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Hilde e eu vivemos uma vida rica, maravilhosa, repleta
de realizações e muitas alegrias. Foram
61 anos de amor e companheirismo.
Pena que passou tão rápido.
Nossa história vale ser contada e eu vou
tentar fazê-lo.
Lamento que me falte talento para que este relato
tenha uma forma mais bonita.
De qualquer maneira, inicio aqui, sem saber até
onde irei....
Cléber
A fotografia acima foi por ocasião do prêmio
Honra ao Mérito do CRO/RS em abril de 2006.
Veja mais.
Para ir direto para a listagem de links
clique aqui
Nota: Tudo está em construção
O INÍCIO
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Vou partir bem do começo...
Tudo iniciou em março de 1946 em uma das aulas do curso científico no Colégio União. Até então. Hilde estudava no Colégio União e eu no Ginásio Sant´Ana, dois mundos separados. Os colégios estavam de um lado e do outro da cidade, e havia alguma rivalidade e até um pingo de animosidade entre um colégio e outro.... Um era católico e o outro protestante... Até então Hilde e eu não tínhamos conhecimento da existência de um do outro, ainda que a cidade fosse muito pequena. É bom contar que naquele tempo eram cinco anos de curso primário, depois quatro de ginasial e mais três de curso científico, o que habilitava para fazer vestibular. Até o ano de 1945 não havia curso científico em Uruguaiana. Quem quisesses seguir para frente teria de ir estudar em Porto Alegre. |
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Mas, Deus já havia decidido meu encontro com Hilde
e arquitetou algumas modificações.
Eu, que era mais velho que Hilde, deveria ter terminado o ginasial um ano antes e deveria ter ido estudar em Porto Alegre.... Porém eu vivia em plena era a "bobera".... Pouco ligava para os estudos o que me importava mais a era festa.... E "bidu com gim..." Como conseqüência, rodei e tive que repetir a quarta série..... E assim chegou o bendito ano de 1945 e, quase inesperadamente, o Colégio União iniciou a primeira turma de Curso Científico..... Lá estava eu matriculado e Hilde também. Foi a maneira que Deus encontrou para nos juntar. A minha paixão foi à primeira vista. Hilde, discreta, como sempre foi em toda sua vida, estava sentada na aula, escutando, sem levantar os olhos. Parecia estar mais preocupada com a lixa com a qual retocava suas unhas, e com uma mecha do cabelo loiro que |
Não foi nada fácil. Hilde dizia que estava muito determinada em estudar odontologia e que não tinha interesse em namorar. Conversa vai, conversa vem.... Passamos a ser companheiros de recreio e saída do Colégio. Amigos !!! Nada mais que amigos !!!
Quase no final do primeiro semestres, os alunos do curso científico do União foram convidados para uma acontecimento esportivo em outro Colégio, também metodista, em Passo Fundo. Nossa aula foi, inclusive eu, Hilde não foi !!!
Ai senti a força do meu amor.
Curti grande saudades, o meu amor já era irremediável...
Na volta, quando chegamos de trem.... Hilde estava esperando
na estação, com o buquê de flores que entregou para
um colega, que era o capitão do time de futebol...( Hilde
era a rainha da aula ) eu fiquei com ciuminho.... Mas
logo passou, porque ela, a seguir, me deu um abraço que me
deixou todo arrepiado.... Foi o primeiro abraço... e
me explicou que o outro era o capitão... nada mais.... Os
Cúpidos assopram no meu ouvido que ela tinha ido para me receber...
No dia seguinte levei uma caixa de bom-bom de presente
para Hilde. Na saída, chovia e na esquina do Colégio,
em baixo do guarda chuvas, comemos a doçura do amor refletida
no chocolate.
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Deste dia em diante passamos a ser namorados. Eu ganhei
sua foto para colocar na carteira. Era a foto de sua formatura no
curso ginasial, ela tinha 16 anos. Isto oficializava o namoro...
Mostrei com muito orgulho esta fotografia para meu tio Carlos, um homem muito inteligente, bondoso e crítico. Ele comentou, é... ela é bonita... mas tem uma "bolinha" no nariz... Realmente tinha, herdado do pai. Eu não havia notado. Nem me fez diferença. Muitos anos depois, já casados, soube que Hilde não gostava de seu nariz. Não titubeei, por ela não por mim, dei força para que fizesse a cirurgia plástica, que não era comum na época. Fomos para São Paulo e lá foi feita a cirurgia com o melhor especialista. |
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Está foto também ganhei no início
do namoro.
