PREFÁCIO DA 1 .ª EDIÇÃO

A literatura ortodôntica brasileira tem exibido um roteiro caracterizado, até o presente, pela ausência de linha de pesquisa.
Esta particularidade não a desqualifica perante a bibliografia internacional, uma vez que os trabalhos publicados denotam o esforço individual de pesquisadores, na maioria egressos dos cursos de pós-graduação, desvinculados de estruturas de apoio diversas, a que logram uma contribuição eficaz para o acérvulo científico ortodôntico nacional. Este caminho mistilínio da pesquisa, no entanto, parece constituir-se regra geral na história da ortodontia: quando a "lei das transformações" (Wolff) foi enunciada nos fins do século passado, embora com fundamentos de natureza puramente osteológica (é Brodie quem nos diz), a ortodontia desviou-se de seus rumos, dobrando esquinas abruptamente, mesmo no campo da clínica, para algum tempo após reconsiderar tendências, corrigir erros a se recolocar novamente num roteiro aceitável. Mais tarde, já neste século, foi necessário que Milo Hellman descobrisse que "função" não era a única determinante de "forma", para que o corpo de doutrina ortodôntico, então, se orientasse para bases realmente científicas, já com algum roteiro de pesquisa. Surgia o fator "crescimento" completando o triângulo sagrado (função, forma, crescimento) que vem lastreando os fundamentos clínicos que hoje todos obedecemos.

Após Hellman, os trabalhos cefalométricos iniciados por Broadbent pareceram-nos coroar historicamente o avanço científico da ortodontia, ao pretender expressar numericamente grandezas ósseas e tegumentares, caracterizando assim bases antropométricas orientadoras de futuras investigações.

Sem dúvida, o histórico geral da ortodontia, portanto, concatena-se com o desenvolvimento da literatura entre nós, ambos desvinculados de uma linearidade que dificulta a caracterização da pesquisa e o esboço do seu processo de desenvolvimento. Mesmo assim, o clínico já devia ter às mãos, de há muito, um manual de orientação para o entendimento cefalométrico dos problemas ortodônticos. Isto lhe é brindado agora com o presente trabalho de Cléber Bidegain Pereira, Carlos Alberto Mundstock e Telmo Bandeira Berthold. Preenche-se então uma lacuna, a se vêem as publicações ortodônticas brasileiras enriquecidas, mercê do trabalho dedicado a constante destes autores.

Introdução à cefalometria radiográfica, a despeito da intenção despretensiosa dos autores, se estruturou sob o ponto de vista didático, corretamente, pois a alternância dos capítulos propicia ao leitor.

uma lúcida introdução aos problemas básicos para então tomar contato com o complexo tema das interpretações.

É evidente que o pioneirismo desta obra reclama dos autores obediência à necessária continuidade dos propósitos didáticos, de sorte que, a seguir, o leitor seja levado objetivamente à experiência maior de servir-se da cefalometria no âmbito clínico.

Compreender a "manusear" ortodonticamente o crescimento, é a experiência vivificante que deve emergir na clínica, em decorrência da contínua tarefa de familiarizar-se com os cefalogramas, traçando-os a estudando-os. Já escrevi algures, e me permito repetir aos leitores deste trabalho, o que entendo ser de grande importância sempre que se inicia o emprego clínico das telerradiografias: "...a telerradiografia significa sempre um momento, no roteiro individual de um determinado paciente, na progressão à maturidade. Sempre que o instantâneo se desvincula da realidade passada ou do potencial que se irá configurar no futuro, a informação do presente se dilui numa somatória de dados flutuantes a desordenados, de parcos significados para o clínico".

Presentemente, a ortodontia se vê convidada, com freqüência, ao emprego de computadores para os mais diversos misteres de um consultório. É pertinente, em meu entender, a lembrança de que a máquina deve ainda permanecer atrás do homem. Com isto, manifesto minha preocupação com a circunstância do clínico procurar no vídeo os dados numéricos finais de qualquer análise, desprezando a oportunidade insubstituível de "trabalhar" sobre um cefalograma, para o descortino de diagnósticos a planos de tratamento. Creio ser recomendável o acesso às informações de forma rápida a eficiente, que o computador permite; porém, sem descuidar-se de que "experiência clínica" é também a realidade que somente aparece após a alimentação ordenada a paulatina do mais extraordinário computador que existirá sempre em cada consultório: a mente humana.

S. INTERLANDI



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