ANÁLISE DO LÁBIO SUPERIOR APÓS O TRATAMENTO ORTODÔNTICO
ANALYSIS OF UPPER LIP AFTER ORTHODONTIC TREATMENT
João Batista de Paiva*
José Rino Neto*
Klaus Barretto Lopes**
RESUMO
O objetivo, no presente trabalho, é analisar a posição do lábio superior e dos incisivos superiores ao início e ao final do tratamento ortodôntico e correlacionar as possíveis alterações encontradas nestas estruturas. Para isto, foram selecionadas 13 documentações ortodônticas de pacientes dos gêneros masculino e feminino, brasileiros, leucodermas, com idades entre nove e 16 anos, tratados com extrações dos quatro primeiro premolares. As documentações dos pacientes foram selecionadas, subjetivamente, por meio de suas fotografias de frente e de perfil, nas quais foi observada uma nítida alteração da projeção do lábio superior entre as fases inicial e final do tratamento ortodôntico. Utilizando-se telerradiografias em norma lateral, foram desenhados os cefalogramas de cada paciente e medidas as grandezas cefalométricas 1.NA, 1-NA e SnPerp-Ls. Após a análise estatística dos valores encontrados, concluiu-se que houve diminuição estatisticamente significativa da projeção do lábio superior e dos valores lineares dos incisivos superiores ao final do tratamento. Embora, tenha ocorrido diminuição dos valores angulares dos incisivos superiores, não foi significante estatisticamente. Houve correlação positiva entre as medidas 1.NA e SnPerp-Ls, isto é, quanto maior a vestibularização dos incisivos superiores, maior a projeção do lábio superior e entre as medidas 1-NA e SnPerp-Ls, isto é, quanto maior a protrusão dos incisivos superiores maior a projeção do lábio superior.
* Professor Doutor do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria
da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.
** Professor Doutor do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria
da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.
*** Mestrando em Ortodontia pelo Curso de Pós-graduação
da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.
ANALYSIS OF UPPER LIP AFTER ORTHODONTIC TREATMENT
The purpose of this study is to observe the upper lip
and upper incisor positions after orthodontic treatment and to correlate
any changes in these structures. Thirteen records were obtained from male
and female Brazilian patients, ages 9-16 years, who were leucoderms, with
the extraction of the four first bicuspid teeth. Front and lateral photos
were used to select the patients in which a clear change of the upper lip
was observed between the beginning and the end of the orthodontic treatment.
Two cephalometric films were traced for each of the subjects. The findings
of this investigation revealed a statistically significant decrease of
the upper lip projection and linear values of the upper incisors at the
end of treatment. A decrease of the angular values was also found, but
not statistically significant. Positive correlation was observed between
the angular values of the upper incisor and the upper lip, which means
that the higher the inclination of the upper incisor, the higher is the
upper lip protrusion. Positive correlation was also observed between the
linear values of the upper incisor and the upper lip, which means that
the higher the protrusion of the upper incisor, the higher is the upper
lip protrusion.
INTRODUÇÃO E REVISÃO DE LITERATURA
O perfil facial, assim como sua relação
com as estruturas ósseas e dentárias, tem sido objeto de
estudos freqüentes na Ortodontia e Ortopedia Facial.
Angle, em 1907, já se preocupava com a harmonia
do perfil facial, afirmando que a ausência de dentes poderia levar
ao posicionamento inadequado dos lábios e, como conseqüência,
um perfil não harmônico. Por outro lado, Case, em 1911, postulava
que, a oclusão normal caracterizada pela presença de todos
os dentes, não resultaria sempre na correção das deformidades
dentofaciais. Em 1958, Burstone afirmou que a oclusão excelente
deveria ser avaliada em relação à harmonia facial
ótima e que o estudo do padrão dento-esquelético,
isoladamente, seria inadequado para avaliar a desarmonia facial.
Estando insatisfeito com os resultados obtidos em sua
clínica particular e em busca da obtenção de equilíbrio
facial, da estabilidade da correção, de um sistema mastigatório
eficiente e da longevidade dos tecidos dentários e periodontais,
Tweed, em 1944, estabeleceu metas cefalométricas para a posição
dos incisivos inferiores ao final do tratamento ortodôntico. A partir
destes estudos, a posição do incisivo se tornou uma referência
amplamente utilizada para se obter o equilíbrio facial. Porém,
com o passar dos anos, alguns autores2,10 verificaram que nem sempre
a posição cefalométrica do incisivo inferior dentro
dos valores de normalidade, proporcionava equilíbrio facial.
