PUBLICADO NO BOLETIM INFORMATIVO ORTONEWS -  Ano III - N 10 - Nov./Dez. 1997  -  CENTRO MINEIRO DE ESTUDOS ORTODÔNTICOS ( CEMOR) ( BELO HORIZONTE/MG)







ENTREVISTA COM O DR. CLÉBER BIDEGAIN PEREIRA ORTONEWS

Ortonews: Primeiramente, gostaríamos que o senhor falasse sobre sua experiência profissional ( fornecer pequeno curriculum)

CLÉBER: Sem fronteiras nítidas, nem exclusividade, dediquei minhas quatro primeiras décadas, na ortodontia, ao estudo, aprendizado e ensino da cefalometria, antropologia, crescimento e informática. Assim, nessa ordem. Agora, na quinta década, estou revendo todos estes apaixonantes temas. Junto com o Prof. Jurandir Barbosa, estamos editando um CD ROM sobre cefalometria, o que me levou a rever a bibliografia atual e revisar meus alfarrábios, os quais têm muito de antigos - alguns do início do século - mas nada de enfadonhos... Ao contrário, deliciei-me em constatar que ali estão as fontes das verdades de hoje...

Ortonews : Que importância o senhor atribui à Ortodontia, dentro do contexto Odontológico?

CLÉBER: Não se pode pensar em Odontologia sem Ortodontia. A oclusão sem traumas, sem desvios da mandíbula, sem apinhamentos é uma imposição fisiológica que não se pode ignorar. Graves problemas periodontais, da ATN e maior incidência de cáries, são decorrentes, diretamente, de más oclusões dentárias. Ortonews: Sabe-se que nenhum outro profissional, no Brasil, faz mais curso de atualização do que os da área de saúde, incluindo-se aí a Odontologia. Como o senhor avalia este fato?

CLÉBER: Com júbilo, mas sem surpresa. É decorrência da seriedade profissional, nós, comprometidos com a saúde, sentindo o peso da responsabilidade, devemos estar atualizados afim de melhor atender nossos pacientes.

Ortonews: Com base na observação anterior, como o senhor analisa o nível científico destes cursos? Estão propiciando aos participantes uma real atualização nos assuntos propostos?

CLÉBER: A grande maioria dos cursos podem ser avaliados como muito bons, havendo, é claro, os excelentes e uma minoria de medíocres.

Ortonews : Sabemos que o senhor realizou uma valiosa pesquisa craniométrica no Canadá, usando o computador para o cruzamento das medidas. Tomando como base a experiência clínica que o senhor tem e as conclusões de suas experiências, qual é a importância da cefalometria na clínica ortodôntica?

CLÉBER: É imprescindível e fundamental. Os benefícios da cefalometria, na clínica ortodôntica, são múltiplos e importantes. A iniciar que o planejamento ortodôntico baseia-se, fundamentalmente, no diagnóstico, na avaliação do crescimento e no saber e sensibilidade clínica do ortodontista. A cefalometria radiográfica constitui um auxiliar que não se pode desprezar para o correto diagnóstico. Na avaliação do crescimento é indispensável o estudo cefalométrico, o qual se torna ainda com maior valor quando se têm parâmetros telerradiográficos anteriores. Acresce o fato de que hoje, melhor compreendendo o crescimento, ele é avaliado comparando-se com casos o mais semelhantes possíveis, o que requer o diagnóstico preciso, que deve ser feito com o auxílio dos estudos cefalométricos. Nada há de mais claro e evidente, para o aprendizado ortodôntico, do que avaliar muitos e muitos casos clínicos através da cefalometria radiográfica, a qual induz, mais facilmente, à sensibilidade clínica do ortodontista.

Ortonews : Muitos profissionais ainda não acreditam na cefalometria. Sabemos que o Dr. Robert Ricketts é enfático nesta questão. E o senhor, com o seu vasto conhecimento do assunto, tendo até livro publicado, acha que a cefalometria tem influência no diagnóstico e na mecânica?