Naquele tempo, tudo era diferente dos dias de hoje. Namorado pegava da mão e dava uns beijinhos escondidos... E não ia nada além do que isto. Em público só os noivos andavam de braço.... Na frente da casa da Hilde morava uma grande amiga sua,
a Terezinha. Ela tinha uma irmã bem mais velha, a qual namorava
um argentino. Ele tinha automóvel e vinha busca-la para jantar em
Libre. Porém, os pais da moça não podiam permitir
que ela fosse sozinha com o namorado. Então éramos
convidados para servir de companhia.... Uma festa para nós...
Sentávamos em mesas separadas e tanto eles quanto nós podíamos
conversar a vontade. Uma beleza.... Ele pagava a conta
naturalmente. Em uma destas voltas, quando passávamos pela
ponte, saiu nosso primeiro beijinho. Um tocar de lábios
embriagador, estupendamente deslumbrante. E ficou assim em só
um, sem agarramentos...
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Com o passar do tempo ganhamos liberdade para ir ao cinema
sozinhos.
Claro não tínhamos auto. Era a pé...
No escurinho do cinema agente ficava de mãos dadas. Mas na
saída não era permitido que um tocasse no outro....
Só quando nós dobrávamos a última esquina da
rua da Hilde, que era meia escurinha, então sim nós
nos dávamos o braço, como faziam os noivos....
Fizemos o curso científico com grande aproveitamento, estudávamos namorando, era um namoro produtivo. Tanto que foi produtivo que passamos no vestibular sem problemas. E trabalhávamos como protético. Eu tinha meu laboratório nos fundos de minha casa e Hilde ia lá para me ajudar. Era muito bom trabalhar com ela, pois era um trabalho namorando.... Com amor tudo fica cor azul e cor de rosa.
Todos os dias eu ia buscar a Hilde para trabalhar comigo.
Eram 4 quadras e pico. Ai passávamos pela casa do Dr. Sólon,
médico caridoso e amigo de nossa família.
O casal de filhos, que deveriam ter entre 3 e 4 anos,
cuidava nossa passada e gritavam “Quebi.... Hildi.... “ e se
escondiam.... Isto se repetida dia após dia....
Nós adorávamos.... Nos dias de hoje, quando encontramos
o Solonzinho - a amizada se perpetuou com a família, - lembramos
isto com carinho.
O noivado oficial aconteceu em julho de 1947, com aliança
e tudo o mais.
Além da aliança eu dei para Hilde uma cruz
de platina e brilhante. Uma jóia de valor relativo, não muito
grande, porém, maravilhosamente linda, insuperavelmente
deslumbrante, pelo menos aos nossos olhos e carinho. Na fotografia
do casamento Hilde está usando esta cruz, e usou até sua
morte.... Quando lhe tirei do pescoço e coloquei no meu. Agora
sou eu quem está usando-a.
Quando terminamos o curso científico, em dezembro
de 1948, casamos. A mãe da Hilde, Dna. Frida, não estava
em acordo com nossos planos. Alegava que a paixão era muita
e que os dois juntos estudando fora, não ia dar certo... Se
eu fosse estudar em Porto Alegre ela mandaria Hilde para estudar em Santa
Maria e vice versa...
Meu pai e minha mãe foram até a Dna. Frida
para lhe convencer a dar seu consentimento. O argumento que usavam
era o o mesmo da Dna Frida. A paixão era grande demais para
ficarmos separados. ... Não iríamos agüentar...
E assim encontrou-se a solução: o casamento.
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Em Mendoza Hilde e eu tomamos o primeiro “fogo”
juntos.... Como mieleiros, no Grand Hotel Éden, nos convidaram
para a festa de Ano Novo. Havíamos casado dia 22 de Dezembro e saímos
de viagem, só voltando dia 8 de janeiro, para o casamento do meu
irmão Elder e Sarita. Continuando com a grandiosa festa do Hotel
Éden era algo nunca visto por nós. Acontecia em um
grande parque, com gente bonita e bem arrumada,
O champanhe era à vontade....
Hilde e eu nos passamos. Quando subimos para o
quarto ainda alimentávamos a esperança de ter uma grande
noite.... Que nada.... Tiramos a roupa e caímos
duros na cama.... Só acordamos no outro dia.... Com
dor de cabeça e sem disposição para o amor.....
Foi uma lição de vida....
