TRANSCRITO DE ORTODONTIA GAÚCHA - PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA DA SOCIEDADE GAÚCHA DE ORTODONTIA - Volume I, Número 2, Maio/Dezembro 1997
 
Comportamento do periodonto de sustentação de primatas  jovens (Cebus apella),submetidos a disjunção palatal *

Comportamento do periodonto de sustentação
de primatas  jovens (Cebus apella),submetidos a disjunção palatal *

Anchorage periodontal behavior of the young monkey
(Cebus apella), submited to maxillary expansion
 

RESUMO

Os autores avaliaram em três primatas Ceus apella as alterações radiográficas e histológicas ocorridas no periodonto de sustentação dos dentes de ancoragem, quando submetidos, a disjunção palatal. Um animal foi sacrificado e estudado após um período de 10 dias de disjunção, outro aos 240 dias em contenção pos disjunção e o terceiro serviu como controle. O exame histológico do animal sacrificado após a disjunção mostrou um estreitamento do espaço periodontal, em cervical, no lado de pressão, com predomínio de absorção óssea frontal. Nas superfícies radiculares houve extensas, porem superficiais absorções nas faces vestibulares, principalmente nos prémolares. Na região cervical, do lado palatino, foi observado um espessamento do ligamento periodontal, com estiramento das fibras colagenas e proliferação celular. No animal sacrificado aos 240 dias de contenção as fibras principais do ligamento estavam desorganizadas e com pouca evidencia de reinserção nas áreas radiculares absorvidas. Todos os dentes de ancoragem exibiram absorções radiculares mais extensas do que as do animal pos- disjunção. Essas lesões foram reparadas, principalmente, por cemento celular, porém de modo incompleto, não restabelecendo o contorno radicular. Ambos os animais exibiram hiperplasias gengivais em vestibular e absorções horizontais das cristas ósseas. O exame da extensão e profundidade das lesões radiculares indicou que o processo de absorção e reparo é mais extensivo do que invasivo, não sendo uma contra-indicação para seu uso clinico.


UNITERMOS

Ortodontia corretiva, Periodonto, Movimentação dentária.


SUMMARY

The authors purpose was to evaluate in three C'ebus apella monkey the radiographic and histological changes in the periodontium of the anchorage teeth, following midpalatal suture expansion. One animal was sacrified and studied after maxillary expansion (11 days); the second, after 240 days retention period and third was used as control. The histological investigation in the animal sacrified after expansion presented, in cervical, a narrowing periodontal width, in the pressure side with surface bone resorption. Extensive but superficial root resorption was found on vestibular surface, mainly in the premolars. The cervical area in the palatine side exhibited an appreciable thickness of the periodontal ligament, with colagenous fibers stretched and cellular proliferatioll. In the sacrificd animal after 240 days of retention, the fibers of the ligament were desorganized  and few evidence of reinsertion on the reabsorbed root area. All anchorage teeth exhibited root resorption more extensive than the post expansion animal. Those lesions were repared mainly by cellular cement in incomplete way, but no re-establishing the root outline. Both animals shown gengival hiperplasia in thc buccal area and horizontal resorption in the bone crest. The extension and depth of root lesion indicated that the resorption process and repare was more extensive than invasive, in so far do not contradict clinical use.


UNITERMS

Orthodontics corrective, Periodontium, Tooth movement. 


INTRODUÇÃO

Desde o primeiro artigo sobre disjunção palatal, publicado por Angell 1,2 em 1860, a literature ortodontica e rinológica tem discutido a utilização desta técnica como recurso de expansão para o aumento transverso do arco dentário e da cavidade nasal.
A disjunção palatal ocupa um espaço único como parte das terapias dento-faciais, por utilizar os dentes como ancoragem com o propósito de corrigir deficiencias ósseas basais transversas e antero-posteriores, através da abertura da sutura palatina mediana e desarticulação das demais sutures da face, contrastando com o tratamento ortodôntico convencional, em que os dentes são movimentados através do osso 5. Assim, além de propiciar espaços pare a movimentação dentaria47, a disjunção palatal também esta indicada no tratamento das discrepâncias transversas reais ou relativas, uni ou bilaterais dos ossos maxilares, 12, 14, 16.  44 e 50 casos de maloclusão de classe III de Angle ou pseudo classe III, 6 44 lábio fissurado, fenda palatina e insuficiência respiratória acentuada 12, 13, 14, 15, 32, 39, 44, 47.
Os aparelhos de disjunção são geralmente cimentados aos primeiros prémolares e primeiros molares. Recomenda-se que a quantidade de ativação do parafuso seja de aproximadamente 0,25 a 0,50 mm por dia. Além de um leve desconforto temporário, Haas 12, 13  não encontrou efeitos colaterais esqueletais ou dentários. Entretanto, Timms e Moss 45 reportaram cases tratados por disjunção palatal em que se verificaram absorções radiculares nos dentes de suporte.
Essa técnica envolve forças pesadas, que não são dissipadas imediatamente, podendo chegar a 5kg por ativação 17, 18.  A maior parte dessas forças se mantém ativa por longo tempo sobre os dentes de ancoragem e seus tecidos de suporte, inclusive durante o período de contencao 51.
Preocupado com as expansões indiscriminadas dos arcos dentários, incluindo a disjunção palatal, Watson 49 publicou uma note advertindo contra possíveis efeitos deletérios como a deiscência alveolar, as fenestrações e as absorções radiculares.
Existe, portanto, a necessidade de estudar histológica e radiograficamente as reações que ocorrem no periodonto dos dentes de ancoragem da mecânica de disjunção e de conhecer os efeitos das forças ativas e residuais desenvolvidas. Estudos neste sentido são recentes, se comparados ao tempo de aplicação da técnica, tendo sido enfatizados a partir de 1966, com os trabalhos de Starnbach e col. 42 e Rinderer 39.

