os meus primórdios com a Cefalometria Radiográfica,
em 1959, observo que é imensurável a sua contribuição
na Ortodontia e o eriquecimento dela própria com as pesquisas que
se realizaram buscando seu aprimoramento.
As telerradiografias evoluíram, significativamente,
em contraste e clareza de tecidos moles e duros. Porém,
continuam com alguns dos significativos problemas iniciais, como a posição
da mandíbula, na tomada da radiografia, e a confusa sobreposição
dos acidentes anatômicos laterais, que se sobrepõem, em um
só plano na radiografia. Somente quando tivermos
as radiografias tridimensionais será solucionado as inconveniências
da sobreposição de acidentes anatômicos laterais, pois,
além das dificuldades em posicionar o paciente, exatamente, em perfil,
há o problema das assimetrias faciais. Até lá, é
conveniente evitar, dentro do possível, as referências laterais,
menos confiáveis, buscando análises que não as utilizem
de forma preponderante. Com este pensamento preferimos seguir Steiner que
utiliza como referência linha SN, ambos pontos mais confiáveis, por situarem-se
no Plano Médio Sagital. Veja "Porque preferir SN ao invés de Frankfurt?": www.cleber.com.br/snfrank.html ou www.acbo.org.br/revista/biblioteca/frankfurt
A Cefalometria Radiográfica foi das primeiras
aplicações dos computadores na Odontologia, os quais, lidando
com números, encontrou terreno fértil nas medições
cefalométricas. Com rapidez, surgiram programas de Cefalometria
Computadorizada, que vêm evoluindo a cada dia, impondo-se inquestionavelmente.
Até que se tenham mais estudos em 3D, uma alternativa muito sedutora é a composição tomográfica da hemiface, como está na capa deste livro.
POSIÇÃO DA MANDÍBULA NA TOMADA DA TELERRADIOGRAFIA
Em pesquisa realizada em 1993, PEREIRA,
C.B.1 e em 2009, PEREIRA, EID e LOPES concluíram que, na tomada da telerradiografia, a
posição mais usual e recomendável
da
mandíbula é a posição
de Máxima Intercuspidação (PMI), ainda que esta não
seja a posição ideal de observação.
Recomenda-se a tomada da telerradiografia
em PMI, como procedimento de rotina, nos Serviços de Documentação
Ortodôntica, por ser uma posição facilmente identificável
e reconhecida.
A posição em Relação
Cêntrica (RC), que seria o ideal, nas má oclusões,
muitas vezes é difícil de ser identificada, motivo pelo qual,
alguns profissionais preferem ter os equipamentos, para telerradiografia,
em seu próprio consultório, a fim de eles mesmos supervisionarem
a posição certa em RC, na tomada da tele. Também,
utilizam-se "Placas Desprogramadoras" e outros recursos para facilitar
o posicionamento em RC pelo técnico que toma a telerradiografia.
Sem dúvida, estes procedimentos são válidos em alguns
casos. No entanto, muito freqüentemente, nas más oclusões,
a posição de RC não pode ser atingida devido a interferências
prematuras indesejáveis.
IMPOSSIBILIDADE DE LEVAR A MANDÍBULA PARA RC
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Eis um caso, freqüente
nas maloclusões, de interferência prematura, no
qual é impossível levar a mandíbula para a posição de RC. A interferência prematura do Incisivo Lateral - no caso - provoca a projeção da mandíbula para frente, fazendo a oclusão em posição mais cômoda - Posição de Acomodação ou Máxima Intercuspidação (PMI). |
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Não é possível chegar-se a verdadeira
RC, em casos de
interferência prematura semelhantes a este. A mandíbula, levada para a sua posição mais posterior, encontra a interferência - no caso do Incisivo Lateral - e faz rotação no sentido horário. Esta posição, não é a real RC. |
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Encontrando a interferência, por ser esta uma posição
incômoda, a mandíbula busca uma posição de Acomodação, que é a PMI, facilmente identificável e usada como posição padrão pelos Serviços de Documentação Ortodôntica. Isto no entanto, deve ser considerado pelo clínico, o qual deve, antes das mensurações, observar as posições de interferência e PMI, fazendo as adequações que se fazem necessárias. |


PMI
POSIÇÃO RETRUSIVA DA MANDÍBULA
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Ainda o mesmo caso, mostrando no
cefalograma, em que
a mandíbula é protruída, por acomodação, ocluindo em PMI. Nestes casos, a tentativa de levar a mandíbula para a posição mais retrusiva dos côndilos sofre a interferência e a mandíbula faz rotação, no sentido horário, o que a leva para posição inadequada que não é a real RC, como foi relatado acima. |
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| PMI | Posição Retrusiva, com rotação |
É freqüente a ocorrência de Desvios
Funcionais da Mandíbula (DFM), em casos de má oclusão,
em que a mandíbula é levada para uma posição
de acomodação (PMI).
