TRANSCRITO
DA REVISTA DIABETES CLÍNICA - JORNAL MULTIDICIPLINAR DO DIABETES
E DAS PATOLOGIAS ASSOCIADAS - VOL. 6, N 6 - NOVEMBRO/DEZEMBRO 2002
Diabetes
mellitus e doença periodontal - Revisão de literatura
Diabetes
mellitus and periodontal disease - Literature review
Juliana
Yuri Kawamura*,Marina
H. C. Gallottini de Magalhaes**
*Aluna
de Mestrado da Area de Patologia Bucal da FOUSP,**
Professora Associada da Disciplina de Patologia Bucal da FOUSP e
Coordenadora do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais da FOUSP (CAPE).
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Resumo
A doença periodontal
(DP) é considerada uma das complicações do diabetes
mellitus. Sendo assim, diversos fatores relacionados ao diabetes podem
influenciar a progressão e agressividade da doença periodontal,
tais como: tipo de diabetes, idade, duração do diabetes,
controle metabólico, microbiotaperiodontal,
alterações vasculares, alteração no metabolismo
do colágeno, relação com HLA a resposta inflamatória.
A proposta deste trabalho foi realizar uma revisão de literatura
a fim de mostrar a influência a importância do diabetes como
fator modificador de doença periodontal. Concluímos que a
doença periodontal no paciente diabético é modificada
pela idade, duração, controle metabólico, alterasses
vasculares, alteração no metabolismo do colágeno
a resposta inflamatória,
sendo que o tipo de diabetes, HLA a microbiota periodontal não parecem
ter influência significativa.
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Palavras-chave:
Diabetes mellitus, doença periodontal, controle metabólico,
imunologia.
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Abstract
Periodontal
disease (PD) is considered one of the diabetes mellitus (DM) complications.
So, many factors relationed to DM can influence the progression and severity
of PD, such as: type of diabetes, patient's age, duration of diabetes,
metabolic control, periodontal pathogens,
vascular
changes, alteration in collagen metabolism, relation with HLA and inflammatory
response. The purpose of this review was to show the influence and importance
of diabetes as modified factor of PD. We concluded that PD in diabetic
patient is modified by patient's age, duration of diabetes, metabolic control,
vascular changes, alteration in collagen metabolism and inflammatory response.
However, type of diabetes, HLA and periodontal pathogens do not have significative
influence.
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Key-words:
Diabetes mellitus, periodontal disease, metabolic control, imunology
Artigo
recebido em 20 de setembro; aprovado em 15 de outubro de 2002.
Enderço:
para correspondência: Juliana Yuri Kawamura, Rua Domingos Ricci,
18 apto 22, 09550-080
São
Caetano do Sul SP, Tel: (11) 42212306.
Introdução
O diabetes mellitus (DM)
é uma doença metabólica crônica que tem como
principal fator de risco a hereditariedade. Caracteriza-se por hiperglicemia
[1] em resposta a uma insuficiência total ou relativa de insulina,
devido a uma baixa produção pelo pâncreas, ou por carência
de resposta dos tecidos periféricos a ela [2,3,4]. Classicamente,
o diabetes é classificado em duas entidades clínicas baseadas
em sua etiologia: tipo 1 ou insulino dependente e tipo 2 ou não
insulino dependente [5]. Todavia, um paciente diabético tipo 2 pode,
em alguma fase de sua doença, necessitar de insulina exógena
para seu controle metabólico.
Conforme aumenta a duração do diabetes,
uma série de complicações sistêmicas podem surgir.
As cinco complicações clássicas do diabetes são:
microangiopatia, neuropatia, nefropatia, doenças macrovasculares
e demora na cicatrizaçao de feridas [1,6,7]. A OMS incluiu, em 1993,
a doença periodontal como a sexta complicação clássica
do diabético.
Além da doença periodontal, diversas manifestações
orais tem sido descritas nestes pacientes, tais como: xerostomia, ulcerações
bucais a tumefação de glândulas salivares. Todavia,
a de maior prevalência é a doença periodontal - DP
[8]. O diabetes dobra ou triplica o risco de desenvolvimento de periodontite
[3,9,10].
O risco aumentado da periodontite em pacientes diabéticos
esta associada a múltiplos fatores, como idade do paciente, controle
metabólico, tempo de duração do diabetes [ 10,11 ],
a presença de placa bacteriana/cálculo [5,12,13].
O
objetivo deste trabalho foi realizar uma revisão de literatura sobre
os diversos fatores relacionados, ou não, ao diabetes, que podem
atuar como modificadores da doença peridontal.
