Introdução à Cefalometria Radiográfica - 5ª Edição

Capítulo IX - Posição Ideal dos Incisivos

Para o plano de tratamento ortodôntico, o ponto de partida é planejar qual a posição ideal em que desejamos recolocar os incisivos. A modificação nas posições dos incisivos centrais, no sentido póstero-anterior, chama-se discrepância cefalométrica (DC). A DC será negativa quando se tem de levar os incisivos para trás, e será positiva quando se tem de levar os incisivos para a frente. A avaliação da discrepância cefalométrica é uma das importantes contribuições da cefalometria radiográfica.

A posição ideal dos incisivos, que desejamos prever, não é uma simples procura da oclusão dos incisivos superiores e inferiores. É necessário ter em conta várias imposições fisiológicas, morfológicas e estéticas, as quais se tem procurado transformar em fórmulas e sistemas. Estes intentos, que passaremos a descrever, são valiosos guias que nos servem de orientação básica; porém, cada paciente é um indivíduo com características próprias que têm de ser respeitadas. Será a sensibilidade clínica do profissional que irá determinar a posição dos incisivos, depois de avaliar as considerações cefalométricas e o exame direto do paciente.


Considerações

  1. A posição em que os incisivos se encontram, na maloclusão, é uma posição de equilíbrio. Para modificá-la deveremos buscar uma outra posi-ção que também seja de equilíbrio.
  2. Os incisivos inferiores são os dentes guias para a determinação da Discrepância Cefalométrica (DC). Em primeiro lugar se determina a sua posição. Com base nela, se determina a posição dos incisivos superiores.
  3. Regra geral, os incisivos inferiores são levados para trás, ou são mantidos na posição inicial. Raramente devem ser levados para frente. Assim sendo, a DC dos incisivos inferiores geralmente é negativa ou zero.
  4. A tonicidade muscular perioral e a língua são importantes fatores que determinam a posição dos incisivos. Quando falta espaço para o posicionamento de todos os dentes na arcada dentária, haverá apinhamento se a musculatura perioral for hipertônica. Haverá biprotrusão se a musculatura for hipotônica, a língua determinará protrusão dos incisivos, inclusive com diastemas. Os casos extremos de macroglossia requerem a redução cirúrgica da língua, como único meio para retruir estavelmente os incisivos.
  5. Deve-se ter cautela em modificar a posição retrusiva dos incisivo inferiores quando ela é determinada por hipertonia da musculatura do lábio inferior. É preferível deixar o incisivo inferior nesta posição, pois se ele for protruído poderá ocorrer a recidiva ao ser retirada a contenção.
  6. Os incisivos inferiores podem ser levados para frente, alguns milímetros, quando eles foram retruídos pela quebra do “arco contido”. Nos incisivos inferiores, a ação do "arco contido" é a força mais importante que se antepõe contra a ação retrusiva da musculatura labial e a componente distal da força mastigatória. Assim, quando há quebra do "arco contido" pela perda precoce de algum dente da arcada dentária inferior, poderá ocorrer retrusão dos incisivos interiores. Se há possibilidades de restaurar o "arco contido" pode-se protruir ligeiramente os incisivos inferiores.
  7. Pequeno apinhamento da arcada dentária inferior, com giroversões, também quebra o "arco contido". Nestes casos, a restauração do "arco contido" nos permite levar discretamente os incisivos interiores para a frente 1 a 1,5 mm.




  8. A hipertonia da musculatura labial inferior é o fator mais limitante no plano de tratamento.
  9. A discrepância cefalométrica (DC) do incisivo inferior deverá ser multiplicada por dois para se ter a discrepância cefalométrica da arcada dentária inferior (Dca) (DC x 2 = DCa).

Principais Forças que Atuam Sobre os Incisivos

Devido à anatomia radicular há maior número de fibras ligamentosas na face palatina, O que oferece maior resistência contra o movimento anterior.

Musculatura perioral.

Componente horizontal das forças mastigatórias atuando no incisivo superior.

Componente horizontal das forças mastigatórias atuando no incisivo inferior.

Ação do arco contido.

