Introdução à Cefalometria Radiográfica - 5ª Edição

Capítulo XIII - Outras análises (Comentários)

Críticas à Análise de Steiner

O cefalograma de Steiner, acrescido de algumas medidas complementares, tem sido a análise de conhecimento universal, ainda que o seu maior uso seja nas Américas, enquanto na Europa predominam os cefalogramas de Schwarz e Bimler. Nos últimos anos têm surgido críticas ao ângulo ANB, ressaltando-se as Ferrazzini (1976) e Jacobson (1975 e 1976). Este último comprovou que a base do crânio curta e as rotações dos maxilares provocam significativas alterações no ângulo ANB.

Os índios Lenguas, do Chaco paraguaio, examinados por Jacobson, Preston e Pereira (1977), apresentam base do crânio curta, o que determina um ângulo ANB grande, sem haver disrelação ântero-posterior entre maxila e mandíbula.

Alteração do ângulo ANB por rotação da maxila e da mandíbula em relação ao nasion. O desenho da direita é o mesmo da esquerda, em que, esquematicamente, girou-se a maxila e mandíbula. A posição está exagerada com a finalidade de evidenciar a alteração.

Por certo, as críticas referidas têm procedência e devem ser consideradas. Porém, não invalidam a importância do ângulo ANB. Todas as análises são passíveis de críticas, elas são o resultado de uma amostragem. Além de variarem com a idade, sexo e grupo racial, também sofrem distorções nos casos que se afastam demasiado dos parâmetros estabelecidos como normais para o grupo em que foram estudadas.

Ricketts contesta a importância da linha SN e recomenda o Plano de Frankfurt*, entre outras coisas, por ser visualizado externamente, o que é realmente considerável. Porém, convém não esquecer que a linha SN apresenta, por estar situada no plano médio sagital, algumas vantagens também consideráveis.

Em nosso entender, a análise de Steiner, pela sua simplicidade, objetividade e universalidade, será perpétua, terá sempre um lugar na ortodontia.

* Para determinar o plano de Frankfurt, Ricketts não usa o porion "metálico" (oliva do cefalostato). Utiliza o porion ósseo verdadeiro. Surpreendem as significativas diferenças entre um e outro sistema.

Em decorrência destas críticas e da evolução da ortodontia, surgiram outras análises, nas quais reconhecemos grande validade.

Dentre as análises que foram idealizadas nos últimos tempos, destacamos duas que, com um mínimo de trabalho para o operador, oferecem valiosas informações, ainda que restritas à área dentoalveolar. A linha I, de Interlandi, descrita anteriormente, e o WITS de Jacobson.

Análise de WITS

A análise de WITS*, criada por Alexander Jacobson, não relaciona a maxila e a mandíbula com o crânio. Prefere relacioná-las junto a região dentoalveolar. Projeta verticalmente ao plano oclusal funcional (plano que passa sobre molares e premolares e não utiliza o entrecruzamento dos incisivos) os pontos A e B. Mede a distância entre as duas projeções a e b, denominada de WITS. a do Sul. O padrão de normalidade é de 0 (zero) a -1 mm, entre "a" e "b". A medida é po "b" e negativa quando o ponto "b" está à frente do "a".
* WITS é a sigla da University of Witwatersrand, Johannesburg, África do Sul.

Proportional Template de Jacobson

A análise do "Proportional Template"* de Alexander Jacobson é de simples manejo e facilita a interpretação das anomalias dentofaciais, proporcionando informações sofisticadas. Este sistema oferece grande ajuda para o diagnóstico e planejamento da cirurgia ortognata.
"Template" = Lâmina plástica transparente com traçado de estruturas anatômicas, linhas e números, que superpostos ao diagrama inicial do paciente facilita a interpretação dos desvios da normalidade.

Análise de Ricketts (Comentários)

Ricketts, em 1977, baseando-se na idéia de Holdaway, planejou o Objetivo Visual de Tratamento (VTO), que é um procedimento que permite pensar, do início até o fim de um caso, em uma sequência lógica, sobre crescimento e os resultados de um tratamento. A proposição do VTO de Ricketts é o intento de visualizar graficamente o que se pretende com o tratamento. Até então, esta visualização ficava somente na mente do profissional.

