MANUAL 
PARA ESTUDOS 
CRANIOMÉTRICOS E CRANIOSCÓPICOS

Cléber Bidegain Pereira  (*)
Prof. Marília Carvalho de Mello e Alvin. (**)

 

(*) - Cirurgião Dentista pela Universidade Federal de Pelotas / RS -  Especialista em Ortodontia pelo CFO.
(**) Antropóloga do Museu Nacional - Dep. de Antropologia - Setor de Antropologia

Biológica. Universidade Federal do Rio de Janeiro.
 

PREFÁCIO

Saltearam-me espanto a alegria por se terem lembrado, dois legítimos representantes da Antropologia, de oferecer seu valioso trabalho à apreciação de um quase nonagenário, supervivente mais que superado, segundo a nomenclatura tão viva dos jovens de agora. Ao espanto, junta-se a alegria de um velho amante da Ciência do Homem, ao ver que ela continua encontrando valiosos cultores, na nossa mocidade.
O autor revelou-se-me agora, nesse magnífico trabalho. A coautora, conhecia-a por ter integrado a comissão examinadora de dois concursos - um, para Naturalista Auxiliar do Museu Nacional; outro, para a Livre Docência de Antropologia da Faculdade de Filosofia do Estado do Rio de Janeiro. Foram dois dos mais belos concursos que tive a oportunidade de julgar, na minha longa existência.
Penso que as credenciais do autor a da autora dispensariam bem qualquer apresentação. Uso, porém, do ensejo, para abordar algumas considerações em torno deste livro, vício de velho a empedernido Professor que, hoje, para obter algum contato com os livros, precisa socorrer-se dos olhos, alheios.
Ao leitor menos familiarizado com a literatura antropológica poderá parecer excessivo o número, por exemplo, de medidas lineares enumeradas, neste volume. Essa superabundância de medidas tem servido de base aos críticos que chegaram, como Boyd, a considerar a Antropometria como ciência de museu. Embora muitas desnecessárias, não podem, contudo, dado o fato de se encontrarem dispersas e usadas por diferentes autores, deixar de constar de um Manual de consulta. Passa o mesmo com os índices, muitos dos quais teriam valor sob o ponto de vista de interpretação de um fato biológico.
Aos críticos da Antropometria respondi, quando Professor na Universidade de Asunción, opondo à Antropometria amadorística, que mede pelo prazer de medir a por isso multiplica as medidas inutilmente, a Antropologia realmente necessária, indispensável à objetivação de fatos morfológicos e à comparação entre eles.
A distinção continua válida, pois já apareceu um fantasista que entendeu deduzir todas as medidas do corpo humano da do perímetro da mão. ou um outro que pensou estabelecer o índice de robustez, pela simples medida do  perímetro do braço a mais nada.
Este Manual preenche uma lacuna em nossa literatura antropológica, pois nada sei de melhor e mais completo, no  assunto.  Considero-o um sólido ponto de partida. Cabe à experimentação, à pesquisa sistemática, determinar o valor relativo dos diferentes índices preconizados.
Exemplo vivo é o chamado índice Cefálico Horizontal,  relação entre o diâmetro máximo transverso e o diâmetro  máximo horizontal da abóbada craniana. Esse índice gozou de imerecido prestígio e foi largamente usado na Antropologia  tradicional.
No curso do desenvolvimento, a abóbada craniana se  amolda sobre o cérebro, a cujo fator de expansão obedece. O  cérebro, por sua vez, contém cavidades ou ventrículos, cheias  de um líquido céfalo-raquídeo que, em caros de retenção, as  distende. Assim, o cérebro ampliado condiciona por sua vez a expansão da cápsula craniana. Esta, ao expandir-se, fá-lo livremente em todas as direções, tendendo à esfericidade e,  por conseqüência, à modificação da relação comprimento-largura.
 Prova concludente da importância que tem uma boa apreciação, morfológica e funcional, na seleção dos índices  que devem exprimi-la metricamente está nos de hidrocefalia infantil. Nesses, a pressão do líquido céfalo-raquidiano condiciona a expansão do cérebro. Esta, por sua vez, a da cápsula craniana a esta, presa à base por condições mecânicas que a tornam mais estável, menos influenciável, faz com que a abóbada tenda a se arredondar, expandindo-se livremente em todos os sentidos. Modifica-se, assim, por conseqüência, a relação comprimento-largura. Por isso mesmo, em trabalho publicado na Revista de Antropologia, editada em São Paulo, por Egon Schaden, tive a oportunidade de sugerir a substituição dos diâmetros máximos da cápsula craniana para o índice e fazendo-se de preferência o mais próximo possível da base. Se não me foi possível pôr à prova a idéia, tive entretanto a grata surpresa de ver que um ilustre odontólogo paulista, Flávio Ferreira Vellini, acolhendo-a, submeteu-a à comprovação experimental em uma larga série de observações comparativas entre o índice tradicional e aquele por mim proposto, tendo chegado à conclusão de que a minha sugestão representava uma idéia justa. Não foi sem emoção que lhe recebi a visita, com o oferecimento de sua magnífica tese de doutoramento, aprovada com distinção e grande louvor, corporificando, assim, o seu exaustivo a magnífico trabalho de experimentação a de pesquisa.
Penso que a seleção dos índices utilizáveis oferece, com a crítica que exige, amplo campo de trabalho para os jovens antropologistas de agora.
Quando, em busca de melhor base para meus conhecimentos e estudos de Anatomia, procurei encontrá-los na Antropologia, nela senti, nos meus primeiros passos, uma como que revelação. Nela senti, no conhecimento justo do Homem, a chave, o antídoto para os preconceitos, etnocentrismos e racismos. Por isso mesmo, pareceu-me necessário que o estudo básico da Antropologia fosse incluído nos currículos do ensino médio a superior.
Só com a realização do conhecimento justo da natureza humana seria possível enquadrar-se o homem na Lei de Harmonia Universal preconizada pelo biólogo suíço Raoul Francé.
Infelizmente, nem sempre a boa semente encontra terreno propício. Poder-se-ia dizer o mesmo dessa chave genial de Zamenoff, a que se chamou Esperanto.
Vejo, no Manual para Estudos Craniométricos a Cranioscópicos, uma longa a promissora jornada. Faço votos para que nela perseverem os autores, aos quais auguro o melhor êxito, esperando que continuem seu culto à Antropologia, que reputo uma das forças espirituais bem capazes de, se não impedir, pelo menos retardar a destruição do mundo pelo homem.
 

Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1978.
 

A. Froes da Fonseca

 Manual de Craniometria completo gratuito