Ação da língua

Musculatura perioral.

Maior número de fibras ligamentosas na face vestibular, o que oferece maior resistência contra os movimentos para trás.


Cálculo da Discrepância Total

É imposição fisiológica que os dentes devem estar inseridos em suas bases ósseas. Quando falta ou sobra espaço para que os dentes sejam corretamente posicionados em suas bases ósseas há discrepância. Ao ser planejada a posição ideal dos incisivos, evidencia-se a discrepância cefalométrica, já referida. Há ainda para considerar o espaço existente no osso basal e o espaço requerido para os dentes serem alinhados na arcada, chamado de discrepância do modelo. Discrepância total é a soma da discrepância cefalometria com a discrepância do modelo.

A discrepâncìa é calculada na arcada dentária inferior.

Espaço requerido (ER). Soma dos diâmetros mésio-distais dos dentes, de mesial a mesial dos 1° molares permanentes inferiores.

Espaço presente (EP). Distância existente, no arco basal da mandíbula, de mesial a mesial dos 1° molares permanentes inferiores.

Discrepância do modelo (DM). Diferença entre o espaço presente e o espaço requerido. Isto é, o que falta ou sobra, em milímetros, para que os dentes, de mesial a mesial dos 1° molares, possam alinhar-se dentro dos limites do arco basal.

Discrepância cefalométrica (DC). Valor, em milímetros, da mudança de posição, no sentido póstero-anterior, que se planeja para os incisivos. A discrepância é negativa quando os incisivos são levados para trás e positiva quando são levados para frente.

DCa - Discrepância cefalométrica do arco. É a DC multiplicada por dois. Isto é necessário, pois o que ocorre com os incisivos repercute nos dois segmentos laterais da arcada dentária.

DT - Discrepância total. Soma algébrica da discrepância do modelo mais a discrepância cefalométrica do arco. É o que falta ou que sobra, em milímetros, no total, para que os dentes possam acomodar-se, alinhadamente, na arcada e na posição ideal planejada para os incisivos, no sentido posterior-anterior. Mais informações, sobre discrepância de modelo, na dentição permanente e mista encontram-se em: http://www.acbo.org.br/revista/livro_cefalometria


ER - Espaço Requerido
EP - Espaço Presente
DM - Discrepância do Modelo
DC - Discrepância Cefalométrica
DCa - Discrepância Cefalométrica do Arco
DT - Discrepância Total
Discrepância Total
EP - ER = DM DC x 2 = DCa
DM + DCa = DT

Discrepância Total
EP - ER = DM DC x 2 = DCa
DM + DCa = DT

Fórmula de Margolis

Na tentativa de encontrar uma fórmula para determinar a posição ideal dos incisivos inferiores, procurou-se, inicialmente relacioná-los com o lano mandibular. Margolis apresentou a fórmula:

Plano mandibular.1 = 90° + ou - 5°

A fórmula de Margolis, da mesma forma que o ângulo de 93° preconizado por Steirner são satisfatórios naqueles casos em que o plano mandibular tem inclinação “normal”.
Quando o plano mandibular a presenta inclinações diferentes do "normal", como inclinação exagerada para baixo, em relação ao horizonte, o que é relativamente freqüente a fórmula de Margolis e o ângulo de 93º passam a ser insatisfatórios.

Com SN.Go-Gn = 32°, o ângulo de 93° para o longo eixo do 1 com Go-Gn é plenamente satisfatório (1.NB = 25º e 1-NB = 4mm).

Nos casos de rotação da mandíbula, como este, em que SN.Go-Gn = 44°, os mesmos 93° de 1.Go-Gn são totalmente insatisfatórios. Os incisivos inferiores, neste caso, estão protruídos (1.NB = 37º e 1-NB=9mm).


Caso Clínico

Rotação da mandíbula para baixo a para trás (SN.Go-Gn = 45°). Incisivos inferiores com Go-Gn = 85°. Segundo Margolis, estaria no limite mínimo aceitável para não ser considerado uma retrusão dentária. Para este caso, a inclinação do incisivo inferior é plenamente satisfatória, ainda que ele esteja ligeiramente protruído, de acordo com Steiner (1.NB = 27° e 1-NB = 7mm).