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De Mendoza fomos até a fronteira do Chile. Isto
foi em dezembro de 1948, a 5 mil metros de altura, havia uma parede de
neve ao pé do Monumento ao Cristo Redentor, ai gravamos um coração
com nossas inicias. ( caprichando no olhar dá para ver o C.
H. na foto ao lado )
A parede de gelo deve ter derretido... Mas nosso amor estava selado para ser eterno. |
Um peculiaridade, é que passamos a ser grande atração da cidade. Nós só conhecíamos um senhor, que era da Associação Comercial de Pelotas, igual que meu pai em Uruguaiana, entre eles mantinham intercâmbio. Ninguém mais conhecíamos na cidade, além do pessoal da secretaria da Faculdade, onde nos inscrevemos. Pouco saímos, passávamos estudando. Mesma assim a cidade toda, que naquele tempo era pequena, nos conhecia, pelo menos sabiam de nossa aventura. Não era para menos. Um casal em lua de mel fazendo vestibular para a mesma faculdade, era inédito. Dizem que houve gente que fazia apostas de como seriam os resultados dos exames. Algum dos dois rodaria ?
Felizmente passamos os dois.... Edgar passou na
advocacia, e um primo irmão meu Eli Tarragó, meu amigo de
infância, também passou. Este tinha feito o científico
em colégio de Porto Alegre ( IPA) e estava melhor preparado que
nós. Porém, mesmo assim, Hilde e eu não ficamos para
trás dele. Sinal que nos não só nos amávamos
com também estudávamos.
NA FACULDADE
Para nos sustentar em Pelotas, durante os estudos, Dna
Frida se propôs de nos dar o aluguel de um apartamento
que havia destinado para Hilde, o mesmo que depois moramos nele, mais tarde
morou ai Laura e Negro e agora ainda temos o aluguel. Foi um apartamento
milagroso que nos ajuda até hoje.
Paizinho recebia seu ordenado de Inspetor Federal de
Ensino, o qual passava para o Edgar a maior parte, destinando para
mim uma parte menos, pouco menos do que recebia do aluguel da casinha.
Assim nossas finanças se equilibravam. A faculdade Federal era grátis.
Nossas férias eram grandes, sempre passamos por média em
tudo, de tal forma que em novembro já estávamos em casa.
Quando em Uruguaiana, eu trabalhava em prótese e Hilde me ajudava.
Não gastávamos nada porque morávamos na casa de meus
pais.... Assim que nos meses, aqui em Uruguaiana, repúnhamos
o déficit que tínhamos em Pelotas, onde nossas despesas também
não eram grandes.
Alugamos um apartamento com um só lance de escada,
em edifício novo. Era muito confortável para nós
e o Edgar. O aluguel de nosso apartamento era mais ou menos o mesmo valor
do aluguel que recebíamos aqui do santoa apartamento....
Tínhamos uma faxineira que vinha alguns dias da
semana, mas era Hilde quem cozinhava.... Chegava da Faculdade e em dois
tempos estava com a comida pronta. Só na época de exames
é que iramos comer fora, e era no melhor restaurante da cidade...
Restaurante Wyli....
Nossas finanças foram tão bem equilibradas
que quando nos formamos ainda tínhamos dinheiro em caixa....
Nunca nos faltou.... Tudo isto graças à Hilde que resolvia
os problemas da casa. Eu trabalhava forte, era verdade, mas Hilde
foi uma companheira perfeita.
De os estudantes da faculdade, nós éramos os “ricos” enquanto os outros moravam em pensão ou na Casa do Estudante ( muito precária ), Nós tínhamos um excelente apartamento, relativamente novo, com todo o conforto, distânte duas quadras da Faculdade.
No Brasil, os refrigeradores na época eram poucos e caros. Minha tia Zaida, que morava em Porto Alegre, comprou um refrigerador, os quais chamavam-se, na época, de Frigidaire, pois os primeiros refrigeradores eram desta marca e o nome ficou. Como tia Zaida deixou de usar o "conservador" que tinha, Hilde e eu ganhamos de presente dela o "refrigerador" que era comum naqueles tempos. Era uma caixa bem fechada, paredes grossas com isolante térmico. Todos os dias vinha o geleiro e nos supria com meia barra de gelo que ai se colocava e conseguia manter nossos alimentos resfriados. Uma maravilha !!! Foi usado nos três anos da faculdade.
Nossa vida era muito boa ainda que levássemos o
dinheiro contado, tudo graças à Hilde que foi muito econômica.
