1º VIAGEM PARA OS EUA COMO IMIGRANTES
 
Hilde trabalhava com afinco junto comigo. Só mais tarde, quando nasceram as filhas ela passou a trabalhar meio expediente.  Foi a primeira mulher com titulo universitário na cidade e desde o inicio dedicou-se a tratar crianças exclusivamente. O que ela ganhava pesava forte, favoravelmente,  em nossas finanças.  Era um adendo que outros não tinham...  Pelo menos, nas nossa relações,  não havia nenhuma mulher que trabalhasse, além das tarefas do lar.

Dois anos depois tínhamos economizado bastante para realizar o primeiro grande investimento profissional e cultural que fizemos.  Viajamos para os EUA para estudar e nos aprimorar.   Está foi uma viagem épica que nos deu novos rumos em nossas vidas.
Ganhamos não somente conhecimentos profissionais, como também cultural.  O Brasil de então era um outro mundo comparado com os EUA.  Só para que se tenha uma idéia,  a única estrada asfaltada que havia no Brasil era a via Anchieta que ligava São Paulo a Santos.  Nos EUA todas as estradas eram primorosamente asfaltada.
 

Nossa partida para os EUA, no aeroporto de Uruguaiana, de onde saímos em um DC3, bimotor.
Dna. Frida, minha mãe e meu pai estavam nos despedindo. Era uma viagem longa, sem prazo para voltar.

Hilde eu tínhamos um apoio altamente significativo nos EUA.  Um primo do meu pai, General Machado Lopez, era chefe dos adidos militares em Washington DC. O casal nos adotou pois não tínhamos filhos.  Moravam em um grande apartamento em um hotel, com todas as mordomias, inclusive cozinheira e chofer.  Tudo foi mais fácil tendo um apoio como este.

Mas não foi só isto que nos aconteceu de peculiar neta viagem,   Quando nos apresentamos ao Consulado  dos EUA, para fazer nossos papeis, o próprio Cônsul nos atendeu, e nos explicou que o visto de estudante, como pretendíamos, requeria os mesmos documentos que para ir como imigrantes...  Assim a sugestão dele é que fossemos como imigrantes.  Nós nos assustamos um pouco, pois não pretendíamos ficar lá mais do que algum tempo.  Ele insistiu que éramos jovens, saudáveis, que iríamos gostar tanto que não iríamos voltar.   Já estavam com os documentos certos.  Não haveria nenhum problema.
Como imigrantes poderíamos estudar e, desejando, poderíamos trabalhar.
Claro tivemos de mostrar para o Cônsul que tínhamos dinheiro suficiente para nos manter um bom tempo. E assim fomos...   Levamos os documentos do Consulado em envelopes lacrados, os quais foram examinados detidamente pela imigração na nossa chegada em Miami.  Nos informaram que em 30 dias receberíamos no nosso endereço, o nosso Green Card,  o que efetivamente aconteceu..
 
 

Green Card - Visto Permanente nos EUA
1955
Hilde e a bondosa tia Armandina, esposa do General Machado 
Lopes, nossos protetores nos EUA.  A foto foi tirada em 
1955 nos arredores da cidade de Washington DC.
Este é um slide, coisa que recém havia surgido para o público
na América do Norte.  Foi quando conhecemos os slides
que agora desaparecem com a fotografia digital.