Com o crescente interesse em se conhecer os resultados
da movimentação ortodôntica sobre os tecidos moles
e as possíveis alterações faciais, alguns autores
2,7 passaram a pesquisar referências extracranianas que contribuíssem
na realização do diagnóstico. Conseqüentemente,
as metas cefalométricas e as variações das medidas
intracranianas seriam menos determinantes nos objetivos a serem alcançados
após o tratamento ortodôntico.
Subtelny, em 1959, ao estudar as relações
entre os tecidos moles e as estruturas esqueléticas concluiu que
a espessura dos tecidos moles apresenta variações, podendo
não refletir a real posição das estruturas dento-esqueléticas.
Arnett et al., em 1999, recomendaram o uso de valores
específicos para analisar a espessura dos tecidos moles de homens
e mulheres. Interlandi, em 1999, afirmou que a estética facial tornou-se
o fator prioritário na posição dos dentes, sobrepondo
a análise do perfil sobre a do osso basal.
Steiner, em 1953, utilizando as linhas NA e longo
eixo dos incisivos superiores, ddeterminou que as medidas angulares e lineares
ideais para os incisivos superiores e inferiores em relação
às suas respectivas bases ósseas deveriam ser 1.NA = 22º
e 1-NA= 4 mm. Epker, em 1995, utilizou a linha SnPerp (subnasal perpendicular
ao plano de Frankfurt) e a porção mais anterior do vermelhão
do lábio superior para analisar a posição ântero-posterior
do lábio superior, determinando a norma clínica de zero a
± 2 mm para a posição do lábio superior. Segundo
o autor, quando o lábio se encontra a frente da linha SnPerp, o
suporte para o lábio é excessivo e quando o lábio
se encontra atrás desta linha, o suporte para o lábio é
insuficiente.
As alterações dos tecidos moles decorrentes
da movimentação dentária têm sido objeto de
constantes estudos. Rains e Nanda, em 1982, analisaram como os lábios
se comportam no movimento de retração dos incisivos. Verificaram
que a resposta do lábio superior está relacionada ao movimento
dos incisivos superiores e inferiores, à rotação mandibular
e ao movimento do lábio inferior. Tentando predizer as mudanças
do perfil decorrentes da retração dos incisivos superiores,
Talass et al., em 1987, analisaram e digitalizaram 80 cefalogramas de telerradiografias
de mulheres que apresentavam maloclusão de Classe II, divisão
1ª, que foram tratadas com retração dos incisivos superiores
e 53 mulheres que não foram tratadas. Verificaram que o comprimento
do lábio superior não aumentou com o crescimento nem com
o tratamento ortodôntico e que, em geral, as alterações
decorrentes do movimento ortodôntico dos dentes anteriores foram
mais previsíveis no lábio inferior que no lábio superior.
Yogosawa, em 1990, estudou as mudanças do perfil em pacientes com
protrusão maxilar e com biprotrusão. Os resultados mostraram
que, quanto maior a protrusão maxilar, maior a projeção
dos lábios inferiores e que a espessura do pogônio mole, após
a retração dos dentes anteriores, diminuiu com o movimento
superior dos lábios inferiores em pacientes com protrusão
maxilar. A retração do lábio superior ficou em torno
de 40% da extensão da retração dos incisivos superiores,
sendo que nos casos com protrusão maxilar, a mudança foi
menor que nos casos com biprotrusão. A retração do
lábio inferior foi em torno de 70% da retração dos
incisivos superiores. Kokodinsky et al., em 1997, ao estudarem as alterações
do lábio superior associadas ao tratamento ortodôntico, com
retração dos incisivos superiores em adultos jovens, encontraram
uma correlação estatisticamente significativa nos pacientes
que possuíam lábios finos e muito tensionados, isto é,
quanto maior a retração dos incisivos superiores, maior a
retração do lábio superior. Entretanto, de acordo
com os autores, devido à variação dos resultados,
a predição de alterações da posição
do lábio superior decorrente da retração dos incisivos,
é complexa. Kocadereli, em 2002, comparou a resposta dos tecidos
moles do perfil facial de pacientes com maloclusões de Classe I,
tratados com extrações de quatro premolares. Concluiu que,
nos pacientes submetidos às extrações dentárias,
os lábios superiores e inferiores se mostraram mais retruídos.