Seu vestido de formatura foi ela mesma quem fez, modificando o vestido
de casamento. E Hilde era disparada a mais bonita da festa, não
só de cara, corpo, atitudes e bondade.
Estava tão linda que chamou a atenção
de todos, inclusive pelo vestido. Não é exagero de apaixonado.
É só olhar as fotos de formatura.
Terminamos o curso laureados, pois passamos por média em todas as matérias durante os três anos. Aconteceu que além de sermos muito dedicados ao estudo, nossos conhecimentos de protético nos ajudaram. Enquanto os colegas estavam aprendendo o nome e a anatomia dos dentes, isto já era sabido de nós e estávamos estudando coisas lá na frente. E assim foi todo o curso. Hilde e eu sempre estávamos com a matéria muito bem estudada.
Alguns colegas tinham um certo ciuminho, pois o ano terminava para nos em princípio de novembro, todos os outros ficavam fazendo provas até dezembro. Mas, no final a turma se acostumou. Éramos bem quistos por todos... E nós amávamos a todos...

Na nossa formatura estava meu irmão Edgar, minha
avó Tereza, mãe de minha Mãe, meus amados pais Terezinha
e Naor e Dna. Frida.

Nossa turma foi muito unida e sempre tivemos motivos
de alegria e contentamento, salvo pequenas cozinhais não
significativas.
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Esta foto é no aeroporto de Pelotas, quando terminamos
o curso, viajando com destino definitivo para Uruguaiana. Lá estavam
para nos despedir aquele amigo do paizinho, com sua mulher e filha.
Note-se que na época, o luxo eram óculos escuros rayban, importados dos EUA, e Hilde está de luvas.... Gravata era imprescindível na época... Falando em gravata, me vem na mente uma história
peculiar. Logo depois de namorar Hilde, era o tempo que fotógrafos
profissionais, postados na rua principal, tiravam fotografias dos passantes
que lhes pareciam possiveis compradores.... Assim cheguei eu
em casa, muito orgulhoso, e mostrei para meu paizinho a foto da Hilde e
eu. Paizinho fez uma cara feia e me perguntou: que intenções
tu tens com esta moça ???
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Em 2002, quando fizemos 50 anos de formados, reunimos
aqueles que puderam comparecer. Éramos poucos mas foi muito lindo,
encontrar o amor com a mesma força de 50 anos passados.
João de Deus Silveira Vidal; Paulo Lima Pinto; Paulo Roberto Eick; Henrique Gulko; Henriete Poetsch; Hildegar Riesinger Pereira ( Hilde) e eu Cléber Bidegain Pereira. Tenho de louvar a Terezinha, mulher o Gulko, ela conseguia reunir o grupo com convocações quase de repente.... Tudo ao contrário do que eu havia tentado fazer, outras vezes, sem sucesso !!!! |
NOSSA VIDA JUNTOS
Nossa vida, nestes 60 anos que vivemos juntos foi muito boa, mas muito boa mesmo. Não tenho medo de errar em dizer que foi boa tanto para mim como para Hilde. Houve desentendimentos, alguns graves, geralmente por falhas minhas. No entanto, o amor que nos unia não permitiu que estas coisas ruins nos separassem. E, a medida que o tempo foi passando, o amor consolidou-se de tal forma que nada mais poderia nos separar, salvo o que aconteceu, a morte de um de nós os dois.
Certamente o livro mais sábio que existe é
a Bíblia, depois dele, há muita sabedoria escrita neste mundo,
entre elas as fábulas, das quais há até uma
de Leonardo da Vinci. Os autores mais conhecidos são Esopo
e La Fontaine. Para
rever fábulas clique aqui. Vale a pena.
O que eu quero ressaltar é a fábula de
Esopo, a cigarra e a formiga. Pode-se meditar horas, dias e anos, sobre
este tema. O que vale mais e é o certo ? Viver o dia de hoje
sem pensar no dia de amanhã, ou trabalhar e trabalhar pensando só
no futuro. A conclusão parece ser fácil, quando se analisa
friamente:
o certo está no meio. Mas, não é
assim tão fácil. Cada momento deve ser vivido com alegria
mas sempre sem perder de vista o futuro. Devemos ser ambos, em diferentes
instantes, ora a formiga, ora a cigarra. Isto se chama contemporização.
E é o que havia entre Hilde e eu. Trabalhamos como as formigas,
juntos ela e eu, mas nos divertimos muito também. Depois vou contar
algumas coisas de nossas festas e viagens.