Caso Clínico Modificado

Caso clínico anterior (modificação esquemática)

Modificou-se o desenho do caso clínico anterior, dando-lhe rotação da mandíbula (SN.Go-Gn = 23º). Ainda que os 85° do 1.Go-Gn tenham se mantido iguais, houve uma total variação na posição do incisivo inferior, em relação ao restante da face. Enquanto no caso original havia uma leve protrusão do incisivo inferior, aqui há uma acentuada retrusão. O incisivo inferior que estava 7mm na frente de NB passou a ficar -3mm atrás dessa linha. O ângulo 1.NB que era 27º, passou a ser 10º.


Triângulo de Tweed

Tweed, em seu extraordinário trabalho "The Frankfurt-Mandibular Plane Angle in Orthodontic Diagnosis, Classification, Treatment Planning and Prognosis", publicado em 1946, concebe a idéia de vincular o incisivo inferior com o plano de Frankfurt. Este acontecimento, que hoje nos parece muito natural, foi um grande avanço para a ortodontia. Tweed idealizou o triângulo que tomou o seu nome, cujos componentes são: Plano de Frankfurt - Plano Mandibular - Longo Eixo de 1.


Denomina os ângulos com as siglas:

FMA = Frankfurt Mandibular Plane Angle
FMIA = Frankfurt Mandibular Incisor Angle
IMPA = Incisor Mandibular Plane Angle





Valores Preconizados por Tweed

Quando FMA é = 25° (+ ou - 4°) deverá ter FMIA = 66°
Quando FMA é > ou 30° deverá ter FMIA = 65°
Quando FMA é > ou 20° deverá ter IMPA não > 92°



Esclarecimento: O sinal > utilizado no trabalho original do Tweed significa igual ou maior. É a soma dos dois sinais.


Caso Clínico de Triângulo de Tweed



FMA 25° + ou - 4° = FMIA 68°
> 30° = FMIA 65°
< 20° = IMPA não > 92º

FMA = 29° entra no primeiro ítem da fórmula de Tweed, que preconiza FMIA = 68°.

Já temos, portanto, dois dos três ângulos:

FMA = 29° (que permanece constante)
FMIA = 68° (dado pela fórmula)

Sabendo que a soma dos três ângulos de qualquer triângulo, é sempre 180°, tendo dois deles, pela operação que segue encontra-se o terceiro (IMPA).

180° - (29° + 68°) = 83°

Assim, neste caso, com FMA = 29 °, Tweed recomenda:

IMPA = 83°

Obtida a DC do incisivo inferior, o posicionamento do incisivo superior se faz buscando uma oclusão satisfatória entre os incisivos.

Na figura abaixo, o triângulo com linhas cheiras é o original do paciente. O triângulo com o longo eixo do incisivo em pontilhado, representa a posição recomendada por Tweed.

Quando se encontra o novo valor para IMPA, no caso 83º, subtrai-se este valor do IMPA original do paciente (no caso 104°) e se obtém a DC do incisivo inferior em graus.

104° - 83° = 21°

Se o movimento do incisivo for para trás, como no caso, a DC será negativa. Portanto, -21° é a DC do caso.


Para transformar graus em milímetros usa-se a fórmula 5° = 1mm. Dividindo o valor encontrado em graus por 2,5 se tem o valor em milímetros.


DC = -21° + 2,5 = -8,4mm
-8,4 é a DC em milímetros


Toda a movimentação do incisivo inferior repercute nas duas hemi arcadas. Assim a DC do incisivo deve ser multiplicada por 2, para se ter a DC da arcada dentária.


Dca = DC x 2
Dca = -8,4 x 2 = -16,8 mm

-16,8 é a DC da arcada dentária inferior


Críticas ao Triângulo de Tweed

O método de Tweed resulta em posição retrusiva dos incisivos, segundo o critério de estética nos estados do sul dos EUA. Também, no nosso meio gostamos do perfil mais cheio, discretamente biprotrusivo.

