VIAGEM DAS FILHAS PARA OS EUA

Não sei se a idéia inicial foi da Hilde ou minha.  Também isto não é importante,  o fato é que, em comum acordo, decidimos mandar Laura e Cristina para passarem 6 meses nos EUA afim de fazer curso de inglês.  Ambas estavam preparando-se para o vestibular e pensamos,  vai valer o aprendizado, mesmo que não passem no vestibular por causa da viagem, são muito jovens mesmo para entrar na Universidade.

Além do curso de inglês, tudo foi aprendizado e cultura. Laura tinha 17 anos e nunca tinha estendido uma cama...   Teve de aprender.  Assim o manejo do dinheiro, que cada uma tinha o seu.

Nos encorajava mandar as filhas, o fato de que estava nos EUA,  fazendo seu doutorado em Antropologia, um grande amigo meu, Padre Giovani Saffirio, da Ordem da Consolta  (  Italiana ).  Eu havia conhecido o Giovani,  quando fui fazer minha pesquisa nos dentes dos índios Yanomamis, em janeiro-fevereiro de 1971, quando Giovani estava como padre missionário na Missão Catrimani em Roraima. ( http://www.cleber.com.br/linkyano.html ).   Desde aquela época,  até os dias de hoje, mantivemos uma amizade fraterna. Giovani, a quem chamo de Helássima  ( nome que lhes deram os Yanomamis ) é uma pessoa maravilhosa sem igual. Além de todas suas qualidades ainda é espirituoso e sábio.  Conviver com Helássima, ainda que de longe, todos estes anos, têm sido uma das coisas boas de minha vida.  Ele já veio duas vezes nos visitar em Uruguaiana e nós fomos visitá-lo algumas vezes nos EUA.  Nossos encontros sempre foram de grande alegria e ele nos ajudou sempre.
Inclusive Pulico e Lúcia, em uma de suas viagens para Europa com Fernanda encontraram-se com Giovani em Roma, ele estava lá fazendo um curso.
Bem !!!  Isto é outro capítulo da história....

O caso é que Giovani estava em Pittsburgh e para lá resolvemos mandar a Laura e Cristina.  Naquela época ainda não tínhamos as facilidades da internet, mas mesmo assim nos comunicávamos por carta. Escrevi para Helássima contando de nossos planos e consultando se ele se prestaria para ser o "anjo da guarda" das gurias.   Elas alugariam um apartamento e a missão dele seria apenas orientar Laura e Cristina. Elas teriam seu livre arbítrio, eram suficientemente maduras, bem orientadas pela Hilde, para sobreviver sozinhas. Helássima aceitou mas ficou meio assustado com a responsabilidade de ser "anjo da guarda".

Já estávamos com tudo mais ou menos acertado, quando uma tarde, na hora da sesta, eu maquinava em pensamentos os detalhes.  Me ocorreu de mandar juntos Pulico e Lúcia, os quais já estavam casados, formados, iniciando suas vidas.  Lembro-me como se fosse hoje....  Disse para Hilde, estou arquitetando um plano que vai nos custar um montão de dólares...   Que achas de mandar Pulico e Lúcia juntos com Laura e Cristina...  Hilde sem pestanejar, no mesmo momento, me respondeu:  ótimo estou de pleno acordo.  Fico emocionado em me lembrar como Hilde e eu comungávamos os mesmos propósitos.
O assunto foi decidido naquela hora, com entusiasmo recíproco.  Consultamos Pulico e Lúcia e eles aceitaram encantados.  Foi uma das belas decisões que Hilde e eu tomamos.  Para Lúcia e Pulico foi o início do gosto de viajar independentes e para as gurias uma experiência sem igual.

Assim os "quatro mosqueteiros" embarcaram para os EUA,  já matriculados na Universidade de Pittsburg, para fazerem o curso de inglês.  A Universidade dispunha de apartamentos, que alugava para seus estudantes, por preço mais baixo do que o corrente. Um destes eles alugaram.  Helássima orientou para que eles comprassem um automóvel e assim tivessem mais autonomia, ainda que os referidos apartamentos eram 4 quadras da Universidade e eles iam a pé.