CLÉBER: O diagnóstico é a base em que se fundamenta o tratamento ortodôntico. Portando, deve-se recorrer a todos os subsídios que nos possam auxiliar. Não há justificativa para avaliar o paciente apenas visualizando suas estruturas faciais externas, quando dispomos dos recursos da cefalometria, que nos permite avaliar as estruturas ósseas e tegumentares. Quanto à mecânica ortodôntica, mesmo com minha experiência clínica de 40 anos, me sentiria muito incômodo se tivesse de planejar a posição dos incisivos sem vê-los em um cefalograma. As possibilidades, que nos oferecem os cefalogramas, de avaliar as posições dos incisivos, com suas bases ósseas, com sua inter-relação, comparando com as demais estruturas esqueléticas e do tegumento, constituem um benefício que não posso imaginar alguém que o despreze, nos dias de hoje. Acrescem as facilidades e vantagens da visualização computadorizada da expectativa de tratamento ortodôntico (VCETO) (*), em que se pode antever os resultados que planejamos. Este é um dos grandes benefícios que a cefalometria radiográfica moderna oferece para o planejamento ortodôntico, possibilitando o registro gráfico do que se pretende e a comparação, posteriormente, com os resultados alcançados, o que serve como fonte inesgotável de aprendizado.

Ortonews : Tornou-se moda a cefalometria computadorizada. O senhor não acredita que é perigoso este modismo, podendo até mesmo afetar os resultados?

CLÉBER: Não vejo a cefalometria computadorizada como um modismo. Pelo contrário, vejo-a como excelente auxiliar em nosso trabalho. Além de poupar a tarefa de medir, a C.C. é absolutamente precisa, sem erros. Trabalhos de pesquisas comprovaram que os programas de C.C. medem com fidelidade (**). Os erros, que ocorrerem, são do operador, na marcação dos pontos, o acontece tanto na Cefalometria tradicional como na C.C. Há, desde logo, uma advertência. É conveniente que os iniciantes em Cefalometria, nos seus primeiros dez anos de aprendizado, usem o transferidor e a régua para melhor sentir, avaliar e amar a Cefalometria, ainda que, paralelamente, façam o computador oferecer-lhes seus resultados, os quais podem ser comparados em busca de erros e acertos.

Ortonews : Com o advento do computador nos consultórios odontológicos, a imagem digitalizada está sendo largamente usada na Ortodontia. Este é um setor que o senhor tem grande domínio. Quais as vantagens e desvantagens deste procedimento?

CLÉBER: Vantagens inexauríveis. Ressalto aqui, somente, o armazenamento. Grandes empresas internacionais estão investindo pesadamente em equipamentos e tecnologia de armazenamento de arquivos eletrônicos. Estejam certos de que, em futuro, próximo, todas as imagens serão eletrônicas. O sistema atual de revelação com emulsão foto sensível, revelável, será esquecido, como aconteceu com os filmes super 8, suplantados totalmente pelo vídeo cassete. Desvantagens: as boas máquinas fotográficas eletrônicas e os projetores de imagens eletrônicas ainda estão caras para o usuário individual.

Ortonews: O computador entrou no consultório odontológico para ajudar ou ainda está atrapalhando?

CLÉBER: No raiar deste século, desenvolveram-se máquinas que vieram aliviar o homem de suas tarefas físicas. Neste fim de século, chega, em todas as atividades humanas, o computador realizando tarefas repetitivas do intelecto humano. Com isso alivia-se a mente do homem para as atividade criativas, mais nobres e gratificantes. Os computadores são apenas máquinas. Nós, que somos inteligentes, devemos ter a capacidade e sabedoria de fazê-los nos ajudar e não atrapalhar.

Uruguaiana (RS) 23 de outubro, 1997


(*)- "Visualização Computadorizada da Expectativa de Tratamento Ortodôntico e/ou Ortognata" - INTRODUÇÃO À INFORMÁTICA NA ODONTOLOGIA - Editora PANCASTE 1996. Revista ORTODONTIA, da Sociedade Paulista de Ortodontia - N 28; Jan./Fev. 1994.

(**) Martins L.P. et al. "Erro de Reprodutividade das Medidas Cefalométricas da Análises de Steiner e de Ricketts, pelo Método Convencional e Pelo Método Computadorizado ". Ortodontia. v. 28, p.4-17, 1995.


NOTA: Outros trabalhos referentes aos temas abordados podem ser encontrados nas homepages: < http://www.bolacel.com.br/alado/index.html> < http://www.bolacel.com.br/spo/index.html> < http://www.bolacel.com.br/cleber/index.html>