A formula de Tweed para transformar graus em milímetros sofreu muitas críticas. Há variações significativas em diferentes alturas da borda incisal do incisivo inferior e o plano mandibular, como pode-se observar no desenho acima.

É recomendável desenhar o incisivo na nova posição, que se pretende levar, com os grãos que lhe corresponde, e então ai medir a distância em milímetros, ao invés de usar a fórmula recomendada por Tweed.


Caso Clínico 2



FMA 25° + ou - 4° = FMIA 68°
> 30° = FMIA 65°
< 20° = IMPA não > 92º


FMA = 26° pede, pela proposta de Tweed, FMIA = 68°
Cálculo de IMPA: 180° - (26° + 68°) = 86°


97º - 86º = 11º
DC = -11º


-11° - 2,5° = -4,4mm
DC = -4,4mm
Dca = 4,3 x 2 = 8,8mm

DC da arcada inferior: - 8,8mm

Este caso apresenta uma leve biprotrusão dentária, com perfil discretamente biprotrusão, o qual nos agrada muito. Para Tweed isto seria uma acentuada biprotrusão que necessitaria retruir o incisivo inferior 4,4 mm.

Recolocação de Incisivos de Steiner

Compromisso aceitável de Steiner

Em seu terceiro importante trabalho sobre cefalometria, “The use of cephalometrics as an aid to planning and assessing orthodontic treatment,” publicado em 1960, Steiner preconiza uma nova fórmula para o cálculo da discrepância cefalométrica dos incisivos. Baseia-se em que não se pode determinar uma posição ideal para os incisivos inferiores e pretender levar os incisivos superiores ao seu encontro, sem tomar em conta as variações do ângulo ANB.

Steiner esclarece que aquela relação, angular e linear, que ele estabelece para os incisivos em seu cefalograma, é válida quando o ANB é igual a 2°. Quando o paciente apresenta valores diferentes de 2°, ele recomenda valores também diferentes para as posições dos incisivos. Determina a posição ideal para o incisivo superior e para o incisivo inferior, levando em conta o valor do ângulo ANB.


Compromisso aceitável de: 1.NA (ângulo); 1-NA (mm); 1.NB (ângulo); 1- NB (mm) para diferentes valores do ângulo ANB.

Problema de Steiner

Partindo do compromisso aceitável, Steiner faz o planejamento da posição ideal, individual, a qual os incisivos devem estar posicionados no final do tratamento.

Em primeiro lugar avalia o quanto deverá ter ANB no final do tratamento. Para isso considera: valor inicial do ANB, idade e tendência facial de crescimento do paciente, a técnica e aparatologia empregadas e a experiência em casos similares.


Steiner tem ainda em conta a proposição de Holdaway, que recomenda, para os incisivos inferiores, uma distância de NB igual a do pogônio a NB. Avalia- se o quanto o pogonion terá no final do tratamento, considerando que ele aumenta aproximadamente 2mm após os 11 anos.

LINHA "I"

Todo estudo cefalométrico possibilita dois tipos de avaliações:

1 - Usada por Tweed, Steiner e outros, baseando-se em referências numéricas, preestabelecidas pelos autores, como padrões normais (apriorística);
2 - Denominada por Interlandi como morfodiferencial, caracterizando-se por não pretender imposição numéricas, pondo de relevo determinadas relações morfológicas. Baseado nesta idéia, Interlandi apresenta a linha "I", que é uma análise morfodiferencial para determinar a posição normal dos incisivos inferiores e, conseqüentemente, dos incisivos superiores, tendo ainda a vantagem de circunscrever-se à região dentoalveolar, ao contrário de outras proposições, que envolvem planos de referência afastados da área anatômica em estudo.

A linha “I” é traçada do ponto P' ao ponto E.

A posição normal dos incisivos inferiores, segundo Interlandi, é identificada pela coincidência da linha “I” com o limite lingual da borda incisal daqueles dentes. Quando estiver na frente da linha I, diz-se que há discrepância negativa. Quando essa referência estiver por trás da linha “I”, a discrepância é positiva.