Revisão
da literatura
A patogenia da periodontite
associada ao diabetes mellitus é multifatorial. Vários estudos
tem mencionado os seguintes mecanismos para explicar a maior suscetibilidade
de indivíduos diabéticos à periodontite: 1) microangiopatia;
2) alterações no fluido crevicular gengival; 3) alterações
no metabolismo do colágeno; 4) alterações imunológicas;
5) alterações na microbiota subgengival; 6) hereditariedade.
Portanto, as alterações nos tecidos periodontais podem diminuir
a resistência do diabético as infecções, como
por exemplo a doença periodontal, embora a presença da placa
bacteriana seja fundamental para o desencadeamento da doença periodontal,
assim como ocorre em qualquer paciente [1,14,15].
Assim, inúmeras variáveis, tanto locais
quanto sistêmicas, presentes nos indivíduos diabéticos,
podemestar relacionadas com a gravidade da doença periodontal.
Abordaremos, com finalidade didática separadamente os seguintes
fatores: tipo de diabetes idade do paciente, duração do diabetes,
controle
metabólico, microbiota periodontal, alterações
no metabolismo do colágeno, relação com HLA, alteraçõe
vasculares e resposta inflamatória.
Tipo
de diabetes
Revisando a literatura no que diz respeito a associação
entre diabetes mellitus a doença periodontal, pode-se observar que
indivíduos diabéticos, tipo 1 e 2, tem um maior prevalência
de doença periodontal, quando comparados com indivíduos não
diabéticos. Dentro da população de diabéticos
tipo 1 e 2, a gengivite é uma manifestação bucal muito
freqüente, contudoperiodontite
a mais comum em pacientes diabéticos tipo 2 [16,17,18,19].
Porém,
quando a duração do diabetes é semelhante, tipo de
diabetes parece não afetar a extensão da doença periodontal,
ainda que o diabetes do tipo 1 desenvolva doença mais cedo e mais
facilmente [8,11].
Idade
Comparando vários
estudos que relacionam diabete e doença periodontal, observa-se
uma concordância entre os autores que há mais doença
periodontal na população diabética com o aumento da
idade. Com o passar dos anos, o efeito da idade pode passar a ser mais
significativa do que o próprio diabetes [20]. Alguns autores [21,27]
observaram que embora indivíduos diabéticos tenham; maiores
índices de DP, quando comparados com indivíduos não
diabéticos de mesma faixa etária, de diferença não
foi significante em pacientes com mais 55 anos de idade, ainda que indivíduos
diabéticos apresentam periodontite mais cedo que indivíduos
não diabéticos.
Com relação aos indivíduos diabéticos
do tipo 1, não há diferença na incidência de
bolsas periodontais até 34 anos, quando esses indivíduos
são comparados com indivíduos não diabéticos.
Acima desta idade, contudo pacientes diabéticos tem muito mais sextantes
com bolsas profundas. Este fato leva a supor que por volta dos 35 anos,
se inicia uma rápida destruição do periodonto, pacientes
diabéticos [16].
Duração
do diabetes
O diabetes de longa duração modifica o
estado clínicos dos tecidos periodontais e aumenta a perda clínica,
inserção dos ligamentos periodontais [14]. Além de
diversos autores observaram que pacientes diabéticos há mais
de 10 anos, tem mais perda de estruturasperiodontais
do que aqueles com diabetes há menos de 10 anos, indicando que a
duração da doença a um fator importante no desenvolvimento
de DP [5,11,22,23,24].
Outro fator importante é o acúmulo de AGEs
(produtos finais da glicolização avançada), que são
compostos derivados da glicose, formados em quadros de hiperglicemia crônica,
que se acumulam nos tecidos e plasma de diabéticos, e parece afetar
a migração e atividade fagocitaria de células mono
e polimorfonucleares, resultando em estabelecimento de maior quantidade
de microbiota subgengival patogênica [12].
Controle
metabólico
Indivíduos inadequadamente
controlados, apresentam maior perda de inserção e de osso
alveolar do que indivíduos com diabetes bem controlado [11,25,26,28],
tendo sido relatado suscetibilidade 4 vezes maior de indivíduos
diabéticos em desenvolver doença periodontal progressiva,
quando comparados com indivíduos não diabéticos [29].
Sendo assim, o estado de saúde periodontal parece estar relacionado
com o bom controle metabólico do diabetes, indicando melhor resistência
do tecido conjuntivo periodontal e osso alveolar, reduzindo a incidência
e severidade da DP [30]. Além disso, pacientes com diabetes mal
controlado têm níveis de células plasmocitárias
elevados, decréscimo na densidade de fibras colágenas, células
endoteliais edemaciadas e proliferadas, ou seja, alterações
celulares a de tecido conjuntivo indicativas de catabolismo aumentado em
relação ao anabolismo [31].