Deus sempre nos ajudou e nesta viagem para os EUA, deve ter colocado vários anjos para nos proteger e orientar. Primeiramente decidimos não ir direto para Miami e sim antes passar rapidamente por alguns países latinos, aproveitando a oportunidade de conhecer um pouco mais.  O preço da passagem não mudava e só pagávamos as taxas de embarque.  Assim passamos pelo Bogotá onde nos impressionou a construção rica vinda do tempo colonial. Também o hotel de 5 estrelas.  Quito nos deixou triste, era uma pobreza total.  A população era quase na totalidade de índios que andavam descalços na rua. Caracas nos pareceu uma cidade muito rica.  Não estava em nossos planos ficar lá.  Foi uma parada obrigatória programada pela empresa aérea, assim eles nos pagaram tudo no melhor hotel....  Um luxo fantástico que nos deixou deliciado.   Dai voamos para México, onde acontecia  o I° Conselho Panamericano de Odontologia Infantil  (1955).  Por estas e outras é que digo que Deus colocou anjos para nos ajudar.  Neste Congresso tivemos oportunidade de conhecer o Dr. Samuel Harrys  ( Presidente do Congresso - com clínica em Detroit )  ele foi nosso guia nos EUA e abriu todas as portas para nós.  Graças à ele tivemos oportunidade de aprender muito.  Hilde ficou estagiando com ele em Detroit por 6 meses e eu estagiei com um grupo da prótese, que naquela época era o meu maior interesse.  Foi do estágio da Hilde com Samuel Harrys que nasceu meu interesse pela ortodontia. Hilde viu que Samuel Harrys fazia grande quantidade de ortodontia interceptava e me estimulou para a Ortodontia,  Assim eu fui, instigado pela Hilde,  investindo na ortodontia, cada vez mais.

Esta viagem foi de grande enriquecimento profissional tanto para Hilde quanto para mim. Nos abriu horizontes e criou em nós o desejo de saber mais.

Mas,  há ainda mais coisas lindas que nos aconteceram na Ciudad México.  O Congresso de Odontopediatria acontecia dentro de um Congresso maior, na nova cidade Universitária  ( tínhamos visto, antes de viajar em uma Revista da Am. Geográfica ).  Assim, éramos relativamente poucos os que estávam neste Congresso de Odontopediatria.  Logo fizemos amigos e participamos de todas as festas que haviam. Toda a noite havia festa, ou do Congresso ou na casa de alguém.  Nós fomos convidados para todas...

Aí conhecemos também Samuel Leyt, de Buenos Aires,  que voltava dos EUA, onde havia feito seu doutorado em An Arbor.  Profissional da Odontopediatria, de grande destaque na Argentina, que se tornou nosso amigo de toda a nossa vida.  Mais tarde, em 1987, por iniciativa dele,  traduziu meu livro de Cefalometria para o espanhol, o qual tinha sido publicado pela UFRGS.  A publicação foi pela Editorial Mundi de Buenos Aires.  Veja detalhes deste livro clicando aqui
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Fizemos lindas amizades com o carinhoso e alegre grupo de Mexicanos.  Até a pouco ainda mantivemos contato com Alicia, uma ortodontista do nosso tempo lá.  Outra colega nos levou em seu automóvel para conhecermos Acapulco, que naquele tempo era uma das grandes praias internacionais.
Ficamos fascinados com os peixes espada que tinham sido naquele dia pescados por dois norteameicanos,  os quais ficaram fascinados pela Hilde...
Passeando de barco por Chochimilco, uma zona ancantadora, os mexicanos que passavam gritavam:  mirá os gringos....  Ruivos como éramos, eles pensavam que eram norteamericanos,
Os mexicanos nos deixaram marcas profundas de simpatia.  Tanto que agora temos o privilégio da grande amizade do Prof. Roberto Justus e sua esposa Yolanda, com os quais fizemos vários Congressos juntos

Nesta ocasião também conhecemos um grupo de cubamos.  Todos jovens, alegres e dançavam muito bem o tcha-tcha, um ritmo novo para nós.  Não pretendíamos ir até Havana,  mas diante do convite insistente deste grupo resolvemos ir.  Eles eram uma elite.  Todos contra o atual governo ditatorial de Fulgêncio Baptista, um déspota sanguinário.   Realmente Havana nos encantou.  Dizia-se que naquela época Havana era o centro de diversão dos americanos ricos que para lá iam jogar e conquistar mulheres...  A construção de Havana era linda e só vimos riqueza e alegria.  As maldades do Fulgêncio ficaram longe de nós.  Fidel Castro estava lutando em Sierra Maestra,  longe de Havana.

Nossos anfitriões muito gentis, nos levaram no maior Cassino e casa de Show de Havana, O Tropicana, famoso no mundo inteiro. Ficamos maravilhados.  Ali se jantava e depois tinha o show.  Nunca havíamos visto nada parecido. A riqueza,  vinda do jogo,  era fabulosa e possibilitava está riqueza do show.

