Hildegard

 Quando as folhas caducas da pereira em frente de casa deixaram a calçada amarela, minha mãe fechou os olhos para sempre. Sei que foi um Sábado outonal, mas não sei se tinha sol, porque não vi. A morte habitava em mim com seu silêncio imperioso e sua força magistral. Todos os dias penso  por que não pude contê-la para que deixasse ela por mais um tempinho aqui. Acreditei na esperança até o último minuto, como manda o jargão.
Ela tinha 30 anos mais do que eu. Do alto dos seus 75 anos, ao partir, deixou solidão arrasadora nos meus 45 anos.
 Tinha pele de cordeirinho: macia e aveludada. Perfumava com organização e limpeza por onde passava. Era leão de signo: vaidosa, caprichosa e geniosa. Rainha do lar. Dominava cada um de nós quatro (3 filhas e marido) com inquietude, paixão e carinho. Mimava cada um conforme o jeito e o feito.
Fim de tarde sem ela passou a ser comum, como qualquer outro fim de tarde. Com ela tinha café, bolo, geléia, conversas intermináveis. Ríamos de nós mesmas até sem saber das razões que tornavam o fim de tarde especial. A presença dela transmitia o eixo; a estabilidade. Ficamos todos pássaros sem asas sem ela, feridos no próprio corpo, sem tempo para curar.
Domingo devia ser o dia oficial das mães. Vaias para o segundo domingo de maio. Todo almoço de domingo era festa consagrada. Churrasco com variedade de saladas era o normal, mas quando ela ia pra cozinha todos comiam demais. Era alegria em forma de peixe, sintonia em forma de espaguete, sabedoria em forma de feijão. Nas mãos dela o joio se transformava em trigo.
Ela todos os dias puxava as minhas orelhas. Não com as mãos, não me lembro dela ter me batido alguma vez. Era com os olhos que me repreendia ora arregalando, ora quase fechando em desacordo. Sempre esperou mais de mim, embora eu fizesse tudo para agradá-la.
Ela tinha os olhos mais azuis que o meu infinito já viu. Pouquíssimas vezes a vi chorar. Talvez sozinha sofresse suas agruras e seus ressentimentos com a vida. Para nós resplandecia encanto, suavidade e compaixão profunda.
Estou aprendendo a viver sem ela. Não estou bem, não estou mal, sigo andando. Sorrindo sim, gemendo também. Mas quando me perguntam como eu vou? Respondo:
Vou bem, estou bem...

Laura
 
 

 
                      CARTAS ESCRITAS POR MIM OU PELA HILDE EM ANOS PASSADOS

Estas são algumas das cartas e bilhetes que encontrei nos guardados íntimos da Hilde. Lucais pessoais dela.  Levei muitos meses para ter coragem em mexer nestas coisas que ela guardou por anos e anos.  Ainda há mais coisas que não tive coragem de ler.
 
 

Estes são bilhetes escritos na aula do curso científico, no Colégio União no ano de 1948

Nos iniciamos o namoro no 1º ano do curso científico. Noivamos no 2º ano e ao terminar o curso científico casamos em dezembro de 1949.  Fizemos mo vestibular em "lua de mél".   Desde o início até o fim de nossa vida juntos sempre fomos um casal apaixonado.  As história de nossa vida mostra isto muito evidentemente.


 
 


 
 
 
 


 
 

No final dos anos 60 eu estava muito fascinado com os estudos de antropologia.
O trabalho do australiano BEGG   O HOMEM DA IDADE DA PEDRA, realizado nos aborígenes australianos marcou época para nos os dentistas conhecermos mais a dentadura fisiológica e os problemas da dentadura do homem moderno.  Estes trabalhos foram complementados por BAIROM E BARRET.  Eu instigado pelo meu querido e saudoso amigo Julio Barrancos Mooney arquitetei uma pesquisa nos dentes dos  índios Yanomamis.  Tive todo o apoio do MEC e CNPs. Montamos um plano e executamos. 

Foi um empreendimento ousado e corremos muitos riscos.  Naquela época a selva Amazônica da região de Roraima, onde fomos, era recém explorada.  As missões onde ficamos eram recentes, os índios eram classificados como isolados, falavam sua língua somente e não usavam roupas, como pode ser ver na minha pagina
http://www.cleber.com.br/antropo.html

Hilde valente,  vendo meu entusiasmo, não me negou o direito desta aventura perigosa.  Sofreu muito, mais do que eu.  Só não me arrependo porque foi um dos mais importantes legados que eu fiz para a odontologia internacional.


