DESGASTE OCLUSAL FISIOLÓGICO
 

Dr. Cléber Bidegain Pereira, C.D.,E.O.
O desgaste oclusal fisiológico é aquele decorrente da mastigação de alimentos, função principal do aparelho mastigador. É funcional o avançado desgaste dentário que se observa, principalmente, em populações ágrafas, desde que seja decorrente da mastigação de alimentos, mesmo que estes sejam duros e abrasivos.  Diversos autores consideram que o desgaste dentário fisiológico é necessário para a completa harmonia da oclusão   (1) (2)  (3) (4) (5).

Os desgastes para-funcionais são decorrentes de atividades não específicas do aparelho mastigador, como a descarga emocional, comum no homem de nossa civilização, e como as atividades artesanais, dos povos de culturas primitivas.

A degeneração física é um imperativo biológico.  Nascer, viver e morrer é uma seqüência de todo o ser vivo. No homem, o desgaste dentário é sempre degenerativo, sem deixar de ser natural e fisiológico quando é provocado por atividade mastigatória de alimentos. Considera-se degenerativo porque a sua continuação leva à perda dos dentes. Não por diminuição da função. Ao contrário, a dentadura atricionada é a oclusão perfeita, em que as arcadas dentarias, "modeladas" pelo desgaste, sem interferências indesejáveis, deslizam, livremente, nos movimentos mandibulares, guiados pelas ATMs.

Por dois motivos estou convencido de que a dentadura atricionada não tem diminuição de sua capacidade mastigatória. O primeiro de ordem filosófica: as ocorrências da natureza são benéficas. Segundo, estudei a dentadura de diversas populações com hábitos alimentares primitivos (*), todas tem elevada capacidade mastigatória (os bordos dos dentes desgastados cortam como navalhas); não há evidencias de subnutrição (quando ocorre subnutrição é generalizada, causada por carência alimentar). São pouco consistentes as argumentações comparativas da dentadura do homem com a do bovino (que perde peso a medida que gastam seus dentes). Enquanto que o homem é um animal onívoro, o bovino é herbívoro super especializado. São dois tipos de aparelhos digestivos, bem diferenciados, a iniciar pela própria dentadura, que nos bovinos não tem dentes anteriores na arcada superior.

Por outro lado, não nos parece que a dentadura, super atricionada de certas populações ágrafas, seja uma meta para nós copiarmos. Em nossa civilização elevou-se, expressivamente, a sobre vida e não é desejável um desgaste tão intenso e contínuo. Também, não haveria sentido a tentativa de reprodução nos artefatos protéticos, primeiro porque não se poderia manter afiados os bordos dos dentes, como faz a natureza; segundo porque a riqueza da técnica gnatológica permite construir arcadas dentarias harmônicas com os movimentos mandibulares.

O severo desgaste oclusal fisiológico, que estudamos em algumas  populações, nos serve, unicamente, como exemplo para justificarmos desgastes artificiais adaptativos, e como advertência para não usarmos, em restaurações protéticas, materiais demasiadamente duros.
 

Uruguaiana (RS) 23 de junho de 1985
 
 

(*) 1 - Índios YANOMAMIS da selva amazônica (isolados).
    2 - Índios LENGUAS do Chaco Paraguaio.
    3 - Crânios pré-colombianos do litoral sul brasileiro.
    4 - Crânios pré-colombianos do Peru.
    5 -Índios do interior do Peru (Cuzco, Chincheros, Pizac).
    6 - Negros sul africanos.
    7 - Esquimós do norte do Canadá (Terra de Baffim).


                           1 - Manifestação de Sicher, A & Brul, E. Lloyd

                                  2 - Ranfjord, S.

                                  3 - Neiburger,  E. J.

                                 4 - Dawson, Peter E.

                                 5 - Pereira, C.B.