Porém, a PMI recomendada para a tomada da tele,
não é a posição em que devemos fazer o Diagnóstico
e o Plano de Tratamento, como também não é a posição
que pretendemos ter no final do tratamento. Assim, faz-se necessário
corrigir esta posição, levando a mandíbula, artificialmente
- de forma gráfica - para a posição de RC.
O computador presta-se de forma
excelente para fazer esta alteração gráfica. O procedimento
é empírico, mas pode ser bastante preciso. Além de
que, nestes casos de interferências, não vejo outra maneira
de levar a mandíbula para a real RC.
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| A sistemática recomendada,
PEREIRA,
C.B.2,
março 1994, consiste em observar clinicamente a PMI e conferir se
assim está representada no cefalograma - no caso, Incisivos em topo-a-topo
- Da mesma forma, observar clinicamente a posição de interferência
- no caso, Incisivos Inferiores em topo-a-topo com o Incisivo Lateral Superior
- e levar, graficamente, a mandíbula para esta posição
(*). Para tanto, levou-se a mandíbula para trás e provocou-se
rotação no sentido horário, abrindo "mordida", afastando-se
os molares da oclusão. Ressalto que o centro de rotação
é no centro da cabeça do côndilo (**).
A seguir, faz-se o que não se pode fazer no paciente, leva-se graficamente a mandíbula para RC, provocando-se a rotação, agora ao inverso, no sentido anti-horário, até que os molares façam contato, cefalograma em vermelho. Ai está representada, empiricamente, mas com suficiente precisão, a posição de RC. Posição em que se deve fazer as medições e o conseqüente diagnóstico. O que é medido em PMI NÃO É VÁLIDO (***). |
O reposicionamento gráfico da mandíbula
pode ser feito carregando as estruturas anatômicas com o mouse ou
automatizado, seguindo a rotação e deslocamento linear determinados
pelo ortodontista.
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Na tomada da telerradiografia deve-se estar atento para
que a mandíbula seja posicionada realmente em PMI. Algumas vezes os pacientes têm posições habituais de acomodação por buscarem uma melhor estética. É o caso desta paciente que habitualmente levava a mandíbula para frente buscando uma posição mais estética. |
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Caso semelhante em que o paciente, habitualmente,
leva a mandíbula para trás e para baixo - com "mordida" bem mais aberta do que em posição de repouso. Esta posição - que não é a posição de repouso e sim "posição de acomodação estética" - o paciente denomina de posição " normal ". A PMI ele denomina de anormal. |
Naqueles casos em que constatamos clinicamente que a má
oclusão existente não tem desvios e que PMI e RC são
coincidentes, melhor, também nada devemos fazer de reposicionamento
da mandíbula.
A recolocação da mandíbula deve
ser feita nos casos em que constatamos, clinicamente, que a mandíbula
em PMI está protruída por acomodação.
VISUALIZAÇÃO COMPUTADORIZADA DA EXPECTATIVA DE TRATAMENTO ORTODÔNTICO ( VCETO)
Utilizando os mesmos recursos gráficos - Corel
Draw ou programas de Cefalometria Radiográfica - deve ser feita
a Visualização Computadorizada da Expectativa de Tratamento
Ortodôntico e/ou Ortognata (VCETO), prevendo-se a posição
que se espera chegar, com as estruturas esqueléticas e dentária,
no final do tratamento. Está é uma previsão baseada
na expectativa de alguns fatores imponderáveis, tem valor expressivo
para ajudar o planejamento e serve como parâmetro futuro. Sem dúvida
é mais elucidativa e mais confiável do que a expectativa
etérea que formulamos apenas em nossa mente.
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PEREIRA, C.B.4
, 1965, relata um caso clínico
em que retruíu Incisivos, em acordo com o Triângulo de Tweed, em que os resultados não foram bons. Se tivesse sido feito a VCETO este mau resultado teria sido evidenciado antes de ser realizado o tratamento. E, em tempo, o Plano de Tratamento teria sido modificado. |
A posição de Relação Cêntrica,
a qual levou-se graficamente a mandíbula, conforme relatado, exceto
em adultos, não é também a posição que
devemos ter no final do tratamento. Em pacientes jovens há
a expectativa de que a mandíbula seja projetada para frente, pelo
crescimento da mandíbula maior do que da maxila, no sentido horizontal.
