Introdução à Cefalometria Radiográfica - 5ª Edição

Capítulo XIV - Cefalometria Computadorizada


Sumário

  • Cefalometria Computadorizada

    • Introdução
    • A Análise Cefalométrica
    • Mesas Digitalizadoras
    • Telerradiografia no Monitor do Computador *
    • Programas

  • Histórico da Cefalometria Computadorizada (Clique aqui)

  • Próximos Avanços (Clique aqui)
* Veja também "Noções de Exames por Tomografia Computadorizada e Seu Uso na Odontologia" - Prof. Sérgio Lúcio Pereira de Castro Lopes. Disponível em formato digital na Internet:
www.acbo.org.br/revista/biblioteca/tomografia

Cefalometria Computadorizada
Introdução

Antonio de Almeida
Cléber Bidegain Pereira
Paulo Roberto Tatsuo Sakima

Este capítulo é de natureza informativa, destinando-se principalmente, a fornecer conhecimentos básicos aos iniciantes, sobre a utilização do computador no processamento da Cefalometria Radiográfica e condições para sua aplicação na clínica.

Não é nosso propósito discutir a validade de determinados procedimentos cefalométricos ou as filosofias ortodôntica que os geram. Pretendemos, apenas, esclarecer como as diferentes técnicas de cefalometria podem ser realizadas através dos processos computadorizados.

Juntamente com o aumento da utilização da cefalometria na ortodontia, houve um aumento da qualidade e quantidade das informações por ela fornecidas, aumentando a complexidade dos dados a manipular, daí foi natural que se procurasse o computador para a execução organizada desse trabalho. Esta forma de cefalometria computadorizada inicialmente foi privilégio apenas de alguns centros de pesquisa, entretanto, com a introdução dos microcomputadores, a cefalometria tornou-se viável para utilização rotineira em consultórios e Centros de Radiologia.

Serão abordados, de forma sucinta, a análise computadorizada, os componentes essenciais do sistema, seu funcionamento e utilização.

A Análise Cefalométrica

Nosso objetivo é analisar cefalometricamente e o processamento da análise pelo computador é apenas uma das formas de realizar o trabalho. É oportuno esclarecer que qualquer técnica de cefalometria, antiga ou atual, pode ser efetuada pelo computador, dependendo naturalmente da existência de programação e de equipamentos apropriados. Uma análise não se modifica pelo fato de ser computadorizada. Suas características, normas e padrões não são alterados e permanecem os mesmos de quando é executada da forma convencional.

A execução mecânica dos procedimentos técnicos e a ordenação e o arquivamento das informações resultantes, podem ser realizados pelo ortodontista, radiologista ou por auxiliares treinados, mas, absorvem considerável parcela de tempo de trabalho. No entanto, estas tarefas são rápidas, seguras e facilmente realizadas com o auxílio do computador, ganhando-se qualidade e tempo para o desempenho de outras atividades (Horn e Segu, 1981).1

O uso da cefalometria computadorizada cresceu extraordinariamente, nos últimos anos, ao ponto de se poder afirmar que atinge a quase totalidade dos estudos cefalométricos.

As informações obtidas nas medições e análises têm permitido o desenvolvimento de outros aplicativos, como as previsões de crescimento (Tavano, O. 2001), simulações de tratamento (Charron, 1971 e 1982; Faber e outros 1978), recolocação da mandíbula (Pereira 1993 e 1994), as “normas” comparativas e as visualizações de objetivos de tratamento estão se tornando importantes reforços para o arsenal da moderna Ortodontia e Ortopedia Funcional dos Maxilares.

A Cefalometria Computadorizada (CC) foi bem recebida pela comunidade científica da Odontologia que, de imediato, passou a investigar e comprovar sua aplicabilidade e precisão, criando-se programas e sistemáticas (Confiabilidade da Cefalometria Computadorizada - Vários autores desde 1996).

Ricketts liderou estas pesquisas, (Ricketts 1972) no âmbito internacional e, entre nós, o grupo da Faculdade de Odontologia de Araraquara da Universidade Estadual Paulista - UNESP, muito especialmente Joel Claudio da Rosa Martins, Lídia Parsekian Martins e Paulo Roberto Tatsuo Sakima (Goldreich, H. N. et al. 1998) (Sakima, P.R.T. 2001) investigaram o erro em cefalometria computadorizada, concluindo que esta é mais precisa do que a cefalometria manual, pois elimina o erro do operador na marcação dos valores. Permanece igual o erro do operador em marcar os pontos cefalométricos. 2

2 Avaliação de um programa de traçado cefalométrico www.acbo.org.br/revista/biblioteca/computadorizada_felicio

Mesas Digitalizadoras

No início dos anos 90 apareceram programas de cefalometria que recebiam os dados através de Mesas Digitalizadoras (MD), as quais têm alta precisão. As MD podem ser translúcidas ou não translúcidas. As MD translúcidas têm iluminação de baixo, como um negatoscópio, a radiografia é diretamente inserida na MD e aí são marcados os pontos craniométricos, sem necessidade de ser desenhado o cefalograma; o próprio programa monta o traçado para a impressora, com precisão absoluta.