Determinação da inclinação do incisivo inferior

Tendo já a localização ideal da borda incisal do incisivo inferior, a sua inclinação é obtida com a determinação da posição do ápice radicular, que deve estar, nos casos normais, ligeiramente mais próxima da cortical lingual, na imagem da sínfise mandibular.

Determinação da inclinação do incisivo superior Tendo já determinada a posição correta do incisivo inferior, conseqüentemente, já se tem a posição da coroa do incisivo superior, que deve cobrir o inferior, em acordo com os princípios clássicos de oclusão. Resta a localização do ápice radicular, que é encontrado fazendo-se o prolongamento de seu longo eixo passar por trás do ponto mais inferior da órbita, ou tangente à imagem ínfero- posterior dela.

Deve ser considerado que a linha "I” foi elaborada num período em que a ortodontia se valia de valores cefalométricos sem a ênfase que destinamos hoje, aos tecidos tegumentares. Portanto, o emprego da linha “I”, se restringe, no meu entender em meu em policiar também. a relação de proximidade com a limite anterior do periodonto. principalmente no que se refere ao início das recessões gengivais no segmento anterior da arcada dentária inferior.


Individualizacão da Posição Ideal dos Incisivos

Na determinação da discrepância cefalométrica, o triângulo de Tweed, o compromisso aceitável de Steiner, a,linha I e outros métodos similares são de valor como avaliação inicial. Porém, devem ser considerados em conjunto com as características individuais do paciente, muito especialmente com os tecidos de capeamento da face.

No estudo cefalométrico, os tecidos de capeamento da face carecem de dois tipos de abordagem: tonicidade muscular e perfil tegumentar.

Tonicidade Muscular

Os dentes como os encontramos na boca, seja em boa oclusão ou em maloclusão, estão em posição de equilíbrio entre as diversas forças que sobre eles atuam. As modificações que realizarmos terão de ser feitas buscando outra posição também de equilíbrio, sob pena de haver posteriormente a recidiva.

A tonicidade da musculatura labial é um dos fatores atuantes nos incisivos, no sentido póstero-anterior. A musculatura labial hipertensa é capaz de determinar posição retrusiva de incisivos. A hipotonia da musculatura labial, deixando preponderar a força exógena da língua, é capaz de determinar posição protrusiva dos incisivos. Daí ser necessário considerar a tonicidade muscular perioral quando calculamos a posição ideal dos incisivos, em busca da discrepância cefalométrica.

Tweed, Steiner e Interlandi nos oferecem proposições iniciais, baseadas unicamente na situação esquelética do paciente. Cabe ao clínico, introduzir outras variantes, peculiares ao paciente em estudo, tais como as possibilidades de equilíbrio em outras posições de incisivos. Quando há exagerada hipertonia da musculatura do lábio inferior, não podemos pretender levar os incisivos inferiores para frente, por mais que outros fatores nos indiquem a fazê-lo. A recidiva seria seqüência certa.

Ao contrário da hipertrofia muscular, a hipotonia pode ser corrigida com exercícios.

Graber a outros desenvolveram a eletromiografia labial, medindo a tonicidade muscular com a intenção de oferecer informações objetivas para o posicionamento dos incisivos. No entanto, não se conseguiu aproveitar esta aferição a nível clínico. Deve ser a sensibilidade clínica do profissional que transporta sua avaliação para o planejamento.

A ação desta tonicidade muscular está ainda relacionada com o comprimento dos lábios e a posição dos incisivos no sentido póstero-anterior e no sentido vertical. O lábio inferior grande pode cobrir toda a face vestibular do incisivo superior, exercendo maior ação sobre ele do que teria em caso normal, cobrindo apenas dois terços da coroa. Da mesma forma, incisivos superiores muito baixos ou lábios superior curto, sofrem menos a ação do lábio superior e estão mais vulneráveis a ação do lábio inferior.

Quando há grande sobressaliênca incisal (overjet), o lábio inferior posiciona- se entre os incisivos superiores e inferiores, exercendo força indesejável, principalmente, nos incisivos superiores.

