
No 11o Congresso Brasileiro de Ortodontia, em outubro de 1998, tivemos a oportunidade de realizar um "Fórum de Debates" sobre o mercado de trabalho na Odontologia. A mesa de convidados estava assim formada:
Presidente: Dr. Jairo Corrêa
Convidados: Dr. Eros Petrelli - Secretario Geral do Conselho
Federal de Odontologia
Dr. Luiz Edmundo Maron - Chefe do Depto. Jurídico
do Conselho Federal de Odontologia
Dr. Roberto Caprone - Especialista em Marketing na Odontologia
Dr. Hércules Tadeu de Moraes - Vice-presidente
da APCD (Jundiai)
Dr. Sylvio Alves de Aguiar- Colégio Brasileiro
de Cirurgia Buco-Maxilo-Facial
Dr. Waldir Grec - Presidente da Comissão de Convênios
do CROSP
Dr. Mauro Antunes - Diretor Odontológico da CarePlus
e PreventCare, empresas de planos de saúde
Moderador: Dr. José Carlos Gaspar
Os convidados fizeram uma apresentação inicial onde abordaram de forma sucinta temas de acordo com suas áreas de trabalho.
O Dr. Eros Petrelli iniciou as apresentações expondo de maneira realista o que esta acontecendo na Odontologia Brasileira, com estatísticas e fatos preocupantes, pois hoje existe um desequilíbrio entre a oferta e a procura dos serviços odontológicos, principalmente nos grandes centros urbanos, como São Paulo. Para uma população de aproximadamente 168 milhões de habitantes, existe hoje no mercado de trabalho mais ou menos 150 mil cirurgiões dentistas, em uma proporção de 1 dentista pare 1.200 habitantes. Em centros como São Paulo essa proporção chega a 1/400.
A falta de bom senso por parte das autoridades, que permitem a proliferação de cursos de Odontologia, a falta de união da classe odontológica e a ganância por dinheiro dos "Empresários da Educação", tem sido os principais motivos do declínio da profissão.
O Dr. Sylvio Alves Aguiar enfocou a área de Cirurgia
e Traumatologia BucoMaxilo-Facial, manifestando claramente o seu desalento,
uma vez que os cirurgiões bucomaxilofaciais estão, há
muito tempo, sendo tolhidos na sua mais legitima atribuição,
de exercer com dignidade o seu trabalho. Os planos de saúde (médicos)
simplesmente distribuíram indevidamente os procedimentos buco-maxilo-faciais
entre especialidades medicas, barrando o concurso do verdadeiro especialista
nessa área, uma vez que exigem o registro no Conselho Regional de
Medicina. Por extensão, o especialista não pode solicitar
exames de imagens e laboratoriais e muito menos internar pacientes em hospitais,
pois tudo isso esta interligado aos convênios. Nos planos odontológicos
que estão surgindo, são excluídos os procedimentos
cirúrgicos sob anestesia geral e em hospitais, aceitando cirurgias
ambulatórias que não tenham nenhuma característica
estética ...
O Dr. Hércules Tadeu de Moraes defendeu
a idéia de que, além do fato do número elevado de
Cursos de Odontologia, vivemos também um momento em que o profissional
perdeu o senso do raciocínio, em termos de custo / beneficio, o
que significa concorrer com preços abaixo dos níveis mínimos
para produzir trabalho digno ou aceitando trabalho em empresas, sem direitos
trabalhistas, esquecendo seu custo médio para se formar:
· 5 anos de graduação = R$ 65.000,00
· 2 anos de pós-graduação
= R$ 30.000,00
· Montagem do consultório (simples) = R$
30.000,00
O Dr. Luiz Edmundo Maron defendeu a tese, como advogado do CFO, que este tem feito o possível para coibir esses desacertos, procurando inclusive punir aqueles que transgridem as regras; porém, o território nacional e muito grande e o próprio dentista deveria ajudar o Conselho, apontando erros profissionais ou pessoas inescrupulosas dentro da Odontologia.
O Dr. Mauro Antunes fez uso da palavra, fazendo um breve histórico de sua vida, orientada para a área de saúde publica (pós-graduação), onde acompanhou as transformações no mercado de trabalho na última década, com o crescimento de empresas que atuam na área de assistência odontológica. Com a regulamentação da lei 9656 de 03/06/98, que disciplina o funcionamento das operadoras de planos e seguros privados de saúde, é previsível uma alavancagem maior para o plano de saúde bucal. O conhecimento dessa realidade de mercado e imprescindível para o profissional que pretenda prosperar em sua atividade.
O Dr. Roberto Caprone, com sua experiência na área de marketing, salientou o fato de que não existe a crise odontológica brasileira e sim, um momento grave de transformação global, isto é, não se justifica mais o dentista se fechar em seu consultório enquanto o mundo passa lá fora em alta velocidade. Toda crise traz novas tendências e mudanças. A crise pode ser nossa grande aliada, se soubermos aproveitar as novas oportunidades que surgem.