Não há dúvida, é o amor recíproco
que une as pessoas. As discrepância que Hilde e eu tínhamos
eram sobrepujadas, pois havia em nós os dois o espírito de
contemporizar.
Eu havia herdado do meu pai, descendente de portugueses,
a arte de contemporizar. Algumas vezes, quando mais jovem, lembro
que paizinho tinha "acessos de raiva".... Inclusive eu, quando pequeno,
apanhei boas surras de cinto...
É engraçado como são as coisas...
Nós sabíamos que nosso primos irmãos Ely e Hugo, apanhavam
com um jornal que Tio Aguinaldo enrolava e com isto lhes surrava nas travessuras.
Elder e eu nos gabavam, como grande vitória, que nós apanhávamos
de cinto e pinguelim.... Repetíamos isto como uma glória...
Quando eu era adolescente meu pai já tinha o domínio
da contemporização. Meus erros ele soube contornar
com amor. Não tolerava as falhas graves, mas contemporizava de forma
a não ser agressivo.
Certa ocasião quando eu tinha 16 anos tomei uma
bebedeira e fiz escândalo, não fiz mal a ninguém, nem
causei prejuízo, exceto para minha reputação.
Nesta época fazia já muito tempo que não apanhava
mais de cinto. Recebi uma carta do paizinho com repreensão
dura. E ao mesmo tempo com amor e candura. É um exemplo
de contemporização e amor. Vou encontrar está
carta, que tem mais de 60 anos e vou colocar aqui. É um hino
de amor.
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Meu pai primava pela capacidade de comtemporizar.
Ele era de outra época. Não admitia que se andasse sem gravata
e não aceitava que mulher fumasse. Fumar era coisa de homem...
Ele fumava charuto.
Durante quarenta anos meu pai jogou bridge com um casal muito amigo. Ela fumava e ele reclamava sempre. Ela para lhe "provocar..." pedia para ele acender seu cigarro. Ele se recusava.... Isto se repetia todos os dias... No entanto, a neta mimosa do paizinho ele aceitou que fumasse... Até aceitou fazer esta fotografia. Acho que consegui aprender esta arte com paizinho. Minhas filhas que me lêem podem relatar algumas falhas minhas, mas espero que elas testemunhem que eu procurei |
Hilde vinha de uma família germânica, mais
intransigentes em suas convicções. No entanto, era
profundamente honesta em suas atitudes, e sábia como ela só.
Suas intransigências geralmente eram o caminho certo... Eu tive de
ceder muitas vezes ao que Hilde determinava, mas nunca ela impunha
coisas erradas. Podiam ser diferentes do que eu queria, um outro
caminho, geralmente melhor.
Eu aprendi a nunca contrariam a Hilde. Ainda que
em algumas coisas, depois eu fizesse diferente...
O fato é que sempre nos acertávamos.
Era o amor que se mostrava mais forte.
Por um lado, Hilde era muito firme em suas convicções,
por outro ela sabia levar com moderação, contemporizando,
tanto a mim quanto as filhas e netas. Imaginem que quando namoramos
eu fumava 2 pacotes de cigarro por dia... Meus dedos eram amarelos.
Era o tempo que "homem de verdade" fumava, igual ao Humprey Bougart, em
Casa Branca... Claro Hilde não fumava. Poucas mulheres fumavam
naquela época ( Depois me contava Hilde que minha roupa toda
ressendia a fumo ).
Logo a seguir Hilde me convenceu de diminuir para uma
carteira por dia... Também parei de tomar fogonassos...
Aos poucos fui diminuindo o cigarro, depois de 10 ou 15 anos passei a fumar
apenas um cigarro por dia. Fumava depois do almoço, quando me deitava
para a sesta. Não havia TV e eu fumava lendo na cama.
Vejam só a tolerância da Hilde, fumar no quarto... Ao
mesmo tempo observe-se o trabalho lento e paciente da Hilde que, finalmente,
depois de 20 anos, me levou a abandonar o cigarro definitivamente.
Graças a isto estou vivo até hoje. Tenho de infância
bronquiostasias que se continuasse a fumar não teria sobrevivido
aleém dos 50 ...
INÍCIO COMO ODONTÓLOGOS
Nos formamos em odontologia em dezembro de 1951, naquele tempo eram apenas 3 anos de Faculdade.... Dia 20 de janeiro de 1952 já estávamos trabalhando.