Nestes dias vi um filme  sobre Havana,  justamente sobre o Cassino Tropicana. Quase todo o filme se passa dentro deste cassino.  Aparecem os show, alguns deles que devemos ter visto. O filme é super bem feito.  Mostra o que nós percebemos.  A mocidade toda era contra o ditador Fulgêncio.
No filme,  há uma família muito rica e conceituada em que dois dos filhos eram fanáticos contra Fulgêncio. Um deles participa de atentado fracassado ao Palácio do ditador e morre depois.  Outro se reúne a Fidel Castro e acaba fazendo parte do Governo, quando Fidel assumiu a presidência de Cuba.

Hilde e eu vivemos esta situação pré revolução, a qual nos foi narrada pelos colegas de Havana.

Agora, aconteceu uma coisa muito interessante enquanto eu via o filme.  Sempre deixo, e continuo deixando,  a caixa do filme em cima da TV.   Justamente a caixa deste filme caiu na hora que eu o estava vendo.  Fique pensando se não foi um sinal da Hilde dizendo:  "eu estou aqui, junto contigo,  revivendo nossa estada em Havana..."
O mais estranho é que o fato se repetiu....  A mesma coisa aconteceu quando eu estava vendo um outro filme, sobre Havana,  na época em que lá estivemos.
Nunca aconteceu com outros filmes.

Um fato real que me vem na memória como se fosse hoje, é que viajamos de México para Havana junto com um coronel cubano.  Os aviões eram pequenos e demorados  ( ainda não havia entrado a era dos jatos ). Ficamos conversando com este coronel, que bebeu um pouquinho demais....  e soltou a língua.
Nos contou que ele tinha participado da defesa do Palácio de Fulgêncio Batista e junto com outros, com bravura tinham rechaçado os rebeldes...   No filme aparece esta cena.... do fracassado atentado.

Depois de Havana só então fomos para Miami, onde comprei um carro, um Studedaker, que paguei 500 dólares....  Com ele saímos de Miami em direção a Washington DC, como se fossemos dois veteranos.
Levamos mapas e algumas instruções recebidas. Mas nossa maior bagagem era a coragem e disposição.  Hilde sempre foi, em todas nossas viagens,  a navegadora. Ela comandava os mapas e lia os avisos da estrada...   Eu guiava e seguia suas determinações.  Uma combinação perfeita.  Nunca tivemos nem um só incidente, nem mesmo uma travada violenta.  E isto que éramos bem burrinhos...
Nos primeiros dias de viagem Hilde ficou meia tonta,  pois haviam tantos avisos na estrada somados a propagandas grandes e lindas, que Hilde queria ler tudo...   Era demais.  Só depois com o tempo ela passou a selecionar e só ler os avisos da estrada, que tinham cor e formato diferente.

Tudo foi aprendizado. Acredito que ninguém aqui de Uruguaiana tivesse até então guiado um automóvel nos EUA, principalmente viajando assim, sozinhos.   Ainda em Miami, andando em uma avenida larga com três ou quatro pistas,  de repente passou por mim um policial em uma imensa motocicleta com um auto falante.  Sem me olhar,  ao passar me disse:  "Siga sua linha...."    Não sei se isto ele repetia para todos...  Ou eu andava  “ziguezagueando"  de uma pista para outra.....   De qualquer maneira, aí eu aprendi que se deve seguir sempre em uma pista  ( linha ).  Para mudar, é necessário dar sinal e obser-
var os outros que estão na linha onde eu quero entrar...   Isto é elementar hoje em dia para qualquer um.
Porém, naquela época, não haviam avenidas com mais de uma pista no Brasil....   Foi um aprendizado importante.

Depois de Washington D.C. fomos para assistir o Greater New York Dental Meeting em New York, 1955.  Quando entrávamos em Manhatan pela ponte George Washington, Hilde e eu conscientizamos de que estávamos, só nos os dois, guiando um automóvel e entrando em New York...  Foi um momento que marcou.
Um detalhe importante da história deste Congresso é que 20 anos depois por convite, apresentei minha pesquisa nos Yanomamis no Greater New York Dental Meeting. New York, 1975.
Para ver detalhes desta viagem 20 anos depois clique aqui

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