O Dr. Waldir Grec observou que atualmente é grande o número de cirurgiães dentistas com lacunas em sua agenda, e como solução, oferecem seus serviços aos convênios, acertando qualquer proposta e quaisquer valores, sem preocuparem-se em ler o contrato que estão assinando, qual o prazo de pagamentos e qual suas obrigações para com a empresa ou seus deveres para com os clientes. Isto leva a uma distorção, onde a oferta de mão-de-obra especializada é grande, deixando as empresas de convênios em situação excelente, pois podem celebrar contratos leoninos com seus credenciados. Ou as autoridades políticas, classisistas e a própria sociedade se mobiliza para alterar esse quadro, ou estamos fadados ao fracasso, onde o grande perdedor será o paciente.
Terminada essa primeira fase, passamos imediatamente a seguinte, devido ao adiantado do horário, e o debate foi aberto ao excelente publico presente, que pode assim esclarecer dúvidas, principalmente sobre a atuação dos Conselhos Federal e Estadual, que somente podem agir sobre atos ou fatos que venham a denegrir nossa profissão através de denuncias por escrito a esses órgãos.
Após 3 horas de intensa discussão, o fórum foi encerrado. Algumas conclusões, que certamente irão acrescentar soluções, para que nossa profissão e aqueles que a ela se dedicam continuem gozando de estima pela sociedade em que vivemos.
1.Coibir a criação de novos cursos de Odontologia e diminuir urgentemente o número de vagas oferecidas;
2. A união da Classe entre entidades odontológicas, buscando uma maior representatividade junto aos órgãos públicos;
3. Criar junto a mídia melhor orientação do público sobre os cuidados na escolha profissional ou planos de saúde;
4. Informar melhor o profissional sobre os deveres e principalmente os direitos dentro da nova legislação, para que os colegas saibam recusar contratos ilícitos ou mal elaborados;
5. O CFO deverá dar o amparo legal aos profissionais de cirurgia buco-maxilo-facial, bem como divulgar suas atribuições a todos os profissionais da área de saúde;
Esclarecimentos:
1. No último exame nacional dos Cursos de Odontologia sobre a qualidade de ensino apenas 12 obtiveram conceito A.
2. O Conselho Federal de Odontologia mudou de autarquia para direito privado, com novos estatutos que permitem a qualquer momento, realizar exames para exercício profissional (como o da Ordem dos Advogados). O Conselho Federal de Odontologia entrou com pedido para que os novos Cursos de Odontologia sejam avaliados pelo mesmo antes de entrar com a solicitação de instalação no MEC.
Este Fórum está
aberto, sua manifestação será bem vinda
Manifestação de Cléber Bidegain Pereira, C.D.
Mensagens otimistas, podem ter valor para levantar
o ânimo e revigorar o alento. Porém, quando fogem da realidade
tem efeitos maléficos.
A realidade é que segundo pesquisa realizada pelo
CFO (*) as Faculdade de Odontologia Brasileiras formam 10 mil profissionais
ao ano, um crescimento três vezes maior do que o de habitantes.
No nosso entendimento, ocorre que o governo tem como uma de suas
metas baixar o preço dos serviços na Odontologia, aumentando,
desabridamente, o número de profissionais na área. O governo
sabe que com isto está diminuindo a qualidade dos serviços
a níveis calamitosos, sabe que a Odontologia necessita de técnica,
materiais, equipamentos e tempo para realizar a boa Odontologia que
tínhamos. Mesmo assim, segue, obstinadamente, determinado em cumprir
sua meta, como vem fazendo em outros setores, mesmo as custas da exterminação
da produção interna. Não nos cabe aqui julgar se vale
a pena pagar um preço tão alto para que objetivos, desconhecidos
por nós, sejam atingidos.
O Sistema Previdenciário, durante anos, arrancou
grossa fatia do ganho dos trabalhadores brasileiros e não poupou
o que arrecadou. Agora, que deve devolver o arrecadado, a Previdência
está falida. Para fugir da obrigação de cuidar da
saúde bucal dos previdenciários, criou-se a obrigatoriedade
dos Seguros de Saúde incluírem a Odontologia em seus Planos,
sem interessar-se pela qualidade dos serviços, responsabilidade
que é transferida para o profissional que realiza o tratamento.
Acredito que todos os itens concluídos no Fórum
são válidos e devem ser perseguidos, como já vem sendo
feito, pelo CFO e a ABO-Nacional. Estou convicto de que o item três:
" melhor orientação do público sobre os cuidados na
escolha profissional ou Planos de Saúde " cabe,
principalmente, a Associações Regionais e aos profissionais
individualmente. Nossos esforços devem ser dirigidos neste
sentido, não só usando a mídia, como em outros meio
de comunicação, inclusive na Internet e, também, dentro
de nosso consultório, como diz o Dr. Carlos Rodrigues, Presidente
da SOGAOR: " quando o paciente entra em nosso consultório não
podemos perder esta oportunidade de lhe transmitir informações
sobre a boa ortodontia."
Estou muito ligado a Internet e venho percebendo que
o público leigo está, cada vez mais, buscando informações
nas homepages profissionais. Não podemos perder está oportunidade.