Meu pai havia alugado um local para o consultório, bem localizado e adequado as nossas necessidades, tanto que ali trabalhamos, até que fosse construído na cidade um edifício para profissionais. Os dois equipos e material para os consultórios havíamos comprado em outubro de 1951 ( no último ano de faculdade), antes de nos formar. Iniciamos com um Raio X e cadeira própria para odontopediatria, para Hilde, as quais foram das primeiras fabricadas no Brasil. Raio X no consultório eram poucos os dentistas que tinham. Isto foi um grande avanço para nós. Hoje temos outros Raio X no consultório, mas o velho ainda está funcionando.
Dna. Frida, minha sogra, nos deu uma quantia para ajudar o pagamento do consultório da Hilde. O valor correspondia ao preço do Raio X, fabricado na Holanda. Fizemos um “pacote” e demos esta quantia como entrada. O demais foi dividido mensalmente. Ainda não tínhamos clientes mas sobrava a coragem da juventude... Assumimos o compromisso e pagamos todas as prestações em dia.
Morávamos na casa dos meus pais, de tal forma que
o dinheiro que ganhávamos dava para pagar as prestações
do consultório e ainda sobrava....
Tivemos clientes desde o primeiro dia. ... Meu primeiro
cliente foi um amigo, Gilberto Schimit, então Capitão do
Exercito, noivo da Carmem Maria, irmã de minha cunhada Sarita.
Depois vieram outros amigos e rapidamente a clientela foi crescendo. Meu
pai tinha muito prestígio na cidade e as pessoas punham fé
no filho do Naor....
Desculpem a imodéstia, mas reflexiono sobre nossa vida e encontro uma preponderância imensa de acertos e grandes realizações. Estou convicto que isto mais se deve a Hilde do que eu. Ela era uma matriarca que direcionou nossas vidas.
Investimos muito em nossa profissão, fazendo cursos,
estudando, pesquisando. Quando conseguimos juntar algum dinheiro, fomos
para os EUA a fim de aprimorar nossos conhecimentos profissionais e tomar
"um banho de civilização".
Se quer saber mais sobre esta viagem clique aqui. Depois de um
ano e pouco de EUA, Hilde ficou grávida. Nem ela nem
eu não tivemos dúvidas em um só momento, decidimos
voltar para o Brasil, isto foi em meados de 1956. Vejam como eram
diferentes as coisas. Hoje, os casais que podem ter um filho nos
EUA ou Europa, tratam de tê-lo, afim de que o filho ganhe a cidadania
do pais. Nós nem pensamos nisto. Nós mesmo tínhamos
visto permanente e consequentemente teríamos a cidadania americana
e não estávamos interessados nisto. Não podíamos
imaginar que Hilde tivesse filho lá, sem o carinho das avós
e nossas famílias. O mais importante é que mesmo com toda
esta porcaria que está o Brasil, não nos arrependemos
de ter voltado.
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Se tivéssemos ficado lá, certamente toda
nossa vida teria sido diferente. E duvido que tivesse sido melhor.
Foi muito boa nossa vida aqui. Muito muito difícil que tenha sido igual ou melhor se optássemos por ficar nos EUA. Em nenhum momento de nossas vidas Hilde ou eu pensamos: puxa... que pena que não ficamos nos EUA. Pelo contrário, sempre bendizemos nossa vida. Na foto Hilde grávida de Ana Lúcia, discreta em tudo.... sua barriguinha era pequena e ai já estávamos de volta ao Brasil, com 8 meses de gravidez, Com o nascimento da Lúcia, mudou nossa vida. Ai já estávamos morando na casinha da rua sete, onde iniciamos a criar as três filhas. Depois de 4 anos do nascimento de Lúcia chegou Laura e logo em seguida Cristina. O Dr. Arriaga maravilhoso realizou os três partos com amor e carinho. |
Quando ainda nos EUA, Hilde grávida da Lúcia, foi consultar um médico. Ai ele lhe disse uma coisa surpreendente para nós na ocasião. Falou: você sabia que o único animal que toma leite depois de adulto é o homem ? Saiba que o leite é para ser tomado só na infância? O leite tomado por adultos junta colesterol. Para você que já tem colesterol alto é um perigo. Foi a primeira vez que tomamos conhecimento de que Hilde tinha colesterol alto e dos malefícios disto. Mesmo assim, nem imaginamos quanto isto iria causar de problemas para a saúde de Hilde, durante toda sua vida.
