TRANSCRITO DO JORNAL DA APCD - FEVEREIRO 2003


 

O diabetes dever ser alvo de cuidados na cadeira do Cirurgião Dentista

Milena Brito (*)
 
 

Há algum tempo, o diabetes tem sido a causa de muitas mortes no mundo, por falta de informação ou tratamento adequado. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Federação Internacional de Diabetes (IDF) caracterizam o problema como uma epidemia global, que já atinge aproximadamente 180 milhões de pessoas no mundo. Só no Brasil, estima-se que 12% da população, algo em torno de 20 milhões de pessoas, seja diabética - e esse percentual tende a crescer ainda mais. 
Segundo Fadlo Fraige, medico endocrinologista e presidente da
Associação Nacional de Assistência ao Diabético - ANAD, existem dois tipos de diabetes, o Tipo 1 e o Tipo 2, que acometem, respec- Fadio Fraige. presidente da Associação
Nacional de Assistência do Diabético.
tivamente, 10% a 90% dos pacientes diabéticos e são definidos a partir do seu grau de dependência de insulina: "O diabetes Tipo l é mais freqüente em crianças e jovens e o paciente desenvolve auto- imunidade contra as células produtoras de insulina no pâncreas, levando-o à falência de produção de insulina e classificando-se como insulino-dependente, ou seja, necessita de insulina para sobreviver.
Baseado nesses dados a tendo em mente que para cada paciente reconhecidamente diabético existe um outro que não possui a doença diagnosticada, o Cirurgião-Dentista deve estar atento para diagnosticar previamente o problema e evitar complicações futuras. Para isso, uma anamnese pormenorizada, seguida de exames para avaliação dose-nível de glicose no sangue, podem ajudar na realização de um tratamento mais seguro.
Alexandre Fraige, Cirurgião-Dentista e pesquisador/colaborador 
do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais da USP (CAPE), informa que a doença periodontal com o aumento de reabsorção alveolar a alterações inflamatórias gengivais são os problemas mais comuns em pacientes com Diabetes mellitus mal controlada. Além disso, podem ser observados casos de xerostomia e abscessos recorrentes. "A saliva tem a capacidade de equilibrar o PH da boca. Quando há a diminuição da salivação, os microorganismos naturais da flora bucal ficam desequilibrados, tornando a cavidade oral suscetível a infecções oportunistas, como por exemplo, aftas, 
monilia ou candidíase, associada ao aumento de glicose na saliva,  caracteriza um dos fatores predomi- nantes na formação da cárie", explica.
Vale lembrar que o tratamento dentário do diabético deve ser realizado de forma a garantir o equilíbrio imunológico e o funcionamento normal do metabolismo, já que um possível estresse gerado no tratamento pode alterar o estado físico do paciente.
Ricardo Saraiva Goldman, coordenador do curso de especialização em cirurgia ,e traumatologia da
 
