TRANSCRIÇÃO PARCIAL DA ENTREVISTA DO PROF. JOEL CLÁUDIO DA ROSA MARTINS - A INTEGRA DA ENTREVISTA ESTÁ NA REVISTA DENTAL PRESS ORTODONTIA E ORTOPEDIA FACIAL - VOLUME 3 - NÚMERO 6 - NOVEMBRO DEZEMBRO 1998


 


Qual a sua opinião sobre a tendência não extracionista que se verifica na  Ortodontia atual?
Dr. Marco Antônio Lopes Feres

Marco, quando sairá o seu livro?
Este debate, que se percebe na literatura, iniciou-se com Angle e Case no inicio do século e mantém-se  até os nossos dias, mas precisa ser bem entendido. A dúvida que o clínico tem ao definir um novo plano de tratamento dos casos limítrofes e que mantém acesa em nossa mente o velho debate. Uma coisa é o debate na literatura e outra e a dúvida de extrair ou não extrair, no dia-a-dia de consultório. Quando se lê a respeito do debate e constata-se que Angle era sistematicamente contra as extrações e que Case só extraia em 10% dos seus casos, ficamos um pouco decepcionados com a importância do debate registrado na literatura. Na verdade, parece indubitável que Case tinha razão e que Angle era muito radical e dogmático. Dificilmente hoje, algum profissional que se identifica como não extracionista extrai menos do que 10%. Então o debate começou como uma farsa ou um equívoco de interpretação. Mas como se entende que o debate continue vivo ainda hoje? Até a metade do século, o debate ficou vivo, porque o prestígio de Angle era muito grande no seio da especialidade e seus seguidores, escolhidos por ele mesmo entre os melhores, mantiveram o principio conservador do mestre, denunciando as extrações como um procedimento mutilador. O primeiro seguidor de Angle a se rebelar e, por isso, ser considerado um traidor foi Tweed. A ele atribui-se a responsabilidade por manter o debate vivo a partir da metade século. Tweed, inconformado com o insucesso de 70% de seus casos sem extração, tratados conforme o principio do mestre, estudou, aplicou e publicou os resultados que se tornaram nas bases cientificas do tratamento com extrações. Na verdade, Angle não tinha um principio, era mais um dogma. Uma crença, e Tweed foi levado a radicalizar em reação, provavelmente, pela sua profunda frustração com o tratamento conservador de Angle. Seus resultados com extração eram espetaculares para a época e o mundo inteiro trocou o Guru Angle por um Guru mais moderno e  "cientifico"  e  a partir desta época os " ares se encheram de pré-molares ". Nesta época, o medo pela recidiva de apinhamentos levou muitos profissionais a negligenciar a importância de um perfil mais cheio. Mesmo o padrão de beleza para o perfil era mais reto. Muitos resultados com boa oclusão e perfil côncavo fizeram com que o tratamento sem extrações voltasse a ter a preferencia dos Ortodontistas num momento seguinte. A recidiva começou a aparecer também nos casos com extrações e o debate voltou com força total a literatura especializada. Muitas pesquisas foram feitas e, hoje, sabe-se que o tratamento com extração não assegura a estabilidade. Sabe-se, por outro lado, que expandir a dimensão intercaninos é um sinal de recidiva no futuro e que o perfil só se altera significantemente com extrações. Assim, extrair pode ser a melhor alternativa para atingir o objetivo de alinhar os dentes sem expandir o arco e obter um perfil harmonioso nos casos com apinhamento e/ou perfil convexo. Entretanto vieram os desgastes interproximais indicados para os apinhamentos menores, os braquetes colados, os aparelhos "Straight Wire" e os fios de superelasticidade para facilitar o alinhamento dos dentes com apinhamento leve ou moderado, e veio também uma certa tolerância para a biprotrusão, o que fez com que muito dos casos "limitrotes" fossem tratados de forma conservadora hoje. Nada de errado nisto. A contenção no arco inferior "pra sempre" retirou do ar a questão da recidiva do apinhamento de incisivos inferiores e assim se consolidou a tendência não extracionista que vivemos hoje.
É preciso entender corretamente a tendência no meio da classe especializada e não confundi-la com o modismo, a incompetência de muitos que não tiveram um bom treinamento profissional, ou mesmo a pressão conservadora dos clínicos gerais. Extrair ou não, no caso limítrofe, ainda é uma preferencia profissional, uma intuição. embasada em conhecimento empírico, experiência e sensibilidade artística. Por isso o paciente deve participar da decisão depois que ele ou os seus responsáveis forem bem esclarecidos das vantagens e desvantagens. Sistematizar a decisão e extrair quando necessário e não nos casos em que o tratamento pode ser bem realizado sem extrações. Extrair nestes casos é  tão errado como insistir em tratar sem extrações os caves onde  a extração esta indicada para manter os dentes com bom suporte ósseo e obter-se um perfil agradável e um alinhamento razoavelmente estável. Acima do debate, vão  continuar existindo os casos onde  a extração é necessária e casos onde aextração está contraindicada. O desafio vai continuar sendo: " como saber o que vai ser melhor para o meu paciente, este que eu vou começar a tratar hoje ". Sempre vai existir um fator que se pode chamar " intuição" que vem da experiência pessoal, da percepção clínica, ou da sensibilidade humana, que nunca vai ser sistematizado, e que influirá na decisão porque um paciente e sempre único e diferente de qualquer número ou media que a ele se queira atribuir. Não extrair, porque o guru ordenou, não  é inteligente também. Talvez o exagero conservador possa ser atribuído, não ao debate em si, mas a um conjunto de fatores contemporâneos que não tem nada de ciência:  falta de tempo pare fazer um bom diagnostico e, então, é melhor generalizar "todos sem extração"; falta de treinamento em biomecânica e, então, é melhor generalizar "todos com expansão"; falta de leitura dos clássicos da Ortodontia e, então, é melhor generalizar "todos como todos hoje fazem"; falta de profissionalismo e, então, é melhor considerar "todos iguais" no inicio sem extração e depois vamos ver como é que fica", se não der a gente extrai; falta de segurança e então é melhor "todos com o Guru". Definir os objetivos de tratamento é o ponto fundamental, atingi-los sem um bom treinamento é improvável. O melhor resultado para o nosso paciente só pode ser obtido, se, ao definir o plano de tratamento, não permitirmos que nenhum Guru reside na nossa mente e que nenhuma "tendência" influencie a nossa decisão. O nosso paciente é único e para ele a única regra válida é a da individualidade, inerente às formas da face humana.
 
 

Joel Cláudio da Rosa Martins


                Curso do Professor Joel na Sogaor
 

               Seminário sobre Imagenes

                Carta do Professor Joel
 

                         Prêmio ao Professor Joel 

                 Notícias da Sogaor  
 

                         Erro em Cefalometria 
 

                    Um crescimento surpendente 
 
 

                         Mudanças no Padrão Esquelético - Sumário 
 

                 Recordações do Joel - Ortodontia SPO   

                 Recordações do Joel - Sogaor