Assim deve ser inserido os efeitos do crescimento esperado, que pode ser
automatizado, seguindo determinação do ortodontista. A avaliação
deste crescimento é totalmente empírica, não pela
recolocação, mas pela previsão do crescimento.
Ninguém pode afirmar quanto a mandíbula irá crescer
e em que sentido, se só horizontalmente ou haverá rotação.
Pode-se e deve-se especular mas não há
certeza. De qualquer maneira, alguma recolocação deverá
ser feita considerando o crescimento. Diversos fatores induzem o
profissional, e somente ele, a avaliar o crescimento da mandíbula
a ser inserido.
Por certo que o crescimento da maxila também deve
ser considerado. Porém, mais que tudo interessa a relação
maxila-mandíbula, no sentido postero-anterior, que ocorrerá
no final do tratamento.
RECOLOCAÇÃO GRÁFICA DOS DENTES
Depois de feita a expectativa da posição esquelética, deve ser feito o reposicionamento dos dentes. Usando os mesmos programas referidos - Corel Draw ou de Cefalometria Radiográfica - devem ser feitos, nos dentes, os movimentos lineares e rotações em acordo com o que se pretende chegar. Leva-se em conta todos os fatores que devem ser considerados para a predeterminação da posição dos Incisivos, desde MARCOLIS 5 , STEINER 6, TWEED 7 , JACOBSON 8 , INTERLANDI 9 , RICKETTS 10 etc.. Porém, mais que tudo, considerando as condições individuais do paciente como: feche labial, perfil tegumentar, musculatura peri-oral e outros fatores. PEREIRA,C.B. 11, 12, 13
Tendo em consideração o exposto, fica evidente
que cabe ao ortodontista fazer a sua Cefalometria Radiográfica.
Hoje, não mais há problemas com a Mesa Digitalizadora, elas
são encontradas facilmente, por preço razoável e são
configuradas sem problemas. Também, os programas estão habilitados
para trabalharem tanto com a Mesa quanto na tela do computador, segundo
a opção do profissional. O preço dos programas tem
valor relativo a sua utilização. O profissional individual,
que tem poucos casos, paga valor proporcional ao seu uso. Assim, não
há motivo para que o Ortodontista não faça ele mesmo
seus traçados cefalométricos.
Ainda recomenda-se que o próprio ortodontista
faça sua Cefalometria porque a marcação dos Pontos
Cefalométricos e a posição dos molares, nem sempre
é bem visualizada nas telerradiografias, por melhores que estas
sejam, principalmente os acidentes anatômicos laterais. O próprio
Porion e o Orbitário muitas vezes são dificilmente identificáveis.
O mesmo com a parte mais inferior da Chanfradura Sigmóide e a parte
anterior do ramo da mandíbula. Sendo o ortodontista quem marca os
Pontos Cefalométricos, ele está mais capacitado para identificar
a correta localização. E, naqueles casos em que há
dificuldades, por assimetrias e outros, o ortodontista saberá que
deve dar um valor duvidoso para estes Pontos.
A VCETO só pode ser feita pelo próprio
Ortodontista que irá realizar o tratamento. A avaliação
do crescimento e a predeterminação da posição
dos Incisivos são individuais, para cada paciente e, também,
para cada profissional.
De qualquer maneira, é recomendável que
o Ortodontista, nos seus primeiros 20 anos de aprendizado da Cefalometria,
faça ele mesmo a marcação dos Pontos Cefalométricos,
a fim de conhecer melhor a problemática e "sentir" a análise.
Depois, nos seguintes 20 anos de aprendizado, poderá apenas olhar
para o Cefalograma sem tomar medidas...
(*) A recolocação gráfica da mandíbula pode ser feita com o programa genérico Corel Draw, que tem todos os recursos para isto, ou com alguns programas específicos de Cefalometria Computadorizada.
(**) O Corel Draw, mesmo a versão 4, que utilizo deste 1993, possibilita a rotação com a opção de colocar o centro de rotação onde desejamos, basta carregar, o círculo indicativo, com o mouse.