A proposta neste trabalho é analisar, quantificar
e correlacionar as possíveis alterações do lábio
superior e dos incisivos superiores, após a retração
dos dentes anteriores, nos pacientes que realizaram tratamento ortodôntico
com extrações dos quatro primeiros premolares.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram utilizadas 26 telerradiografias em norma lateral
e 52 fotografias de frente e perfil (pré e pós-tratamento)
de 13 pacientes dos gêneros masculino e feminino, brasileiros, leucodermas,
com idades entre nove e 16 anos, tratados empregando-se a técnica
do arco de canto com extração dos quatro premolares. As radiografias
e fotografias pertenciam ao acervo de documentação do Departamento
de Ortodontia e Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade
de São Paulo.
Os pacientes foram selecionados, subjetivamente, por
dois ortodontistas, por meio de fotografias inicial e final de frente e
perfil seguindo os seguintes critérios ao final do tratamento: todos
os pacientes deveriam apresentar alterações nítidas
do lábio superior, vedamento labial passivo e equilíbrio
do terço inferior da face, isto é, lábio superior,
lábio inferior e pogônio mole harmônicos entre si (Figuras
1 e 2).
A partir das telerradiografias em norma lateral, foram
desenhados cefalogramas iniciais e finais individuais, sendo utilizadas
as seguintes grandezas cefalométricas (Figura 3):
1. Ângulo 1.NA formado pela intersecção
do longo eixo dos incisivos superiores com a linha NA.
2. Medida linear 1-NA distância do ponto mais
vestibular da coroa clínica dos incisivos superiores à linha
NA.
3. Medida linear SnPerp-Ls distância da linha
perpendicular ao Plano de Frankfurt que passa pelo ponto Sn, ao ponto mais
proeminente do lábio superior.
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Método estatístico
Cálculos de média, desvio padrão,
valores mínimos e máximos foram feitos para cada variável.
As variáveis se distribuíram normalmente (coincidência
da mediana com os valores médios). As médias das medidas
obtidas ao início e ao término do tratamento ortodôntico
foram analisados por meio do teste t de Student para dados pareados.
A correlação entre as medidas cefalométricas
foi realizada por meio do coeficiente de correlação de Pearson.
Os níveis de significância utilizados foram P < 0,001,
P < 0,01, P ? 0,05. Um valor de P > 0,05 foi considerado não
significativo (ns).
Erro do método
Todas as medidas cefalométricas foram obtidas
por um único operador e o erro do método (EM) foi medido
utilizando-se oito radiografias selecionadas aleatoriamente. A fórmula
de Dahlberg foi utilizada nos cálculos: ME = ?(? (d2)/2n, onde d
é a diferença entre os dois registros pareados e n é
o número de registros duplos. Os resultados dos cálculos
do erro do método são mostrados na tabela I.
Tabela I Valores encontrados para o erro do método das medidas
cefalométricas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Análise angular da posição do incisivo
superior ao início e ao fim do tratamento (1.NA)
Quando os valores encontrados para a posição
angular inicial dos incisivos superiores em relação à
base do crânio foram analisados (Tabela II), observou-se que as médias
apresentavam-se maiores do que os valores preconizados por Steiner (1953).
Quando analisados os valores, após o tratamento,
dos incisivos superiores em relação à sua base óssea
(Tabela III), verificou-se que as médias finais mostraram-se próximas
dos valores propostos por Steiner. Comparando-se as medidas cefalométricas
iniciais e finais (Tabela IV), é possível notar diminuição
das medidas 1.NA, passando de 24,4º para 21,2º, porém
não estatisticamente significativas.
Análise linear da posição do incisivo
superior ao início e ao fim do tratamento (1-NA)
Quando os valores da posição linear inicial
dos incisivos superiores em relação à sua base óssea
foram analisados (Tabela II), observou-se que as médias encontradas
apresentavam-se maiores do que os valores propostos por Steiner.
Os valores médios das posições finais
dos incisivos superiores em relação à sua base óssea
(Tabela III), mostraram-se próximos dos valores recomendados por
Steiner.