De chegada ficaram na casa da Ordem Consolata, duas noites, até que alugassem o apartamento da Universidade  Por sinal uma lindíssima e grande casa.

Padre Mathew, que também ficou nosso amigo e toda a vida - também veio a Uruguaiana nos visitar quando veio João de sua irmã - era o chefe da casa.  Ele nasceu e criou-se com João, pois ambos nasceram em Prá, uma pequena cidade da Itali.  Mathew não sabia o que fazer para agradar e obsequiar a minha turma.  Ai lembrou-se que tinha no freezer um bolo que havia ganho no seu aniversário e que ai tinha guardado.  Tirou e colocou no micro ondas....  As gurias e Pulico comeram muito desconfiados.
Ai conheceram esta tecnologia de freezer e micro ondas, foi uma das múltiplas coisas que aprenderam.

Naquela ocasião, o dólar oficial valia 50% menos que o dólar comercial, assim tudo que se comprasse no câmbio oficial era de grande vantagem. Quando se exibia as passagens, podia-se comprar no Banco do Brasil, US$ 1,000.00 por pessoa.  E era permitido mandar para exterior, de pessoa para pessoa, até US$ 300.00 por mês.  Então  dávamos ordens de pagamento,  todos os meses, para as gurias e para Helássima. Mandavamos Hilde, eu, Edgar mais no nome de alguns amigos.
 
 

Chegada nos EUA. Pulico como chefe do grupo  O apartamento era pequeno como para estudante, mas tinha  todas as comodidades.

 
Nos últimos tempos da viagem, convenci a Brunida 
que mandasse seu filho, o Nilson, que sempre foi 
amigo das gurias. Assim ele aproveitava que eles 
estavam com a infra estrutura organizada.
Helássima revelou-se mais que um "anjo da guarda" Foi um companheiro de valor 
inestimável. Estava sempre pronto para ajudar 
e acompanhar a turma.
Como já disse, além de sábio, Giovani era 
espirituoso e sua companhia era amada pelas 
gurias e Pulico
  Pulico e Lúcia, no final fizeram uma 
  viagem visitando a região de grandes 
  fazendas nos EUA.
    Edgar, meu amado irmão foi visitar as gurias quando elas estavam nos EUA, ai conheceu João.

Uma das coisas boas é a amizade  João tem sido um bom amigo através dos tempos
Foi meu amigo na minha pesquisa com os Yanomamis, em Roraima, ( veja arquivos abaixo )
http://www.cleber.com.br/linkyano.html
http://www.cleber.com.br/curriculo_2/
index.html#universitarias_pesquisa_yanomamis

Passaram-se os anos e João segue nosso amigo.

        Sendo que não só meu amigo, também é muito querido amigo de toda minha família.  Nossas filha e Pulico ganharam sua amizade quando foram para os EUA. Depois disto temos nos encontrado diversas  vezes, em diferentes lugares com o João.  Inclusive ele já veio aqui em Uruguaiana nos visitar, junto com sua irmã e seu amigo Padre Matheus. Nesta ocasião Pulico e Lucia e Laura foram com João até as Missões.

  
 
 

  Em uma das viagens de Pulico, Lucia e Maria Fernanda para a Europa, João estava em Roma. Marcaram encontro e estiveram juntos todo o tempo.
Fernanda adorou o João e este adorou Fer. Assim que amizade já passa para a terceira geração.
Eu não me importo de repetir: nada mais lindo do que a família e os amigos.  Veja o caso do João. Vivemos um longe do outro, mas mesmo assim consolidou-se uma amizade maravilhosa entre nós que foi estendida para a família. As fotografias acima são recente, na última viagem de Pulico, Lucia e Maria Fernanda na Europa.  João estava em Roma e já se encontraram.  João ficou parceiro em todo o tempo em que estiveram em Roma. Nota-se que o tempo passou para todos...
 