Microbiota
periodontal
Analisando os trabalhos que
estudaram a microbiota periodontal em pacientes diabéticos, observa-se
que não há um consenso entre os autores no que diz respeito
a prevalência de periodontopatógenos nestes indivíduos,
demonstrando que a microbiota não é especifica nos diabéticos.
Os periodontopatógenos encontrados em cada pesquisa são muitas
vezes distintos a não diferentes dos encontrados em DP de pacientes
não diabéticos [5,32,33].
Alterações
no metabolismo do colágeno
Diversos autores observaram
que o colágeno gengival é reduzido em diabéticos em
decorrência de um aumento na atividade colagenolítica, prejuízo
na produção de componentes de matriz óssea, diminuição
da síntese de colágeno pelos fibroblastos gengivais e do
ligamento periodontal, mesmo em diabéticos sem infecção
[34,35,36]. Além disso, o diabetes aumenta a atividade da colagenase
no tecido gengival em 4 a 6 vezes, a em 12 vezes na pele, quando comparado
com pacientes nãodiabéticos.
O grande problema é que a colagenase degrada a elastina e o colágeno
teciduais e, portanto, leva o periodonto a destruição [37].
Alterações
vasculares
De acordo com vários
autores, alterações capilares em arteríolas a vênulas
são notadas no tecido gengival inflamado de pacientes diabéticos.
Aumento na espessura da membrana basal em até 4 vezes, fendas na
membrana basal, inchaço do endotélio, lúmen vascular
obliterado, pobre diferenciação entre as membranas elásticas
interna e externa são alterações comumente relatadas.
O grande problema é que estas alterações impedem a
difusão de oxigênio e eliminação de resíduos
metabólicos, resultando em desequilíbrio fisiológico
e aumento na agressividade da doença periodontal [20,43,38,39,40,41,42].
Associação com HLA
A função do
HLA, antígenos leucocitários humanos, é formar complexos
com peptídeos, para que os receptores de antígenos de linfócitos
T possam reconhecê-los e desencadear uma resposta imunológica.
Cada indivíduo herda múltiplos genes que codificam para proteínas
HLA. Desta forma, indivíduos exibem diferenças na sua capacidade
de resistir a doenças infecciosas. A1ém dos alelos HLA desempenharem
algum papel na suscetibilidade do indivíduo a doenças infecciosas,
como por exemplo a doença periodontal, vários distúrbios
imunológicos, como o diabetes mellitus do tipo 1, ocorrem com freqüência
significativamente maior entre pessoas que possuem alelos HLA particulares,
do que em indivíduos que não exibem estes alelos [44]. Todavia,
estudos que examinaram a efetividade da resposta imunológica frente
a periodontopatógenos em pacientes diabéticos tipo 1, de
acordo com os alelos HLA presentes, não encontraram relação
da baixa efetividade da resposta imunológica com o tipo de HLA presente
[45,46].
Resposta inflamatória
Vários autores [36,47,48,49]
estudaram a associação entre diabetes mellitus, quimiotaxia
de neutrófilos e periodontite. Observaram diminuição
na quimiotaxia de neutrófilos, principalmente em diabéticos
mal controlados, a qual pode contribuir para a agressividade da doença
periodontal nestes pacientes. Além da diminuição da
função neutrofílica, outras alterações
da resposta inflamatória foram encontradas, como: linfócitos
T anormais com decréscimo da relação CD4/CD8 ao longo
do tempo [50], aumento quantitativo de células de Langerhans [4],
alteração no fenótipo, quimiotaxia, e na taxa de fagocitose
de macrófagos [6,7], aumento nos níveis de IgG a IgA [13].
Quando se analisa os níveis de mediadores pro-inflamatórios
no fluído crevicular gengival (FCG) e secreção de
monócitos, observa-se que os pacientesdiabéticos
apresentam uma resposta inflamatória exacerbada, quando comparados
com pacientes não diabéticos, uma vez que estes indivíduos
reagem com um alto grau de inflamação, para uma carga bacteriana
equivalente à encontrada em indivíduos não diabéticos
[10].
Conclusão
Frente a análise dos
diversos trabalhos que relacionam o diabetes mellitus com a doença
periodontal, podemos concluir que fatores como idade, duração,
controle metabólico, alterações no metabolismo do
colágeno, alterações vasculares e a resposta inflamatória,
modificam o curso da doença periodontal nestespacientes. Já
o tipo de diabetes, tipo de HLA e a microbiota periodontal parecem não
ter uma influênciasignificativa.
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