Mesa Digitalizadora translúcida, os pontos são marcados diretamente.

As MD não translúcidas carecem de que se trace, no negatoscópio, o cefalograma em acetato onde são marcados os pontos cefalométricos, daí este cefalograma é levado para a MD e os pontos transferidos para o computador.

Mesa Digitalizadora não translúcida, é feito um traçado cefamétrico e marcação dos pontos em acetato no negatoscópio. O traçado é levado para a Mesa Digitalizadora e daí transferido para o computador.



A) Introdução dos dados com mesa não translúcida.
B) Introdução dos dados usando mesa translúcida.

A) Introdução dos dados através de scanner e marcação dos pontos na tela do monitor.
B) Introdução dos dados usando imagem digital.

No início, havia dificuldade em conseguir as MD, a quais eram caras e não fabricadas no Brasil. Então foram desenvolvidos programas que possibilitam marcar os pontos cefalométricos na tela do computador com o mouse. Vários pesquisadores comprovaram que tanto o método da MD como a marcação de pontos na tela do computador são altamente precisos. (buscar os trabalhos que comprovem a precisão dos dois métodos, vantagens e desvantagens). Ressalta-se naquele então que os monitores não tinham telas planas e as telas curvas despertavam injustificada desconfiança.

Desta forma preponderou a metodologia que utiliza a tela do computador e que dispensa a Mesa Digitalizadora. Hoje, há excelentes Mesas Digitalizadoras fabricadas no Brasil, por preço baixo, mas o método da tela do computador evoluiu, de tal forma com programas excelentes, que dominou o mercado.

Porém, a utilização das MD continua sendo um método altamente preciso, sem inconvenientes.


Telerradiografia no Monitor do Computador

Para utilizar o sistema que marca os pontos na tela do computador é necessário que as radiografias sejam digitais ou digitalizadas.

No mundo moderno as radiografias são digitais na origem. Assim estão aptas para serem inseridas direto nos programas de cefalometria existentes no mercado, de fabricação brasileira, que são excelentes.

Quando as radiografias não são digitais há necessidade de serem digitalizadas.

Então se apresenta a dificuldade que devem ser reproduzidas com fidelidade e facilidade. O “scanner” é o sistema mais confiável e preciso, porém há necessidade de que tenha um implemento, o adaptador de transparência, o qual, no início era caro e de difícil aquisição. Hoje é fabricado no Brasil, por preço menor e grande facilidade.

O método de fotografar com câmera digital, direto do negatoscópio é um sistema muito usado, porém não de total confiabilidade.

Os trabalhos de Sylvania Moraies e de Flavia Amoy comprovam que ambos os métodos são confiáveis. Porém, para que se possa ter imagens fotografadas com pouca distorção é necessário que se tenha equipamentos fotográficos com boas lentes e aprimorada técnica. Caso contrário, as falhas podem ser significativas, visto que pelas leis da física a imagem fotográfica apresenta distorções principalmente nas bordas. Somente o centro pode ser confiável. Para fotografar recomenda-se utilizar toda a potencialidade da lente. Fotografando na maior distância possível e utilizando somente a parte central do campo fotográfico.

Nos EUA há programas que adotam a imagem fotografada como rotina. Não nos parece um bom caminho.

Mesmo com ferramentas de calibração linear da imagem, presentes em alguns programas, o uso da câmera digital, de acordo com alguns testes que fizemos gera diferenças significativas que interferem nos fatores do cefalograma.

O efeito que se deduz da física se deve à curvatura da lente que provoca distorção geométrica nas regiões periféricas da imagem. Este efeito pode ser minimizado usando-se um potente zoom ótico e tirando a foto o mais longe possível da radiografia. Isso faz com que se use apenas a parte mais central da lente que é quase plana, reduzindo o efeito maléfico causado pela curvatura da lente.

Isto posto, vimos recomendar a utilização dos “scanners” como sistemática padrão para a digitalização de radiografias com fins cefalométricos.

Observação: A imagem radiográfica gerada na telerradiografia lateral apresenta ampliação da imagem, por se tratar de uma projeção cônica. Essa distorção é linear e constante, isto é, todas as partes da imagem são influenciadas uniformemente. Já na imagem fotográfica, a influência da objetiva (em especial, de seu ângulo de visão), faz com que a imagem gerada tenha distorções diferentes para cada porção de imagem, sendo radial, isto é, à medida que se distancia do centro da imagem, a distorção aumenta. A maneira de se anular essas distorções são por meio de projeção cilíndrica, e o método de eleição para a geração dessa imagem é pelo uso de “scanners”. Em resumo, fotografar radiografias geram imagens que pode ser boa quando utilizada apenas para avaliar estruturas anatômicas, cronologia, presença de dentes etc. Mas não é adequada para se fazer mensurações. 3

3 Avaliação de Dois Métodos de Digitalização de Radiografias Cefalométricas
www.acbo.org.br/revista/biblioteca/digitalizacao_radio
Análise Comparativa Entre Imagens de Telerradiografia em Películas Digitalizadas através de Scanner e Máquinas Fotográfias
www.acbo.org.br/revista/biblioteca/scanner_foto
Cefalometria Computadorizada e os Serviços de Documentação Ortodôntica (VCETOO, CRANEUM)
www.craneum.com.br/cefalometria_spo2002.htm

Programas

Um programa é o conjunto organizado de instruções específicas, que informam ao computador que tarefas deverá realizar.