Caso clínico inicial VTO

No início, quando Ricketts apresentou o VTO, havia muitas previsões que eram baseadas em observações pessoais, pouco comprovadas. Com o passar dos anos, a experiência de muitos casos e a comprovação de resultados acumulados em computador deram ao VTO uma previsão objetiva, com probabilidade de acerto em 85% dos casos. Newton de Castro, em 1968, foi um dos primeiros a divulgar a análise de Ricketts no Brasil. À partir de 1974, a Sociedade Paranaense de Ortodontia, por meio de publicações e cursos, passou a liderar a divulgação desta análise em nosso país. A Eros Petrelli, principal líder do SPRO, delegamos a tarefa de suscintamente contar ao leitor alguma coisa da análise de Ricketts, e indicar-lhe o caminho para seu aprendizado.

Análise Cefalométrica de Ricketts (Comentários)

Por Eros Petrelli*

O marco básico da divulgação desta análise foi a publicação de dois artigos em 1960, sendo o primeiro publicado no American Journal of Orthodontics, em maio, sob o título "A fundation for cephalometric communication", e o segundo publicado no The Angle Orthodontist, no mês de julho, intitulado "The influence of orthodontic treatment on facial growth and development".

Em 1965, Ricketts iniciou uma nova série de investigações usando o computador, resultando na análise atualmente usada.

A análise é efetuada em norma lateral a em norma frontal. Em norma lateral ela é composta de 32 fatores distribuídos em seis sessões denominadas campos:

Campo I: dentário
Campo II: esqueletal
Campo III: dentofacial
Campo IV: estético
Campo V: craniofacial
Campo VI: estruturas internas
* Professor Chefe do Departamento de Ortodontia na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Paraná.

A análise frontal apresenta-se em 18 fatores.

Para a aplicação clínica diária o mais comum é o uso da análise sumária, dividida em quatro áreas com dez fatores:

Mento no espaço
Médias
Para 9 anos + Alteração
1. Eixo90º + 3ºNenhuma alteração com a idade
2. Profundidade (ângulo) facial87º + 3ºAlteração = +1º cada 3 anos
3. Plano mandibular26º + 4º26º + 4º
4. Altura facial inferior47º + 4ºNenhuma alteração
5. Arco mandibular26º + 4ºArco mand. fecha 1/2º cada ano
Ângulo aumenta 1/2º cada ano
Convexidade
6. Convexidade do ponto A2mm '2mmAlteração = -1mm cada 3 anos

Dentes
7. Incisivo inferior para APg+1mm '2mmNenhuma alteração com idade
8. Inclinação do incisivo22º '4ºNenhuma alteração com idade
9. Molar superior para PTVIdade + 3mmAltera 1mm por ano

Perfil
10. Lábio inferior para plano E2mm '2mmMenos protusivo com o crescimento

A análise foi elaborada em pacientes com a idade média de nove anos, dando-se a media das grandezas encontradas, como também o desvio clínico e as alterações decorrentes da idade.

O VTO (objetivo visual de tratamento) permite ao ortodontista visualizar as alterações que deverão ocorrer durante o crescimento e o tratamento. É um plano visual para prever o crescimento normal do paciente e antecipar os resultados do tratamento, estabelecendo os objetivos individuais que almejamos atingir para aquele paciente. Esta previsão foi desenvolvida por Ricketts e denominada VTO por Holdaway. O uso deste dispositivo permite que, sobreposto ao cefalograma inicial, desenvolvam-se áreas de avaliações específicas para a orientação sistemática do tratamento ortodôntico.


Leitura Recomendada

BENCH, R. W. et alii. Visual treatment objetive or VTO. J. Clin. Orthod., 11(12): 820-34, Dec. 1977.

BENCH, R. W. et alii. Terapia bioprogressiva. Trad. Eros Petrelli. 3.ed. Sao Paulo, Santos, 1982. 180 p.

CHACONAS, S. J. Orthodontics, Massachusetts, PSG Publishing Co., 1980. 313 p.

GUGINO, C. F. An Orthodontic Philosophy. 11. ed. Denver, Rocky Mountain, 1977.

LANGLADE, M. Cephalometrie Orthodontique. Paris, Maloine, 1978. 284 p. PETRELLI, E. Análise Cefalométrica de Ricketts. Parte I. Ortodont. Paranaen., 5(3): 167-73, set./dez. 1980.

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Referências Bibliográficas

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PEREIRA, C.B. e alli A Cephalometric Evaluation of Brazilian Prehistoric Man Publlished: Journal of the Dental Association of South Africa, 38, 627-631 - www.cleber.com.br/preston.html

ROBERTSON, N. R. E. & PEARSON, C. J. The WITS appraisal for a sample of the South Wales Population. British J. Orthod., 7:183-4, 1980.



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