
Qual a sua opinião sobre
a tendência não extracionista que se verifica na Ortodontia
atual?
Dr. Marco Antônio Lopes Feres
Marco, quando sairá o seu livro?
Este debate, que se percebe na literatura, iniciou-se
com Angle e Case no inicio do século e mantém-se até
os nossos dias, mas precisa ser bem entendido. A dúvida que o clínico
tem ao definir um novo plano de tratamento dos casos limítrofes
e que mantém acesa em nossa mente o velho debate. Uma coisa é
o debate na literatura e outra e a dúvida de extrair ou não
extrair, no dia-a-dia de consultório. Quando se lê a respeito
do debate e constata-se que Angle era sistematicamente contra as extrações
e que Case só extraia em 10% dos seus casos, ficamos um pouco decepcionados
com a importância do debate registrado na literatura. Na verdade,
parece indubitável que Case tinha razão e que Angle era muito
radical e dogmático. Dificilmente hoje, algum profissional que se
identifica como não extracionista extrai menos do que 10%. Então
o debate começou como uma farsa ou um equívoco de interpretação.
Mas como se entende que o debate continue vivo ainda hoje? Até a
metade do século, o debate ficou vivo, porque o prestígio
de Angle era muito grande no seio da especialidade e seus seguidores, escolhidos
por ele mesmo entre os melhores, mantiveram o principio conservador do
mestre, denunciando as extrações como um procedimento mutilador.
O primeiro seguidor de Angle a se rebelar e, por isso, ser considerado
um traidor foi Tweed. A ele atribui-se a responsabilidade por manter o
debate vivo a partir da metade século. Tweed, inconformado com o
insucesso de 70% de seus casos sem extração, tratados conforme
o principio do mestre, estudou, aplicou e publicou os resultados que se
tornaram nas bases cientificas do tratamento com extrações.
Na verdade, Angle não tinha um principio, era mais um dogma. Uma
crença, e Tweed foi levado a radicalizar em reação,
provavelmente, pela sua profunda frustração com o tratamento
conservador de Angle. Seus resultados com extração eram espetaculares
para a época e o mundo inteiro trocou o Guru Angle por um Guru mais
moderno e "cientifico" e a partir desta época
os " ares se encheram de pré-molares ". Nesta época, o medo
pela recidiva de apinhamentos levou muitos profissionais a negligenciar
a importância de um perfil mais cheio. Mesmo o padrão de beleza
para o perfil era mais reto. Muitos resultados com boa oclusão e
perfil côncavo fizeram com que o tratamento sem extrações
voltasse a ter a preferencia dos Ortodontistas num momento seguinte. A
recidiva começou a aparecer também nos casos com extrações
e o debate voltou com força total a literatura especializada. Muitas
pesquisas foram feitas e, hoje, sabe-se que o tratamento com extração
não assegura a estabilidade. Sabe-se, por outro lado, que expandir
a dimensão intercaninos é um sinal de recidiva no futuro
e que o perfil só se altera significantemente com extrações.
Assim, extrair pode ser a melhor alternativa para atingir o objetivo de
alinhar os dentes sem expandir o arco e obter um perfil harmonioso nos
casos com apinhamento e/ou perfil convexo. Entretanto vieram os desgastes
interproximais indicados para os apinhamentos menores, os braquetes colados,
os aparelhos "Straight Wire" e os fios de superelasticidade para facilitar
o alinhamento dos dentes com apinhamento leve ou moderado, e veio também
uma certa tolerância para a biprotrusão, o que fez com que
muito dos casos "limitrotes" fossem tratados de forma conservadora hoje.
Nada de errado nisto. A contenção no arco inferior "pra sempre"
retirou do ar a questão da recidiva do apinhamento de incisivos
inferiores e assim se consolidou a tendência não extracionista
que vivemos hoje.
É preciso entender corretamente a tendência
no meio da classe especializada e não confundi-la com o modismo,
a incompetência de muitos que não tiveram um bom treinamento
profissional, ou mesmo a pressão conservadora dos clínicos
gerais. Extrair ou não, no caso limítrofe, ainda é
uma preferencia profissional, uma intuição. embasada em conhecimento
empírico, experiência e sensibilidade artística. Por
isso o paciente deve participar da decisão depois que ele ou os
seus responsáveis forem bem esclarecidos das vantagens e desvantagens.
Sistematizar a decisão e extrair quando necessário e não
nos casos em que o tratamento pode ser bem realizado sem extrações.
Extrair nestes casos é tão errado como insistir em
tratar sem extrações os caves onde a extração
esta indicada para manter os dentes com bom suporte ósseo e obter-se
um perfil agradável e um alinhamento razoavelmente estável.
Acima do debate, vão continuar existindo os casos onde
a extração é necessária e casos onde aextração
está contraindicada. O desafio vai continuar sendo: " como saber
o que vai ser melhor para o meu paciente, este que eu vou começar
a tratar hoje ". Sempre vai existir um fator que se pode chamar " intuição"
que vem da experiência pessoal, da percepção clínica,
ou da sensibilidade humana, que nunca vai ser sistematizado, e que influirá
na decisão porque um paciente e sempre único e diferente
de qualquer número ou media que a ele se queira atribuir. Não
extrair, porque o guru ordenou, não é inteligente também.
Talvez o exagero conservador possa ser atribuído, não ao
debate em si, mas a um conjunto de fatores contemporâneos que não
tem nada de ciência: falta de tempo pare fazer um bom diagnostico
e, então, é melhor generalizar "todos sem extração";
falta de treinamento em biomecânica e, então, é melhor
generalizar "todos com expansão"; falta de leitura dos clássicos
da Ortodontia e, então, é melhor generalizar "todos como
todos hoje fazem"; falta de profissionalismo e, então, é
melhor considerar "todos iguais" no inicio sem extração e
depois vamos ver como é que fica", se não der a gente extrai;
falta de segurança e então é melhor "todos com o Guru".
Definir os objetivos de tratamento é o ponto fundamental, atingi-los
sem um bom treinamento é improvável. O melhor resultado para
o nosso paciente só pode ser obtido, se, ao definir o plano de tratamento,
não permitirmos que nenhum Guru reside na nossa mente e que nenhuma
"tendência" influencie a nossa decisão. O nosso paciente é
único e para ele a única regra válida é a da
individualidade, inerente às formas da face humana.
Curso do Professor Joel na Sogaor
Mudanças no
Padrão Esquelético - Sumário