Perfil Tegumentar

A beleza do perfil tegumentar da face é uma das metas do ortodontista. A localização dos incisivos, no sentido posterior-anterior, e sua conseqüente repercussão na posição dos lábios, tem preponderante importância no perfil tegumentar do terço inferior da face. Portanto, ao se buscar a posição ideal dos incisivos, para calcular a sua discrepância, terá de se levar em conta o que ocorrerá com o perfil tegumentar em seu aspecto estético.

Conceituando o belo, nos reportamos a Voltaire: "Não há nada mais lindo, para o sapo, do que a sapa". Efetivamente, a beleza é subjetiva, de avaliação individual e varia no tempo e no espaço em função de grupos sociais ou artísticos. As artes plásticas, como a pintura e a escultura, vêm, através dos tempos, incutindo conceitos de beleza. Os grupos sociais ou raciais, em manifestação de aceitação própria, avaliam-se como belos. Esta é uma consideração válida que deve ser respeitada. Não devemos aceitar conceitos alienígenos, como no caso o perfil retrusivo de Tweed e sim respeitar os nossos próprios conceitos de perfil levemente biprotruso.

Ao se buscar uma posição estética para os lábios procura-se também um bom feche labial. Isto é, os lábios em posição de repouso devem fazer contato.

Assim sendo, aqueles valores que nos indica Tweed, compromisso aceitável de Steiner, linha I, etc., baseados unicamente no problema esquelético, devem ser adaptados às condições musculares e às peculiaridades do perfil tegumentar do paciente (tamanho do nariz, espessura dos lábios, tamanho do mento mole). Também devem ser considerados os conceitos estéticos do grupo a que pertence o paciente, bem como suas características raciais.

Por outro lado, algumas vezes são as condições esqueléticas que limitam nossos propósitos estéticos no tegumento.

Isto posto, compreende-se que o planejamento, da posição dos incisivos, deve considerar todas as ocorrências individuais de cada paciente.

Nota: Por certo que a cirurgia ortognata é a melhor solução para os casos de discrepâncias esqueléticas que não podem ser compensadas com reposicionamento dentário. Porém, não cabe aqui avançar nestas considerações, as quais podem ser econtradas em:

www.acbo.org.br/revista/livro_cefalometria

Pontos do Perfil Tegumentar







Ls - Labial superior: ponto mais proeminente do lábio superior
Stm - Stamion: intersecção do orifício bucal com o plano médio sagital
Li - Labial inferior: ponto mais proeminente do lábio inferior
Spm - Supramentoniano: ponto mais profundo no sulco mentoniano
Pg' - Pogonion tegumentar: ponto mais proeminente do mento

Linha "H" de Holdaway

Linha de Holdaway. Passa nos pontos mais proeminentes do lábio superior (Ls) e do mento (Pg'). Em perfil harmônico deve cortar a metade da base do nariz e deixar o lábio inferior ligeiramente para trás. Este é um conceito estético bem aceito em nosso meio.


Importância dos Tecidos de Capeamento no Perfil Tegumentar

Caso com estruturas esqueléticas e dentárias normais. Apresenta perfil levemente biprotruso devido ao volume dos lábios.
O mesmo caso anterior, em que se alterou, esquematicamente, apenas o perfil tegumentar. Aumentou- se o tamanho de pogônio mole, do nariz e diminuiu-se a espessura dos lábios, resultando um perfil côncavo (retrusivo).

Caso Clínico 3


Idade: 11 anos
Sexo: feminino



FMA 25° + ou - 4° = FMIA 68°
> 30° = FMIA 65°
< 20° = IMPA não > 92º


Cálculo de IMPA
180° - (128° + 68°) = 84°
84° - 90° = -6°
-6° ÷ 2,5 = -2,4mm

Caso com nariz, pogonion ósseo e pogonion mole grandes, lábios relativamente finos, determinando, somente por estes fatores, um perfil côncavo (retrusivo). Um mau perfil, para o nosso conceito de beleza, agravado ainda com o fato de que é um paciente jovem. Com o passar dos anos, nariz a pogonion devem crescer ainda mais, acentuando, por si só, o perfil retrusivo. Ainda assim, com todo este perfil retrusivo, o triângulo de Tweed, sem considerar outros fatores além do esquelético, recomendaria retruir os incisivos 6°, ou seja, -2,4mm. Pela linha “I”, de Interlandi, deveríamos protruir os incisivos.