PROPOSIÇÃO

O objetivo deste trabalho e o de avaliar, em primatas jovens Cebus apella submetidos a disjunção palatal, as alterações radiográfias e histolóicas ocorridas no periodonto de sustentação dos dentes de ancoragem, analisadas nos estágios após a disjunção (10 dias de ativação), em contenção (240 dias após a disjunção) e comparadas a um animal controle.

MATERIAL E MÉTODO

A amostra consistiu de três primatas da espécie Cebus apella do sexo masculino, classificados de acordo com a seqüência de erupção e grau de abrasão dentária, descrita por Chopra 7 como grupo jovem III, apresentando todos os dentes permanentes, estando os caninos e terceiros molares em fase final de erupção. O experimento utilizou um dos animais como controle e dois foram submetidos a disjunção palatal por meio de aparelhos rígidos confeccionados com fios de aço inoxidável O,9 mm e acrílico auto-polimerizavel envolvendo os dentes de ancoragem, dos caninos aos terceiros molares. Tornos expansores, diminuídos em 2mm de cada lado, foram posicionados no centro do aparelho, sendo ativados 2/4 de volta por dia. Durante dez dias (Fig. 1). Os animais experimentais foram submetidos a uma ativação de 4mm do aparelho expansor, com disjunção da sutura palatina mediana de 3mm em sua porção anterior e 1,5mm na porção posterior, sendo um deles sacrificado em seguida, juntamente com o animal controle. O outro animal experimental, submetido a idêntico processo, após a disjunção, permaneceu com o aparelho fixado por 240 dias, em contenção, sendo sacrificado em seguida. Neste período, foram feitas radiografias  oclusais antes da colocação do aparelho, após 10 dias (no termino das ativações) e depois a cada 30 dias.
Após, as arcadas foram removidas para o estudo histológico. As pecas foram divididas em hemi-arcadas, sendo clivadas longitudinalmente (lado direito) e transversalmente (lado esquerdo) para o preparo das laminas (Fig. 2).
 

Figura 1 - Fotografia intra-oral do aparelho disjuntor.



Figura 2 - Diagrama esquemático, indicando os locais de clivagem das peças e as orietações longitudinais para os do lado direito e transversais para os do lado esquerdo.
 

RESULTADO E DISCUSSÃO

Para estudar as reações teciduais provocadas pelas forças de disjunção no periodonto de sustentação dos dentes de ancoragern de primatas da especie Cebus apella' optou-se pela realização do experimento em animais jovens, por ser também essa a faixa etária recomendável para a execução dessa terapia, permitindo que os resultados obtidos possam ser mais bem interpretados em relação ao ser humano.
Apesar do longo tempo em que o aparelho permaneceu na boca do animal em contenção, a mucosa palatal apresentou condições clínicas satisfatórias, mostrando apenas uma suave depressão na área em que o acrílico esteve em contato com os tecidos moles. Essa situação deve-se, provavelmente, ao fato de o acrílico, nesse tipo de aparelho, cobrir quase totalmente o palato e os dentes, impedindo o acumulo de restos alimentares no lado palatino (Fig. 1). Por vestibular, o acrílico cobriu os dentes até a metade das coroas, formando pontos de retenção de alimentos com conseqüente inflamação na gengiva marginal livre. Normalmente, essas hiperplasias teciduais são reversíveis, desaparecendo completamente uma semana após a remoção do aparelho 13, 47.
A força empregada na disjunção palatal, obviamente pesada em comparação com as forças empregadas na expansão lenta,45, 47 necessita uma ativação semanal ao redor de 2,5mm, para que se possa obter uma disjunção maxilar de nível suficientemente alto para que se tenha a certeza de dois efeitos: uma base apical larga o bastante para suportar um arco dental expandido e uma redução da resistência nasal, com aumento da passagem de ar 47. Quando essas forças possuem uma magnitude acima da resistência bioelástica das suturas, geralmente ocorre a separação ortopédica da maxila 8, 17, 18, 43.  Isaacson e cols 17, 18  desenvolveram um sistema de calibragem, com um dinamômetro adaptado a um disjuntor do tipo preconizado por Haas, 12, 13 para avaliar a magnitude e duração das forças geradas e observaram forças de 1.400g a 4.500g em uma simples ativação do aparelho.
No presente estudo, com a abertura da sutura palatina, surgiu um diastema entre os incisivos centrais nos primeiros dias de ativação, que continuou aumentando até a disjunção ser completada. Como os incisivos não estavam incluídos no aparelho, eles retornaram a sua posição original, pela retração das fibras transeptais distendidas. Isto foi consenso entre autores como Barber 5, Haas 12, 13, 14, 15. Krebs 19 Storey,43 Timms 45,47 e Wertz 50 quando afirmaram que os incisivos centrais sempre retomam o contato inicial.
Também foi constatada uma abertura sutural mais ampla na região anterior e mais estreita na região posterior, com o vértice na região dos ossos palatinos, concordando com Assunção 3 , Haas 12,  Souza 41 e Wertz 50. Notamos, porém, que, entre as raízes dos incisivos, na região da prémaxila, a abertura da sutura foi paralela. Essa abertura sutural e a inclinação dos