DIETA ALIMENTAR PODE FAVORECER A CÁRIE

O peixe está entre os alimentos que menos contribuem para o aparecimento da cárie, segundo pesquisa da Universidade do Amazonas.

Wilsa Freire

Quem já achava que um bom prato de peixe é motivo de dar água na boca, agora tem mais um argumento para consumi-lo com freqüência. Pesquisa recente feita pela Universidade do Amazonas (UA) na área da Cariologia (Curso de Odontologia) mostra que o peixe é um dos principais inimigos da cárie, doença bucal que mais atinge os brasileiros. Na linguagem acadêmica o peixe não tem potencial cariogênico e pode até combater a cárie.

O trabalho "Potencial Cariogênico de Alimentos na Região Amazônica" foi apresentado como dissertação de mestrado para o curso de Patologia Tropical da Universidade do Amazonas. É assinado pela professora Janete Maria Rebelo Vieira e teve como orientador o professor Jaime Cury, da Universidade de Campinas (Unicamp-SP) e, co-orientadora, Maria Augusta Bessa Rebelo, da UA. O trabalho também foi apresentado no mês passado no Congresso da Associação Internacional de Pesquisa, em Orlando (EUA).

Foram pesquisados quatro alimentos considerados os preferidos dos amazonenses: o tambaqui, as farinhas d'água e seca e o doce de cupuaçu. Durante um mês, 20 voluntários experimentaram porções iguais de cada alimento. Após a ingestão, pesquisou-se a acidogenicidade (ácido) da saliva e da placa bacteriana de cada voluntário, através de microeletrodos.

As análises levaram em conta o PH da pessoa pesquisada. PH é uma espécie de medida que avalia a quantidade de ácido da saliva e da placa dental. Se for alto, significa baixo potencial para a formação da cárie. Se for baixo, seu potencial cariogênico é alto e, portanto, haverá perda dos minerais do dente levando à formação da cárie. Neste último caso, não significa que se deve banir da dieta alimentar o produto de alto potencial cariogênico, o mais importante, de acordo corn a professora e uma das autoras do trabalho, Maria Augusta Bessa Rebelo, é redobrar os cuidados de prevenção da cárie com a escovação logo após as refeições.

O gráfico relativo ao PH do tambaqui mostrou o potencial para a não-formação de ácido, tanto na saliva quanto na placa dental dos 20 voluntários. "Quando eles comeram o tambaqui, o PH subiu" , lembra Maria Augusta. "Tudo indica que o peixe, além de não ser cariogênico, também pode ser considerado anti-cariogênico, mas ainda vamos dar continuidade a essa pesquisa ".

Segundo Maria Augusta, o peixe, além não conter açúcar e ser farto em proteínas, pode ter estimulado o fluxo salivar, que tem capacidade mineralizante, servindo como protetor natural contra a cárie.

"Como nosso objetivo é promover a saúde bucal da população, procuramos detectar quais os fatores que levam a nossa população a desenvolver cárie, explica Maria Augusta". Começamos pela dieta, mas ainda há outros fatores.


Fonte: A Crítica - Manaus, 13/04/97