Caso Clínico 4


Idade: 12 anos
Sexo: feminino


FMA 25° + ou - 4° = FMIA 68°
> 30° = FMIA 65°
< 20° = IMPA não > 92º


Cálculo de IMPA
180° - (29° + 68°) = 83°
83° - 88° = -5°
-5° ÷ 2,5 = -2mm

Caso com pogonion grande. Segundo Tweed, que não considera pogonion, deveria-se retruir os incisivos em -2mm. A linha “I” tem discrepância zero. A linha “H” sugere protrusão dos incisivos. Seguindo o nosso conceito de beleza gostaríamos de protruir os incisivos. No entanto, neste caso há ANB negativo. Se levarmos os incisivos para frente, deveremos fazer o mesmo com os incisivos superiores e com isto iríamos afastá-los demasiadamente de sua base ósseas. Apresenta-se assim fator esquelético que limita nosso propósito estético de protruir incisivos. Por certo que a cirurgia do mento é a melhor solução. Porém, nosso intento aqui é mostrar, de forma elementar, a ocorrência de fatores esqueléticos limitando propósitos estéticos.


Variação Racial

Dois casos apresentados por Sassouni como normais para seus grupos raciais.


Branco.
Negro.

Referências Bibliográficas

ARAUJO, W. A. As superposições cefalométricas totais na verificação do tratamento ortodôntico. Rio de Janeiro, Universidade Federal, 1980. Diss. mestr.

ASBJORN, H. & GUNNAR, U. The position of the incisors in relation to the lines NA and NB in different facial types. Am. J. Orih., 57(1):1-14, Jan. 1970.

BERGERSEN, E. O. Comparative study of cephalometric superimposition. Angle Orthod., 3114):216-29, Oct. 1961.

BJORK, A. Facial growth in man, studied with the aid of metallic implants. Acta Ocont. Scand, 1319):9-33, 1955.

-. Facial growth in bilateral hipoplasia of the mandibular condyles. Orthodontics, Philadelphia, Lea & Febiger, p.347-58, 1962.

-. The use of metallic implants in the study of facial growth in children: method and application. Am. J. Phys Anthrp., 29(2):243-54, 1968.

DOWNS, W. Variations in facial relationships; their significance in treatment and prognosis. Am. J. Orthod., 34(10):812-40, Oct. 1948.

FARRET, M. M. B. et alii. Triângulo de Tweed com vários planos mandibulares. Rev. Ass. Paul. Cirurg. Dent., 34(2):132-4, mar./abr. 1980.

FËO, P S. et alii. Avaliação cefalométrica da inclinação dos lábios e relações com a estrutura dento-esquelética. Estomat. & Cult., 5(2):166-77, 1971.

HILLESUND, E. et alii. Reliability of soft-tissue profile in cephalometrics. Am. J. Orthod., 74 (5):537-49, Nov. 1978.

HOLDAWAY, R. A. The relationship of the Bony Chin and the Lower Incisor to the line NB. University of California, 1955.

-. Changes in relationship of point A and B during orthodontic treatment. Am. J. Orrh., 42 (3):176-93, Mar. 1956.

-. In: STEINER, C. The use of cephalometrics as an aid to planning and assessing orthodontic treatment. Am. J. Orih., 46 (10):721-35, Oct. 1960.

INTERLANDI, S. Linha I na análise morfodiferencial para o diagnóstico ortodôntico. Rev. Fac. Odont., São Paulo, 9 (2):283-310, jul./dez. 1971.

KROGMAN, W. M. Craniometry and cephalometry as research tools in growth of head and face. Am. J. Orthod., 3716):406-14, Jun. 1951.

MARGOLIS, H. I. The axial inclination of the mandibular incisor. Am. J. Orthodont., 29 (10):571-94, Oct. 1943.

MARTINS, D. R. Estudo comparativo dos valores cefalométricos das análises de Downs e Tweed, com os adolescentes brasileiros, leucodermas, de origem mediterrânea. Rev. Ortodoncia, 14 (2):101-16, mar./ago. 1981.