As homepages das Associações Odontológicas devem criar
paginas para leigos, como tem a homepage da SPO, da ALADO, da SOGAOR e
outras. Da mesma forma as homepages particulares de Odontólogos,
com ética, inteligência e bom senso podem-se oferecer
informações sobre os valores mínimos, recomendados
pela ABO, de alguns procedimentos odontológicos. Daí induzir
ao leigo que procure saber quanto a sua Seguradora de Saúde está
pagando, para o profissional, por estes procedimentos.
Será fácil demonstrar que nenhum Odontólogos pode,
por exemplo, realizar uma boa restauração pelo preço
vil de R$ 8,00 que lhes pagam algumas das Seguradora. Uma endodontia multiradicular
por pouco mais que isto.
Devemos cerrar fileiras na tabela da ABO, buscando argumentos,
verdadeiros e convincentes, de que abaixo destes valores não
é possível realizar um bom trabalho.
A questão dos valores que as Seguradoras pagam
aos profissionais da Odontologia é tão importante que as
Associações, poderiam levar aos tribunais o crime se está
comentando contra a saúde dos brasileiros.
Por outro lado, como recomenda o Fórum
Mercado de Trabalho, deve procurar-se conscientizar o Cirurgião
Dentista de que não pode aceitar preços vis, pois os maus
trabalhos resultantes serão de sua responsabilidade nos tribunais.
(*) Conferência do Dr. Eros Petrelli
na ABORJ
Valores Referenciais p/ Convênios
e Credenciamentos
Seguros de Saúde na Odontologia
Legalidade dos Arquivos
Eletrônicos
Mercado de Trabalho na Odontologia
Apoio da ABO-Nacional e
da ABO/RS
Manifestação do Dr. Oger Souza Pinto, C.D. - Porto Alegre / RS
FÓRUM MERCADO DE TRABALHO
Em relação à minha opinião,
posso dizer que este assunto é muito oportuno,
importantíssimo. Sua chance de acesso pela sua
coluna deve ser aproveitada
ao máximo.
O que deve acontecer num futuro próximo em relação
às seguradoras, mercado
de trabalho, honorários e atendimento ao público
pode ser influenciada e
quem sabe até ser definida pelo cirurgião-dentista.
Nós somos quem realiza o
trabalho e não os administradores que são
quem visam ter o lucro sobre o
trabalho dos CDs.
É necessário MUITA informação
aos CDs , aos que estão chegando ao mercado de trabalho
( para não cair na tentação de aceitar o vil ), aos
estudantes que
vão enfrentar o futuro destas decisões
e ao público que receberá atendimento
e que espera um bom atendimento.
Devemos expor o assunto ao máximo para poder influenciar
nossa posição e
fazer com que não sejam tomadas decisões
que venham a nos prejudicar e, sobretudo, prejudicar a saúde
dos brasileiros.
Cabe aos professores, representantes de classe , e todos
os CDs em destaque
se posicionarem e fazer prevalecer nossas idéias
e intenções. Num futuro próximo todos seremos influenciados
pela entrada no mercado de trabalho das seguradoras,
quer seja um atendimento privado ou social e comunitário.
É bom que nos adiantemos em tomar uma posição
pública senão não teremos
condições de nos manifestar e influenciar
qualquer posição, correndo o risco
de ficar à mercê de quem quer ter lucro
com o trabalho de nossa classe e nos
deixarem maneados ao seu proveito.
Com certeza o desejo dos CDs será de poder executar
seu trabalho dentro de
critérios técnicos e com segurança,
podendo ser remunerado de uma forma
digna, e proporcionar à população
os cuidados necessários que é a
expectativa de todos.
Se for realizado um bom planejamento, um grupo ou corporação
seguradora
poderá obter o retorno financeiro desejado, o
profissional de saúde terá
boas condições de trabalho, e a população
será recompensada com o
atendimento. Trata-se de uma seqüência que
deve ser respeitada.
Esta é apenas a minha opinião, que com certeza
deve ser a de muitos CDs.
Se puder manifestar sua opinião não perca
tempo, mas também devemos recorrer
às pessoas com algum poder de influencia.
Um grande abraço,
Oger Souza Pinto
FÓRUM MERCADO DE TRABALHO
Devemos é centralizarmos o fato de que há
muitas faculdades, e que a associação, mão de obra
abundante e barata, com seguradoras cheias de apetite finaceiro resultará
em um desmoronamento acelerado da Odontologia.
Também insisto em que se divulgue que não
vale a pena ter seguro saúde
para a Odontologia na grande maioria dos casos. Ter um
custo mensal,
geralmente alto, para usufruir de serviço de odontologia
não é compensador.
Não é compensador para o dentista, que
sendo mal remunerado e para o paciente, que muitas vezes fica anos sem
ter problemas de saúde bucal, e quando tem, não precisa "vender
a casa" para pagar o tratamento.
Em algumas situações onde valeria a pena,
no caso de pessoas parcialmente
ou totalmente edêntulas, a maioria dos convênios
e seguros não cobrem o tratamento. Na Ortodontia fixa muito menos.
Isto tem que ser passado para o consumidor.
Luiz Vittorio Laghi C.D.