TRANSCRITO DA REVISTA "ORTODONTIA", ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PAULISTA DE ORTODONTIA - Ano IV - N 41; Jan./Fev. 1996

ATUALIZADO EM 26/09/97

CEFALOMETRIA EM FUTURO PRÓXIMO

Dr. Cléber Bidegain Pereira

As telerradiografias, com fins cefalométricos chegaram a um excelente grau em qualidade de contraste, mostrando-nos detalhes, tanto do tecido ósseo, quanto tegumentar. Porém, continuam com o mesmo problema inicial de 60 anos atrás: sobrepõem-se imagens da anatomia lateral de um lado e do outro da face. Enquanto for mantida esta sistemática, o computador não será capaz de marcar os Pontos Céfalométricos. Isto tem de ser feito pelo homem, só ele pode avaliar e ponderar as nuanças que se apresentam. Quase adivinhando, algumas vezes, o homem vai interpretando a localização dos acidentes anatômicos que correspondem ao Plano Sagital Médio e aos Planos Laterais. No entanto, isto ocorre com margem de erro, como vem sendo comprovado na bibliografia (*). Espera-se que, no futuro, pela evolução de novos sistemas, como as tomografias computadorizadas (**), imagens em três dimensões (***), ressonância magnética ou outros meios, desconhecidos neste momento, seja possível obter imagens com os contornos anatômicos absolutamente nítidos e sem distorções. Poderá, então, o computador, por si só, marcar os Pontos Cefalométricos com facilidade e precisão, não incorrendo no erro humano. No entanto, não se vislumbra, em futuro próximo, a concretização dessa sistemática ideal. Considerando o exposto, venho propor um sistema alternativo. Um programa de Cefalometria Computadorizada em que o operador trace, unicamente, os contornos anatômicos de interesse na telerradiografia, seja por traço contínuo ou uma série de pontos não comprometidos com os Pontos Cefalométricos. Obter-se-á o traçado a que chamamos, hoje, de Cefalograma, com a diferença de que este, até então, não tem ainda definidos os Pontos Cefalométricos. O computador, tendo agora traços nítidos, poderá determinar os Pontos Cefalométricos peculiares a todas as análises. As vantagens seriam significativas:

1 - Na sua maioria, os pontos cefalométricos, requerem que se tracem linhas e marquem-se intercepções, ângulos ou bissetriz de ângulos, como é o caso de S.T., Gonion, Gnation e outros. Entretanto, isto nem sempre é feito pelo operador, o qual calcula aproximadamente a posição, incorrendo em erro. Mesmo que o operador marque as linhas conforme a técnica, sempre há possibilidade de erro humano. Ao contrário, o computador faria esta operação com precisão absoluta.

2 - Grande parte dos programas de Cefalometria Computadorizada oferecem diversidade de análises com uma só marcação de Pontos Cefalométricos. Isto é muito bom para os Serviços de Documentação Ortodôntica, que devem satisfazer variados grupos de ortodontistas que utilizam técnicas e análises diversas. Por outro lado, para o clínico que faz a sua própria Cefalometria isto é negativo, obriga-o a marcar Pontos Cefalométricos de outras técnicas, com os quais, geralmente, não está familiarizado.

3 - Tornando-se mais fácil e racional o trabalho humano de interpretar as telerradiografias para a cefalometria, maior número de clínicos tomaria a si esta tarefa, impregnando nela o seu entendimento (****) e conhecimento clínico do paciente (*****).

4 - Entendo como muito racional que o operador marque apenas o contorno dos acidentes anatômicos, coisa que o computador não pode fazer. Depois disto, a máquina fará o que pode fazer melhor do que o homem, ou seja, definir os Pontos cefalométricos e calcular todas as análises sem o erro humano.

NOTA: Existe, no mercado brasileiro, um programa de Cefalometria Computadorizada que se assemelha bastante ao que proponho. Marcam-se apenas os pontos requeridos pela análise desejada, e o traçado do cefalograma, sobreposto à telerradiografia, na tela do monitor, pode ser facilmente manipulado e ajustado, com o mouse, pelo operador. Para atingir ao que pretendo, falta apenas desvincular a marcação de Pontos Cefalométricos deste traçado inicial e fazer com que o sistema marque os pontos posteriormente. Para o clínico, que faz a sua cefalometria, este programa poderá parecer, à primeira vista, que tem o inconveniente de necessitar um scanner, da melhor qualidade, com adaptador, o que constitui uma inversão bem maior do que a mesa digitalizadora. Porém, realmente, não há este inconveniente, basta que se requisite, do Serviço de Documentação Ortodôntica, a tele já digitalizada, o que elimina não só a necessidade do scanner como também da mesa digitalizadora.

(*) MARTINS, L.P. et al. "Erro de Reprodutividade das Medidas Cefalométricas das Análises de Steiner e de Ricketts, pelo Método Convencional e Pelo Método Computadorizado ". Ortodontia. V. 28, p.4-17, 1995.

(**) Consultamos Centros de Tomografia Computadorizada e, através da Internet, pesquisamos trabalhos publicados em que se relacionam Cefalometria e Tomografia. Não encontramos informações que nos indicassem possibilidades atuais de utilização da Tomografia, substituindo as Telerradiografias com fins Cefalométricos.

(***) A. F. AYOUB, D. WRAY, K .F. MOOS - Consultores: PEREIRA, C.B. e SILVA, M. E. - A "Modelagem Tridimensional para o Moderno Diagnóstico e Planejamento na Cirurgia Maxilofacial ". Revista Dental Press de ORTODONTIA E ORTOPEDIA MAXILAR.V. 2 - Número 3 - Maio/Junho, 1997.

(****) Marcando o lado esquerdo da face, como recomendado tradicionalmente, ou a média entre os dois lados.

(*****) Marcando a posição e relação dos primeiros molares, do lado esquerdo da face, como ninguém melhor do que o clínico, observando o paciente, pode fazer.