 
 
 
 
Eunice Corrêa, esposa de Jairo foi um das grandes amigas de Hilde, durante toda a vida.
Nos encontravamos sempre em todos os Congressos e elas estavam juntos todo o tempo possível

Mesmlos os casais que se amam, como Hilde e eu nos amomos, têm vez por outra, um briguinha de amor, geralmente por ciúmes, isto é amor muito amor.  Foi o que aconteceu aqui em 1972.  Tenho bem na lembrança que chorei muito a ler esta carta tanto quando choro agora.  Lembro que fiz mil juras de amor etérno e lhe cobri com  um milhão de beijos.  O tempo veio demostrar que nosso amor era inabalável.




 


 
 


 
 

PERSEVERNAÇA

Hilde ainda na véspera de sua morte fazia exercícios com os pés.  Sentada na cadeira mexia com os pés.

Depois de sua última opeação nas caróridas, ele ficou com um pouco de dificuldades para escrever.  Então fazia exercício de escrita como este que está aqui ao lado, o qual é de fevereiro de 2007.  Luiz estava junto com Hilde quando ela fez estes escritos. Inclusive ela escreveu o nome da Luiza que tanto amava.


 

                                  PENSAMENTOS QUE HILDE GUARIDOU COLHIDO DE AUTORES DIVERSOS

Carta maravilhosa de minha filha Lúcia


Troca de cartas com Cristina


Janeiro de 2009

CARTA MARAVILHOSA DE MINHA AMADA NETA LUIZA

Depois de uma longa caminhada nas trilhas da vida, nada mais sublime e compensador do que amar e ser amado. Deus foi generoso comigo. Além do amor da Hilde, das minhas filhas e genros tenho o amor de minhas netas aqui expresso de maneira comovente:

"Vô...

Há dias estou para ler os e-mails escritos para a tia Cristina que tens me mandado! Te confesso que não havia lido ainda, estava viajando para fazer as provas do vestibular e acabei não tendo a oportunidade de ler. Porém hoje a tarde comecei a ler todos eles, palavra por palavra e por pouco as lágrimas não caíram dos meus olhos.. Tu falaste que a mãe escreve poeticamente, tia Lúcia objetiva e a tia Cris filosófica...e tu? Tu escreves com um amor imensurável, com delicadeza, sentimento, coração, razão, sabedoria.. simplesmente amo o jeito como demonstra o que estas pensando! Fico sem palavras para te dizer o quanto te admiro. Me admiro de teus feitos, de teus jeitos, do teu amor, do teu sorriso, de teus passos.. Orgulho-me a cada dia que passas! Peço descupas por não estar todo tempo ao teu lado, mas recebendo teus e-mails e respondendo-os para ti, sinto como se estivessemos um ao lado do outro, trocando pensamentos e sabedoria.. Desejo também ser assim como tu és.. Espero que tu saibas que és MUITO amado por todos ao teu redor: filhas, neto, netas, genros, amigos, pacientes, enfim...

Por onde tu passa, tu deixa uma marca eterna! Um beijo com todo amor do mundo, da neta que a cada dia que passa tem mais e mais motivos para te admirar.

Te amo muito. Maria Luiza."


Março de 2009

Escrito Maravilhoso de Minha Amada Filha Laura

Era 1970, ele estava em Manaus. Um pouco zonzo pela viagem longa, um pouco ansioso pela expectativa dos dias seguintes e muito feliz por, enfim, estar lá. Através do Projeto Rondon estudaria a incidência de cárie nos índios Yanomamis nas missões Catrimani, Surucucu e Tototobi em Roraima. Tinha uma única tarde em Manaus antes de passar um mês na Floresta amazônica.

Quando ainda não tinha ido, pensava que o maior tormento seria o mosquito e a comida de casa que ele tanto gostava. Agora, sabia, a saudade era o que agitava sua alma. Andou de um lado para o outro a procura de um presente para a esposa.