Depois do nascimento da Lúcia, Hilde passou
a trabalhar um só expediente, alguns dias pela manhã e outros
pela tarde. Tínhamos empregada doméstica e baba para cuidar
das crianças. Antes do nascimento da segunda filha, Laura, contratamos
Ernestina, a super maravilhosa baba das três gurias. Ernestina,
que não casou nem tinha filhos, adotou nossa família
como sua e nós a ela. Nos acompanhou por toda a vida com um
amor muito especial. Quando Laura e Cristina foram para Porto Alegre
fazer faculdade, Ernestina foi junto. Depois, como Cristina se mudou para
Florianópolis, Ernestina ficou com a Laura e ajudou a criar
Juliana e Luiza, filhas do Negro e Laura. Até há poucos
meses atrás, velhinha e aposentada, ia todos os dias na casa da
Laura para ajudar em alguma coisa. Cozinhava bem.
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Na foto a família completa. Hilde parece que está
muito satisfeita. Minha cara é de que estivesse assustado
com a responsabilidade de criar 3 filhas...
No final não foi pesado como poderia parecer. Pelo contrário, tudo foi muito fácil. Claro !!! Graças à Hilde que era o braço forte. E Ernestina que foi uma das grandes coisas boas que tivemos na nossa vida. Hilde confiava totalmente nela. Graças à ela Hilde pode conciliar, com mais facilidade, sua tarefa de mãe e profissional. Mas, nunca, em um só momento, Hilde deixou de ser mãe. Ela era quem orientava as filhas, conversava com elas, foi mãe presente. Sem deixar de ser uma excelente profissional. |
Também eu estava presente e dialogávamos,
Hilde e eu, sobre a orientação das filhas.
Lúcia foi filha única por quatro anos,
isto lhe trouxe a maturidade mais cedo. Também, o mundo já
andava muito rápido. Grandes mudanças não aconteciam
de geração para geração, já aconteciam
de um filho para outro, como com propriedade manifestava Pulico, quem acompanhou
o crescimento e maturidade das minhas três filhas, pois iniciou a
namorar Lúcia com 13 anos, quando Laura tinha 9 e Cristina 8.
Na adolescência, Laura e Cristina eram diferentes de Lucia, não que fossem rebeldes, todas estavam sempre bem orientadas pela Hilde. O mundo delas era diferente. Nunca tivemos problemas maiores com a criação das filhas. Porém, vez por outra elas faziam ou queriam fazer alguma coisa que para nós era errado. Então Hilde e eu tínhamos um combinação. Vez por outra trocávamos de "posição". Algumas vezes eu era o durão, intransigente, e Hilde, concordando comigo, mas mostrava-se mais boazinha, flexível. Outras vezes fazíamos o inverso. A idéia era de que ao contrariar, ou não permitir alguma coisa, as filhas não ficassem desamparadas. Nâo sentissem falar-lhes apoio. Sempre tinham um "ombro" para chorar as mágoas. Ou era Hilde ou era eu. Acho que nunca contei isto para as filhas, e elas estão sabendo agora. Foi uma estratégia que deu certo.
Falando em mudanças no comportamento das pessoas.
Me vem na lembrança o primeiro namoradinho da Lúcia.
Foi um namorisco de verão. Na praia, uma das poucas vezes
que deixei Hilde lá sozinha com as filhas e uma empregada.
Levei todos e voltei para casa trabalhar, pois Hilde e eu tínhamos
depois um Grande Congresso em São Paulo, um dos primeiros da Sociedade
Paulista de Ortodontia Uma noite Hilde me telefona e contou que Lúcia
estava de namoradinho... E me disse que o menino tinha entrado
no auto com elas... Eu havia deixado o auto com Hilde.
Fiquei surpreso e "indignado". Falei: Hilde como permitistes que
este menino entrasse no nosso auto ??? Pois é me respondeu
Hilde: quando eu vi ele já tinha entrado...
Assim aconteciam as coisas. Muitas vezes somos
levando de rondão pela vida.
Viajávamos muito. Normalmente, duas vezes por ano com a família, depois sozinhos, Hilde e eu.
Janeiro inteirinho era para a praia, primeiro para nossas
praias gaúchas. Íamos para praia Xangri-Lá,
recém inaugurada, onde tínhamos o privilégio de pioneiros
e ganhávamos o melhor quarto, de frente para o mar. Depois
que abriu a estrada 101 e que se pode chegar com facilidade até
Florianópolis, passamos a veranear no Hotel Plaza Itapema, que naquele
ano iniciava a funcionar, ai também tivemos, por muitos anos, regalias
de amigos. Ganhávamos a melhor cabana, fazendo reserva
de ano para ano.