(***) No caso do Corel Draw, o novo cefalograma, novamente deve ser levado para o programa de Cefalometria Computadorizada e ai feitas as mensurações. Nos programas de Cefalometria Computadorizada isto é feito automaticamente.
1 ) Pereira, C.B. - POSIÇÃO
DA MANDÍBULA NA TOMADA DE TELERRADIOGRAFIA. Jornal Ortodontia,
da Sociedade Paulista de Ortodontia, No
25; Maio-Junho 1993. Divulgado em:
< http:www.cleber.com.br/posicao.html
>
Atualizado em 2001 < http:www.cleber.com.br/posicao2.html
>
2) Pereira, C.B. - RECOLOCAÇÃO
CEFALOMÉTRICA DA MANDÍBULA - Jornal Ortodontia, da Sociedade
Paulista de Ortodontia, No
30; Março/Abril 1994. Divulgado em:
< http:www.cleber.com.br/recoloc.html
>
Atualizado em 2001 < http:www.cleber.com.br/recoloc2.html
>
Publicado em Orthodontia Paranaense - Curitiba
- v. 14, n 1 jan/jun, 1993.
3) Pereira, C.B. -
VISUALIZAÇÃO
COMPUTADORIZADA DA EXPECTATIVA DE TRATAMENTO ORTODÔNTICO E/OU ORTOGNATA
(VCETOO) - Jornal Ortodontia,
da Sociedade Paulista de Ortodontia, N0
28
- Nov/Dez 1993 e INTRODUÇÃO
À INFORMÁTICA NA ODONTOLOGIA - EDITORA PANCASTE 1996
- Divulgado em: < http:www.cleber.com.br/vcetoo.html
>
Atualizado em 2001 < http:www.cleber.com.br/visualiza.html>
4) Pereira, C.B. -
PREDETERMINACIÓN
DE LA POSICIÓN DE LOS INCISIVOS - Ortodoncia - Sociedad Argentina
de Ortodoncia - Ano XXX - NO
60 - outubro, 1966.
Divulgado em: < http:www.cleber.com.br/izler.html
>
Atualizado em 2001 < http:www.cleber.com.br/izler1.html>
5) Marcolis. H.L. Axial Inclination of the Mandibular Incisor - Am. J. Orthod Oral Surg. 29 (10): 511-94 - Oct. 1943.
6) Steiner, C.C. Cephalometric for You and Me - Am. J. Orthod. 39 (10): 729-55 - Oct. 1953.
7) Tweed, C.H. Was the Development of Diagnosis Facial Triangle as an Accurate Analysis Based an Factor or Faney - Am. J. Orthod. 48 (11): 823-40 - Nov. 1962.
8) Jacobson, A. Application of the WITS appraisal. Am. J. Orthod., 70 (2) :179-89, 1976.
9) Interlandi, S. Linha "I" na análise morfodiferencial para o diagnóstico ortodôntico. Rev., Fac. Odont. São Paulo, 9 (2) : 283-310, jul./dez. 1971.
10) Ricketts, R.M. Cephalometric analysis and systhesis. Am. J. Orthod. 31 (3) : 141-58, Jul. 1961
11) Pereira,C.B. - PREDETERMINAÇÃO
DA POSIÇÃO DOS INCISIVOS -
Divulgado em: < http:www.cleber.com.br/predeter.html
>
12) Pereira,C.B. - EXTRAÇÕES
EM ORTODONTIA -
Divulgado em: < http:www.cleber.com.br/extracoe.html>
13) Pereira,C.B. - FABRICANDO PERFÍS
BONITOS -
Divulgado em: < http:www.cleber.com.br/perfis.html>
FANTINI, S. M. Deslocamentos condilares entre RC e MIC, com e sem desprogramação, em indivíduos assintomáticos, com maloclusão de Cl II. São Paulo, 1999. 150p. Tese (Doutorado em Ortodontia) - Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.
FANTINI, S. M.; ABRÃO, J. Deslocamentos condilares entre RC e MIH, em jovens assintomáticos, com maloclusão de Cl II. Ortodontia, v. 34, n. 1, p. 28-34. Jan - Abr. 2001.
Silva, I.T.P; Telle, F.S. e Moro, A. - Diagnóstico Ortodôntico em Relação Cêntrica - Resumo de Monografia apresentada no Curso de Pós-Graduação em Ortodontia da ABO-PA. Revista Dental Press de Ortodontia e Ortopedia Facial, Maringá, v. 6, n. 3, p. 7-24, maio/jun, 2001.
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