Universidade Metodista de São Paulo e professor titular de cirurgia da Universidade Santa Cecília, informa que existem opiniões divergentes entre especialistas da área médica e odontológica quanto ao uso de anestésicos que utilizam, em sua formulação, o componente vasocons-
tritor, já que o mesmo, associado à adrenalina produzida pelo paciente durante o tratamento, eleva a taxa de glicemia no organismo. "Não existe uma contra-indicação formal para a utilização de anestésicos vasocontritores em pacientes diabéticos. Mesmo os anestésicos que 
contêm em sua composição química a catecolamina podem ser utilizados sem receio, porque o que ela vai produzir de incremento glicose é clinicamente insignificante. O que temos a fazer é tentar abordar esse paciente com técnicas que diminuam estresse e evitem a liberação de adrenalina e outros hormônios, que levam o paciente à hiperglicemia", comenta.
Ainda segundo Goldman, levando-se em consideração que qualquer contaminação
é mais intensa em pacientes diabéticos, devido à queda da defesa orgânica ou a baixa resistência, ainda que a doença esteja compensada, o mesmo deve receber tratamento dentário preventivo, incluindo exames freqüentes, instruções de higiene oral, profilaxia a tratamento de doença periodontal. Já o paciente que precisar ser submetido à intervenção cirúrgica, deve realizar exames pré-operatórios, como hemograma, coagulograma e glicemia, e receber profilaxia antibiótica pré e pós-operatória. "O paciente diabético é um paciente de risco, da mesma forma que um cardiopata e portadores do HIV. Como trabalho em área cirúrgica, considero todos os casos como `balas de canhão'. Não devemos pensar em intervir em um paciente sem antes saber como está a sua glicemia", complementa.
Pacientes portadores de diabetes devem ser sempre tratados de forma a diminuir focos de infecção que contribuam para a descompensação da doença, importante que o trabalho desenvolvido por Cirurgiões-Dentistas com pacientes diabéticos seja acompanhado por outros especialistas, já que, caso a doença não esteja bem controlada, pode colocar a perder todo o tratamento odontológico. "Da mesma forma que uma infecção odontológica pode ser a responsável pela dificuldade de controlar a glicemia, a falta de controle do diabetes faz que o trabalhos executados, não só na cavidade oral, mas em qualquer outro tipo de cirurgia, tenham um prognóstico ruim. Ao encaminhar o seu paciente a endocrinologista para uma orientação a respeito de dietas e exercícios físicos, a fim de atingir uma melhor compensação da doença, o Cirurgião-Dentista tem maior sucesso em seus tratamentos", as- segura Fadlo Fraige.
O paciente diabético deve ter consciência de que ele também assume um papel importante no tratamento de sua doença, já que o diabetes é uma doença para a vida toda. Devido às várias especificidades que envolvem a doença, o tratamento requer cuidados especiais, a fim de se evitarem desequilíbrios metabólicos indesejáveis durante o período de tratamento dentário, como o coma diabético-gerado pelo aumento de cetônicos no sangue - e o coma hipoglicêmico - em que há uma diminuição de glicose no sangue. Portanto, o paciente deve ser instruído pelo médico sobre a dieta e os medicamentos, para que os problemas acima relacionados sejam minimizados.

     Classificação
 


A classificação atualmente recomendada (13,18,19), apresentada no Quadro 1, incorpora o conceito de estágios clínicos do DM, desde a normalidade, passando para a tolerância à glicose diminuída e/ou glicemia de jejum alterada, até o DM propriamente dito.
A nova classificação baseia-se na etimologia do DM, eliminando os termos "diabetes mellitus insulino-dependente" (IDDM) a "não-insulino dependente" (NIDDM), e esclarece que:
- O DM tipo 1 resulta primariamente da destruição das células beta pancreáticas e tem
tendência a cetoacidose. Inclui casos decorrentes de doença auto imune e aqueles nos quais a  causa da destruição das células beta não é conhecida;
- O DM tipo 2 resulta, em geral, de graus variáveis de resistência à insulina e deficiência
relativa de secreção de insulina. A maioria dos pacientes tem excesso de peso e a cetoacidose ocorre apenas em situações especiais, como durante infecções graves;
- A categoria "outros tipos de DM" contém várias formas de DM, decorrentes de defeitos
genéticos associados a outras doenças ou com uso de fármacos diabetogênicos;
-O DM gestacional é a diminuição da tolerância à glicose, de magnitude variável, diagnosticada pela primeira vez na gestação, podendo ou não persistir após o parto. Abrange os caso de DM e de tolerância à glicose diminuída detectados na gravidez;
- Os estágios do DM ocorrem em todos os tipos - no tipo 1 o período de tempo entre os
estágios é mais curto.

Quadro 1: Classificação do diabetes mellitus

Tipo 1: destruição da célula beta, geralmente ocasionando deficiência absoluta de insulina, de natureza auto-imune ou idiopática.
Tipo 2: varia de uma predominância de resistência insulínica com relativa deficiência de insulina, a um defeito predominantemente secretório, com ou sem resistência insulínica.

Outros tipos específicos:
defeitos genéticos funcionais da célula beta
defeitos genéticos na ação da insulina
doenças do pâncreas exócrino endocrinopatias
induzidos por fármacos a agentes químicos 
infecções
formas incomuns de diabetes imuno-mediado
outras síndromes genéticas geralmente associadas ao diabetes
Diabetes gestacional



(*)   Acadêmica de Jornalismo da Universidade São Judas Tadeu, sob supervisão do jornalista Israel Vorreia de Lima