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MANUAL
PARA ESTUDOS CRANIOMÉTRICOS E CRANIOSCÓPICOS Cléber Bidegain Pereira (*)
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PREFÁCIO
Saltearam-me espanto a alegria por se terem lembrado,
dois legítimos representantes da Antropologia, de oferecer seu valioso
trabalho à apreciação de um quase nonagenário,
supervivente mais que superado, segundo a nomenclatura tão viva
dos jovens de agora. Ao espanto, junta-se a alegria de um velho amante
da Ciência do Homem, ao ver que ela continua encontrando valiosos
cultores, na nossa mocidade.
O autor revelou-se-me agora, nesse magnífico trabalho.
A coautora, conhecia-a por ter integrado a comissão examinadora
de dois concursos - um, para Naturalista Auxiliar do Museu Nacional; outro,
para a Livre Docência de Antropologia da Faculdade de Filosofia do
Estado do Rio de Janeiro. Foram dois dos mais belos concursos que tive
a oportunidade de julgar, na minha longa existência.
Penso que as credenciais do autor a da autora dispensariam
bem qualquer apresentação. Uso, porém, do ensejo,
para abordar algumas considerações em torno deste livro,
vício de velho a empedernido Professor que, hoje, para obter algum
contato com os livros, precisa socorrer-se dos olhos, alheios.
Ao leitor menos familiarizado com a literatura antropológica
poderá parecer excessivo o número, por exemplo, de medidas
lineares enumeradas, neste volume. Essa superabundância de medidas
tem servido de base aos críticos que chegaram, como Boyd, a considerar
a Antropometria como ciência de museu. Embora muitas desnecessárias,
não podem, contudo, dado o fato de se encontrarem dispersas e usadas
por diferentes autores, deixar de constar de um Manual de consulta. Passa
o mesmo com os índices, muitos dos quais teriam valor sob o ponto
de vista de interpretação de um fato biológico.
Aos críticos da Antropometria respondi, quando
Professor na Universidade de Asunción, opondo à Antropometria
amadorística, que mede pelo prazer de medir a por isso multiplica
as medidas inutilmente, a Antropologia realmente necessária, indispensável
à objetivação de fatos morfológicos e à
comparação entre eles.
A distinção continua válida, pois
já apareceu um fantasista que entendeu deduzir todas as medidas
do corpo humano da do perímetro da mão. ou um outro que pensou
estabelecer o índice de robustez, pela simples medida do perímetro
do braço a mais nada.
Este Manual preenche uma lacuna em nossa literatura
antropológica, pois nada sei de melhor e mais completo, no
assunto. Considero-o um sólido ponto de partida. Cabe
à experimentação, à pesquisa sistemática,
determinar o valor relativo dos diferentes índices preconizados.
Exemplo vivo é o chamado índice Cefálico
Horizontal, relação entre o diâmetro máximo
transverso e o diâmetro máximo horizontal da abóbada
craniana. Esse índice gozou de imerecido prestígio e foi
largamente usado na Antropologia tradicional.
No curso do desenvolvimento, a abóbada craniana
se amolda sobre o cérebro, a cujo fator de expansão
obedece. O cérebro, por sua vez, contém cavidades ou
ventrículos, cheias de um líquido céfalo-raquídeo
que, em caros de retenção, as distende. Assim, o cérebro
ampliado condiciona por sua vez a expansão da cápsula craniana.
Esta, ao expandir-se, fá-lo livremente em todas as direções,
tendendo à esfericidade e, por conseqüência, à
modificação da relação comprimento-largura.
Prova concludente da importância que tem
uma boa apreciação, morfológica e funcional, na seleção
dos índices que devem exprimi-la metricamente está
nos de hidrocefalia infantil. Nesses, a pressão do líquido
céfalo-raquidiano condiciona a expansão do cérebro.
Esta, por sua vez, a da cápsula craniana a esta, presa à
base por condições mecânicas que a tornam mais estável,
menos influenciável, faz com que a abóbada tenda a se arredondar,
expandindo-se livremente em todos os sentidos. Modifica-se, assim, por
conseqüência, a relação comprimento-largura. Por
isso mesmo, em trabalho publicado na Revista de Antropologia, editada em
São Paulo, por Egon Schaden, tive a oportunidade de sugerir a substituição
dos diâmetros máximos da cápsula craniana para o índice
e fazendo-se de preferência o mais próximo possível
da base. Se não me foi possível pôr à prova
a idéia, tive entretanto a grata surpresa de ver que um ilustre
odontólogo paulista, Flávio Ferreira Vellini, acolhendo-a,
submeteu-a à comprovação experimental em uma larga
série de observações comparativas entre o índice
tradicional e aquele por mim proposto, tendo chegado à conclusão
de que a minha sugestão representava uma idéia justa. Não
foi sem emoção que lhe recebi a visita, com o oferecimento
de sua magnífica tese de doutoramento, aprovada com distinção
e grande louvor, corporificando, assim, o seu exaustivo a magnífico
trabalho de experimentação a de pesquisa.
Penso que a seleção dos índices
utilizáveis oferece, com a crítica que exige, amplo campo
de trabalho para os jovens antropologistas de agora.
Quando, em busca de melhor base para meus conhecimentos
e estudos de Anatomia, procurei encontrá-los na Antropologia, nela
senti, nos meus primeiros passos, uma como que revelação.
Nela senti, no conhecimento justo do Homem, a chave, o antídoto
para os preconceitos, etnocentrismos e racismos. Por isso mesmo, pareceu-me
necessário que o estudo básico da Antropologia fosse incluído
nos currículos do ensino médio a superior.
Só com a realização do conhecimento
justo da natureza humana seria possível enquadrar-se o homem na
Lei de Harmonia Universal preconizada pelo biólogo suíço
Raoul Francé.
Infelizmente, nem sempre a boa semente encontra terreno
propício. Poder-se-ia dizer o mesmo dessa chave genial de Zamenoff,
a que se chamou Esperanto.
Vejo, no Manual para Estudos Craniométricos a
Cranioscópicos, uma longa a promissora jornada. Faço votos
para que nela perseverem os autores, aos quais auguro o melhor êxito,
esperando que continuem seu culto à Antropologia, que reputo uma
das forças espirituais bem capazes de, se não impedir, pelo
menos retardar a destruição do mundo pelo homem.
Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1978.
A. Froes da Fonseca