-. Estudo comparativo dos valores cefalométricos das análises de Steiner e Alabama, com os de adolescentes brasileiros, leucodermas, de origem mediterrânea. Rev. Ortodoncia, 15(1):18-34, jan./abr. 1982.

MARTINS, J. C. R. et alii. Iniciação à cefalomerria radiológica. Faculdade de Odontologia de Araraquara, 1983.

MIYAHARA, M. Perfil facial, estudo em indivíduos portadores de oclusão normal e de maloclusão classe I, (Angle). Piracicaba, Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Universidade Estadual de Campinas, 1977. Monogr. mestr.

MUNIZ, B. Relación entre dos medidas del perfil facial y el Angulo ANB. Rev. Ortodoncia, s.n.t.

NELSON, T. O. A study of facial growth utilizing elements of the cranial base for registration. Seatle University of Washington, 1959.

NICK, H. C. & FRANS, P. G. M. Facial harmony. Am. J. Orrhod., 60 (2):175-83, Aug. 1971.

OLIVEIRA, E. .P Contribuição ao estudo de padrões cefalométricos de indivíduos brasileiros, perfil e relação dentes-bases ósseas. Rio de Janeiro, Universidade Federal, 1981. Monogr. mestr.

PEREIRA, C. B. Predeterminación de la posición de los incisivos. Rev. Oriodoncia, 60, Oct. 1966.

-. Cefalometria clínica. Apostilas do curso de Cefalometria, 1969. PEREIRA, C. B. & GALVÃO, C. A. A. N. Estudo cefalométrico de população préhistórica do litoral meridional brasileiro. Rev. Gaúcha de Odontologia, 30:187-90, 1982.

PEREIRA, C. B.; MUNDSTOCK, C. A.; BERTHOLD, T. B. Introdução à cefalometria. Apostilas do curso de Cefalometria, 1982.

RAKOSI, T. Cephalometric radiography, an atlas and manual. Philadelphia, Lea & Febiger, 1982.

RICKETTS, R. M. Esthetics, environment and the law of lip relation. Am. J. Orrhod., 54 (4):272-89, Apr. 1968.

RIEDEL, R. A. An analysis of dentofacial relationships. Am. J. Orth., 43 (2):103-19, Febr. 1957.

SASSOUNI, V. The face in five dimensions. School of Dentistry Publication, West Virginia University, Morgantown, 1962.

SIMON, P W. Orthodontic profiles. Am. J. Orihod., 44 (2):141-4, Febr. 1958.

STEINER, C. C. The use of cephalometrics as an aid to planning and assessing orthodontic treatment. Am. J. Orth., v.46, n.10, Oct. 1960.

STUBTELNY, J. D. A longitudinal study of soft tissue facial structures and their profile characteristics defined in relation to underlying skeletal structures. Am. J. Orthod., 45 (7):481-507, July 1959.

TWEED, C. H. The Frankfurt-mandibular incisor angle (FMIA) in orthodontic diagnosis, treatment planning and prognosis. Angle Orthod., 24 (3):121-69, July 1954.

TWEED, C. H. The Frankfort-mandibular plane angle in orthodontic diagnosis, classification treatment planning, and prognosis. Amer. J. Orihod. Oral Surg., 32 (4):175-230, Apr. 1946.

-. Was the development of the diagnostic facial triangle as an accurate analysis based on fact or fancy? Am. J. Orihod., 48 (11):823-40, Nov. 1962.

VIGORITO, J. W. & MITRI, G. Avaliação de padrões cefalométricos em pacientes brasileiros leucodermas, portadores de "oclusão normal". Rev. Ortodontia, 15(1):40-51, jan/abr. 1962.

WOODSIDE, D. G. Cephalomeiric roentgenography. University of Toronto, Faculty of Dentistry, 1976. Philadelphia, Lea & Febiger, 1982.



Seguir para o capítulo X: "Sobreposição de Análises"
© Copyright Cléber Bidegain Pereira. Todos os direitos reservados.