Comparando-se as medidas cefalométricas iniciais
e finais de tratamento (Tabela IV), verificou-se uma diminuição
estatisticamente significante da medida 1-NA, passando 6,6 mm para 4,3
mm.
Análise da posição do lábio superior ao início e ao final do tratamento (SnPerp-Ls)
Os valores médios iniciais da medida SnPerp-Ls
(Tabela II) apresentaram 4,8 mm, acima dos 2 mm propostos por Epker (1995),
o que sugere protrusão do lábio superior. Já os valores
médios finais da mesma medida (Tabela III) apresentaram 1,6 mm,
estando dentro do desvio padrão proposto pelo autor, o que confirma
o posicionamento equilibrado do lábio superior ao final do tratamento,
observado subjetivamente no exame inicial da fotografia de perfil da documentação
ortodôntica do paciente.
Comparando-se os valores médios iniciais
e finais da medida SnPerp-Ls (Tabela III), foi observada diminuição
estatisticamente significativa do SnPerp-Ls de 4,8mm para 1,6mm, o que
indica que houve movimento de retração dos lábios
superiores.

Tabela III Freqüência, média, desvio padrão,
mínimo e máximo

Correlação das alterações
dos incisivos superiores com as do lábio superior
Correlação entre as medidas 1.NA e SnPerp-Ls
Utilizando-se o coeficiente de correlação
de Pearson, foi encontrado um valor de 0,45627754 com p = 0,05. Isto significa
que, quanto maior a vestibularização dos incisivos superiores,
maior a projeção do lábio superior (Tabela V).
Correlação entre as medidas 1-NA e SnPerp-Ls
Utilizando-se o coeficiente de correlação
de Pearson, foi encontrado um valor de 0,45914985 com p = 0,05. Isto significa
que, quanto maior a protrusão dos incisivos superiores, maior a
projeção do lábio superior (Tabela IV).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise objetiva do perfil facial, isto é,
aquela que se baseia em dados numéricos oriundos de amostras de
normalidade, tem sido utilizada rotineiramente. Por outro lado, a análise
subjetiva do perfil originária da avaliação clínica,
sem levar em consideração os dados numéricos, tem
sido gradualmente introduzida como elemento de diagnóstico para
o planejamento ortodôntico. Isto não significa que os valores
numéricos deixam de ser utilizados, simplesmente, eles deixam de
ser determinantes por si só em termos de extrações
ou não para o planejamento do tratamento ortodôntico. O valor
numérico será analisado na face como um todo, podendo produzir
planos de tratamento diferentes.
No presente trabalho, que teve sua amostra escolhida,
subjetivamente, em função do perfil facial equilibrado, observado
nas fotografias da documentação ortodôntica final,
os resultados numéricos estão próximas dos preconizadas
pelos autores4,7,12, tanto no que diz respeito ao perfil dos tecidos moles
quanto ao posicionamento angular e linear dos incisivos superiores. Isto
demonstra que os dados numéricos da análise facial tem um
alto grau de embasamento subjetivo. Os autores7,12, ao definirem valores
para as faces equilibradas, as analisaram, primeiramente sobre um ponto
de vista subjetivo. Assim, em vista dos resultados obtidos neste trabalho,
o uso da análise subjetiva parece ser uma ferramenta objetiva que
pode e deve ser utilizada para o diagnóstico em ortodontia, uma
vez que se aceite que o ortodontista seja capaz de reconhecer, na análise
clínica, um perfil facial harmônico.
CONCLUSÕES
A partir da análise dos dados provenientes das
telerradiografias laterais iniciais e finais dos pacientes desta amostra,
pode-se concluir que:
1. Os incisivos superiores apresentaram, ao final do
tratamento, diminuição nos valores angulares (1.NA), porém
não estatisticamente significantiva.
2. Os incisivos superiores apresentaram, ao final do
tratamento, diminuição, estatisticamente, significativa dos
valores lineares (1-NA).
3. O lábio superior apresentou, ao final do tratamento,
diminuição, estatisticamente, significativa do valor
SnPerp-Ls.
4. Houve correlação positiva entre as medidas
1.NA e SnPerp-Ls, isto é, quanto maior a vestibularização
dos incisivos superiores, maior a projeção do lábio
superior.
5. Houve correlação positiva entre as medidas
1-NA e SnPerp-Ls, isto é, quanto maior a protrusão dos incisivos
superiores maior a projeção lábio superior.
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