A operacionalidade do microcomputador depende de um conjunto de programas interligados, chamado sistema operacional, que comanda o funcionamento do micro e gerencia a relação máquina-software. Os programas precisam ter compatibilidade com o sistema operacional instalado no micro, para funcionar.

A maioria dos programas de cefalometria, atuais, existentes no mercado, foi desenvolvida para rodar nas versões do sistema operacional Windows.

Os programas de cefalometria computadorizada são de um tipo denominado programas de aplicação e se destinam à utilização, pelo usuário, para solução de suas proposições.

Para atingir sua finalidade, o software depende de dados. Estes dados ou informações irão alimentar o sistema que, por sua vez, irá produzir mais informações. A qualidade e a quantidade dos dados introduzidos, o grau de elaboração do programa e a técnica de operação, são essenciais à qualidade da informação resultante.

Os dados introduzidos alimentam os ciclos de informação. As informações produzidas no ciclo anterior realimentarão o ciclo seguinte.

Este processo crescente permitiu que o software para cefalometria se tornasse mais abrangente, oferecendo ao usuário outras opções para trabalho, mas, também criou a necessidade de complementação com outros tipos de programas, como os bancos de dados, os bancos de imagens, etc.

Assim, alguns programas para cefalometria passaram a oferecer as análises de diversos autores, e até a opção do usuário fazer seu próprio conjunto de medidas, analisando-as em separado.

As sobreposições de traçados seqüenciados e a sobreposição para comparação de um traçado com o que seria a "norma" para o caso, também ficaram disponíveis.

Mas, como foi dito acima, necessitam de bancos de dados para guardar as análises de diferentes pacientes e as análises do mesmo paciente. Em alguns programas são associados bancos de imagens para fotos intra-orais, faciais, de modelos e radiografias. A capacidade de armazenar e de recuperar rapidamente os dados das análises, favoreceu as pesquisas e o desenvolvimento de outros programas, como os de previsão de crescimento facial, de visualização dos objetivos do tratamento e de simulação de tratamento ortodôntico e cirúrgico. Toda essa gama de opções representa importante ajuda no diagnóstico, no planejamento e no controle da evolução do tratamento (monitoramento).


Referências Bibliográficas

1 - HORN, A. J. & SEGU, S. Informatic et Statistique. L´Orthod. Française 52: 863-76 - 1981.

2 - TAVANO, O. - Idade Óssea Carpal Computadorizada. http://www.acbo.org.br/revista/revista/idade_carpal

3 - CHARRON, C. Informatique en orthopédie dento-faciale: realisations et prospective. Trans. Eur. J. Orthod. Soc. 3 (1): 1-8, 1981

4 - CHARRON, C. Informatique et telerradiographie - L´Orth. Française, 53:248-56, 1982.

5 - FABER, R.; BURSTONE, C.J.; SOLONCHONE, D.J. Computorized interactive orthodontic treatment planning. Am. J. Orthod. 73(1):36-46, 1978.

6 - PEREIRA, C.B. - Posição da mandíbula na cefalometria - "ORTODONTIA", SPO - N. 25 Maio/Jun. 1993. http://www.cleber.com.br/posicao2.html e http://www.cleber.com.br/cefalomet.html

7 - PEREIRA, C.B. - Recolocação Cefalométrica da Mandíbula - ORTODONTIA, SPO N° 30 / Março/Abril 1994. http://www.cleber.com.br/recoloc2.html e http://www.cleber.com.br/posicao.html

8 - RELAÇÃO VÁRIOS AUTORES DE 1995 até 2004 Confiabilidade da Cefalometria computadorizada - http://www.cleber.com.br/errocefalo.html

9 - RICKETTS, R. M. et alli - An overview of computadorized cephalometics Am. J. Orthod. 61 (1): 1-28, 1972.

10 - GOLDREICH, H.N et alli. Algumas considerações sobre os erros em Cefalometria. Revista Dent. Press - V. 3 - N1 - 1998. http://www.cleber.com.br/errojoel.html

11 - SAKIMA, P.R.T. - Efeitos dos Erros de Projeção sobre as Grandezas Cefalométricas das Análises de Steiner e McNamara - Dissertação de Mestrado. 2001 - http://www.cleber.com.br/tesePauloSakima.pdf http://www.cleber.com.br/carlosjun.html



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