Giovani sempre estava acompanhando as gurias
Foi realmente o que lhe pedi: um anjo da guarda 
   Os três mosqueteiros que eram quatro...
   Ao fundo o edifício da Universidade de Pittsburg 
   chamado de Catedral do saber.

Na chegada, no primeiro dia,  eles compraram um 3 em um, toca disco, toda  fita.  Era último lançamento nos EUA, grande novidade para o nosso mundo.

Giovani contou que na Consolata havia dois aspiradores de pó e que eles, realmente, só precisavam de um...   Assim emprestou para as gurias um dos aspiradores.  Porém,  com o desprendimento de Giovani, ele emprestou o melhor...   O mais fantástico é que quando Giovani chegava no apartamento já pegava o aspirador e ia passando por toda casa.  Ele queria ajudar de qualquer maneira.

Um acontecimento fantástico do Giovani foi que Laura e Cristina, depois que Lúcia e Pulico foram viajar percorrendo as estancias,   manifestaram sua vontade ir a uma boate....  Elas já tinha ido a boate em Bariloche e estavam curiosas em conhecer uma nos EUA.
Giovani como bom "anjo da guarda" prontificou-se em acompanhar as gurias. De maneira nenhuma elas poderiam ir sozinhas...

Giovani informou-se e ficou sabendo que não poderiam ir porque as gurias tinham menos do que 18 anos... Porém, ficou sabendo que aos domingos, na tarde,  havia boate para menores de 18...
Giovani alugou um auto vermelho com estofamento de couro branco.  E apareceu no apartamento para buscar as gurias com tênis, calça jean e mascando chiclet....  O ambiente estava montado, so que ao chegarem lá os meninos eram um gurizada de 11 - 12 anos que não interessaram as gurias. Voltam para o apartamento...   Ai ligaram o som e dançaram com o Giovani...
 
 

 
As facilidades de terem um auto e a tranquilidade
de Pulico que dirigia sem nunca ter um problema, foi fator decisivo para a muito boa  viagem.
Tenho a convicção de os quatro aprenderam muito nesta viagem, inclusive a se amarem com todas as virtudes e falhas que todos nós temos
A sede da Ordem da Consolata, em Pittsburg foi um ponto de segurança para Pulico e 
minhas filhas.  Na chegada ficaram três noites na sede da Consoloata, até conseguirem o 
apartamento que ficaram.
Pulico parece que as mordomias das três meninas, mas na realidade cada um fazia sua parte. 
Pulico foi um braço forte.
Na primeira noite das gurias no apartamento de estudantes da universidade,  houve um "little party" da turma que estava saindo. Era mudança de turno. A turma que organizava a festinha deve ter vistos as gurias bonitas... e bateram no apartamento delas convidando.  A primeira reação foi de não aceitar.
Mas, depois conferenciaram e Lúcia e Pulico deram força para que todos fossem e fizessem um ato de presença, como política de boa vizinhança.  Assim aconteceu, sendo que Pulico correu e conseguiu comprar um vodca....   Fizeram uma "caipinha" com bastante gelo e chegaram servindo para a turma.
Foi um grande sucesso.  Logo depois saíram sem se comprometerem mas cumprindo o convite.
 
                               Em uma das folgas da universidade viajaram até as cataratas de Naiagara.

 

A VOLTA

Tudo transcorreu as mil maravilhas nesta viagem.  Mas, na volta um susto !!!
A expectativa da volta era tão grande que Hilde e eu fomos ao Rio de Janeiro especialmente para esperar os viajantes.  Chegamos lá nos reunimos com  nossa turma de amigos de Uruguaiana, eles estavam fazendo o curso de Estado Maior, foi uma festa e tanto.
Envolvidos com a festa só na manhã seguinte tomamos conhecimentos do que estava em todos os jornais,
furacão na Florida....  A previsão é de que passaria por Miami, local de onde partiam nossos viajantes para voltar ao Brasil. Caprichei no inglês e falei direto com a torre de comando do aeroporto de Miami, me intitulando comandante de avião.   A resposta foi aterradora:  a previsão é de que o furacão passaria justamente em cima do aeroporto, todos os vôos estavam sendo desviados. O horário de passagem do furacão era aproximadamente a hora de partidas dos filhos...  Foram momentos de grande susto.
Felizmente, logo depois recebemos telefonema dos filhos,  já estavam no aeroporto do Rio.  Corremos para lá e nos encontramos com grande felicidade.