Veja veraneio
nas praias.
Nas férias de julho das gurias, viajávamos toda a família para o sul da Argentina, Bariloche. Naquele tempo, como digo sempre, tudo era diferente, as ferias de julho no colégio eram 30 dias. Íamos em auto. Veja viagens a Bariloche.
Ainda com a família, fizemos algumas viagens memoráveis. A mais fantástica foi com as três filhas para Europa, onde ficamos 60 dias. Veja detalhes desta viagem clicando aqui.
Houveram muitas viagens fantásticas, como da Lúcia,
Pulico, Laura e Cristina para os EUA.
Aproveitamos que tinham terminado e científico
e era hora de viajar e fazer um curso de inglês.
Veja detalhes.
Na minha viagem de estudos para o Chaco Paraguai, para examinar os índios Lenguas, até Asunción levei toda a família e, entre outras coisas, conheceram as cataratas de Iguaçu. Veja mais sobre nossa visita a África do Sul e pesquisa nos índios Lenguas.
Mas, a não menos fantástica viagem foi para Disney, com as três netas... Desta viagem conto algumas passagens em separado, veja clicando aqui.
E houve outra grande viagem, de 6 meses, quando fomos
fazer pesquisa na Universidade de Toronto.
Na primeira etapa, levamos Laura e Cristina, na segunda
etapa, dois anos de pois, fomos somente Hilde e eu. Hilde me ajudou
preponderantemente neste trabalho. Conto
tudo em detalhes em separado, veja.
Além destas viagens grandes com a família, Hilde e eu viajávamos muito frequentementemente, algumas épocas 3 ou 4 vezes ao ano, para Congresso e cursos. Veja maiores detalhes. Nos primeiros anos era para Bs. Aires, depois para São Paulo, Chile, USA, Espanha. Peru. Veja viagem ao Peru.
Quando viajávamos sozinhos e as filha eram pequenas,
elas ficavam, com a Ernestina, na casa de minha mãe encarregada
de supervisionar. Nas vésperas de nossas viagem ia, em caroça,
puxada por cavalos, uma comoda com as roupas de filhas. Depois, quando
as filhas eram maiores ficavam na nossa casa com a Ernestina.
Quando as filhas casaram e voaram, formando seus
ninhos, então Hilde e eu viajávamos sozinhos com mais tranqüilidade.
No inverno iramos para Bariloche, sempre em auto, calmamente, em 3 dias
de viagem, parando pelo caminho, tomando 45 dias. Nada que ver com estas
viagem que vejo fazerem hoje de uma semana correndo...
Em separado conto cada uma destas viagens que fizeram parte substancial de nossas vidas. São tantas as viagem e peripécias que poderá parecer ao leitor que nós passávamos viajando. Não não é isto. Nós trabalhávamos muito, o que ocorre é que estou contanto uma história de 60 anos... Se fossem só duas viagens por anos, seriam 120 viagens... Na realidade foram muito mais.
Além de trabalhos, estudos e viagem tivemos muitas
e grandes realizações. Houve o debute de cada uma das
filhas. Veja debute filhas.
Houve casamentos.... Vejam
casamentos.
Houve a construção da casa grande, Veja
clicando aqui.
E houveram as homenagens recebidas: Medalha
Pannain, posse Academias, veja
aqui.
Finalmente o Honra ao Mérito do CRO/RS, veja
aqui.
A
casa grande
Imagens
varias da família
Viagem como imigrantes
para os EUA
Viagem com
as filhas para Europa
Outras
viagens para os EUA
Viagens para Europa
Viagem das filhas
para os EUA
Debute das filhas
Lucia, Laura e Cristina
Veraneio
na praia
Viagens
a Bariloche
Casamentos
filhas
Viagem ao Peru
Viagens Toronto
Viagem com as
netas para Disney
Viagem a África
do Sul e pesquina no Chaco paraguaio
Cursos
e Congressos
Medalha Pannain
e Posse Academias de Odontologia
Honra ao Mérito
CRO/RS
Escritos lindos de nossas
vidas
Mensagens
maravilhosas de estímulo para eu continuar estes escritos
Coluna do Paulo Sant'ana: A memória e a saudade (novembro de 2007)
Minha
nova morada