A fita cassete chegou por sedex e eu estava do lado da minha mãe quando o carteiro a entregou. Vinha junto uma carta escrita a punho e foi a única vez que a vi chorar. A carta falava de amor com certeza e de que “a distância é como o vento: apaga os fogos pequenos e incendeia os grandes.” A música de Domenico Modugno durante um mês inteiro soou na nossa casa. A fita continha dezoito músicas e minha mãe traduziu uma a uma para mim, criança de 8 anos. Pude entender que o sentimento deles era amor verdadeiro. Yo necessito de ti como uma balsa necessita del mar para poder navegar, como a mariposa da flor, como um niño de uma mãe que lo acompanhe.” Ou então: ‘como estás? Pensava justamente em ti, saberás?”

Passaram-se trinta anos quando ouvi na Rádio Charrua o Peres tocar “Como hás Hecho”, Domenico Modugno. Estacionei o carro chorando em prantos. Ali me dei conta a razão por eu ser esta romântica que por amor se desmancha ao acreditá-lo eterno. O amor verdadeiro que os poetas cantam e que o pai lindamente viveu com a mãe. Fiz surpresa disso até conseguir o CD com as dezoito músicas. Direto levei embrulhado para presente para ela. Ao abrir, com o olhar enlagrimado me disse nunca mais queria ouvir para não sentir a tristeza daqueles dias sem ele. Não contente, mostrei para ele que teve a mesma reação dela, perplexo que eu lembrava.

Guardo eu o CD e a história de amor que ainda hoje me faz chorar. E quando em noites de lua cheia vejo as estrelas faceiras a faiscar no céu penso nas palavras que o amor me faz dizer docemente, deliberadamente ao amor da minha vida.


Carta linda e expontânea de um colega

Prezado Professor,

Anonimamente, venho acompanhando seu trabalho há alguns anos. Comecei cedo na odontologia. Nasci dentro da FOP-UNICAMP, quando minha mãe cursava o 2o. ano de odontologia por lá. Em 1991, com 11 anos, assistia às aulas da Especialização em Radiologia. A aluna era minha mãe novamente, já cursando a segunda especialidade. A primeira, que ela mais ama, é a ortodontia, que cursou com professor Alael de Paiva Lino em 1986 no SOESP. Depois de me formar em odontologia na FORP-USP em 2001, voltei à FOP-UNICAMP pra cursar radiologia (agora como aluno mesmo) em 2002-2003, e depois em 2005-2008 cursei especialização em ortodontia na UNESP-Araraquara.

Meus laços com a odontologia vieram desde cedo, desde quando ouço pelos relatos de minha mãe sempre algo sobre "O doutor Cléber de Uruguaiana", e como sempre fui um grande apaixonado pela informática, tive oportunidade de ver seus esforços pra tornar a odontologia uma profissão mais dinâmica. Visitante do assíduo do seu site, sou leitor de suas histórias, relatos e viagens, inclusive dos casos clínicos da década de 60, hoje com 30-40 anos de follow-up, sendo que jamais pude imaginar até então ser possível rastrear pacientes assim por tanto tempo.

Em 2005, iniciamos um trabalho junto com colegas radiologistas em Ribeirão Preto - SP. Montamos a DVI - Diagnóstico Volumétrico por Imagem, e assim fundamos a primeira clínica especializada em tomografia do interior de SP. Mundo esse da tomografia, desconhecido até então. É um longo caminho a ser percorrido. Estamos abrindo janelas do diagnóstico que jamais pensamos antes em conhecer o horizonte que se escondia por trás delas.

Vendo uma breve janela da sua vida, relatada em seu site, onde pude ler as notícias sobre sua esposa, percebi pela riqueza de detalhes dos relatos a vivacidade, as belíssimas lembranças e um escopo de uma vida sem comparações. Receba por favor meus profundos sentimentos e também meu pedido de que não deixe a odontologia e, principalmente o diagnóstico na ortodontia sem seus amparos profissionais. Contar com a experiência de profissionais como o senhor (juntamente com radiologistas do nível do Dr. Vinícius Dutra, estimado colega) em pesquisas como esta que vocês estão se prestando a fazer é um patrimônio que todos deveriam reconhecer.

Professor, receba meus cumprimentos pessoais pelo seu trabalho e exemplo profissional. Conte comigo e com nossa equipe para quaisquer assuntos que possamos ajudar.

Um forte abraço,
Dr. Hugo Ricardo Rosin.