Fiquei sabendo do furacão porque as gurias nos telefonaram nos avisaram da vôo extra.

Ai ficamos sabendo das peripécias.  Pulico e as gurias estavam viajando  para Miami,  em auto alugado.
Sabendo do furacão, pernoitaram em um motel de estrada a alguns quilômetros de Miami. Tinham a informação de que seu vôo tinha sido adiado, sem previsão.   Pela madrugada Pulico telefonou para saber notícias.  Recebeu a informação que a Varig tinha programado um vôo extra, de emergência, que partiria antes da chegada do furacão.  Eles poderiam alcançar este vôo se fossem muito rápidos. E assim foi.  Saíram em disparada.  Contam que eram quase que só eles nas vias de ida para Miami e que estavam super congestionadas as vias de saída de Miami.  Todos que podiam estavam saindo de Miami. Sentiam o vento forte e viam as árvores vergarem-se.  Correndo muito, mal tiveram tempo de entregar o auto em uma locadora e entrar no avião.  Conseguiram....   Saíram são e salvos....  Tiveram um vôo tranqüilo como se nada tivesse acontecido.

Prefeito no radio diz: evacuem a cidade. não demora.  Pessoas perguntavam qual o melhor lugar dentro da casa

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A previsão era de que o furacão iria devastar Miami.  Pulico correu a 180 K
Depois soubemos que na última hora o furacão mudou de rumo e não passou por Miami como estava previsto,  coisas de furacão... O que possou foi uma grande tormenta e o furacão mesmo foi para Alabama.
 

Tudo isto aumentou ainda mais a alegria de chegada. 
Em Uruguaiana, Wilson, casado com Nilce minha sobrinha,
nos esperava, na nossa casa,  com carne pendurara na 
varanda e fogo acesso.
O assado durou todo o dia. Foram 6 meses de história, 
cada um tinha muita coisa para contar.

Já ressaltei que o Padre Giovani Saffirio   ( João, Helássima ) é um grande amigo de toda a vida. Até hoje nos correspondemos com frequência.
Há com ele uma passagem muito interessante, para ver como a vida das pessoas podem mudar, com os acontecimentos.

Quando João estava na Missão Catrimani houve um caso de infidelidade em um casal. Isto não era  comum entre os Yanomamis daquela época.  Desta escorregadinha da mulher, nasceu uma filha.
João estava preocupado pois o marido sabia que não era seu este filho.  João temeu pelo pior e decidiu afastar esta criança da tribo.  Consultou sua irmã, solteira, que mora em Pa, na Itália e ela aceitou de bom grado adotar a criança recém nascida. João levou ele mesmo a menina para a Itália e entregou para sua irmã que ficou muito feliz.

Passaram-se os anos a indiazinha cresceu e casou com um jovem, bom  e trabalhador italiano. Teve família e vivem felizes, uma vida completamente diferente do que teria na selva. Na foto a família da indiazinha que mudou sua vida totalmente.

Há alguns anos atrás em uma das vezes que João veio a Uruguaiana nos visitar, vieram também,  o Padre Mathew e a irma do João.  Então ela nos contou que quando chegou a criança, sendo Pa é uma pequena cidadezinha, correu a notícia e houve um faltório....  Esta é filha do Padre João...
A conversa chegou aos ouvidos dela e ao contrário do que se poderia esperar ela, ao invés, de ficar contrariada com a inverdade, manifestou-se super 

contente dizendo:  Que maravilha, eu não tinha pensado nisto,  que coisa boa que assim seja,  desta forma então esta criança tem meu sangue. Fico feliz com isto.   A conversinha acabou.  Ninguém mais falou sobre o assunto...
É uma lição de vida.