CARTAS ABERTAS






Senhora Maria Amélia:
Faz um tempão que acompanho suas preciosa informações e estou preocupado com senhora, a quem, no final das contas, agente acaba querendo bem.
Outro dia ouvi a senhora falar: "a  inflação, que totaliza este ano 4 %.... ".  Como amigo venho lhe alertar, a senhora não pode dizer isto, corre o risco de ser incluída, como cúmplice,  nessa cambada de sem vergonhas que, igual a governos passados, vem roubando nosso Fundo de Garantia,  Poupança e tudo o mais, os quais têm como índice de correção estes mentirosos valores, fruto da manipulação maquiavélica da estatística. Vou lhe ensinar, a senhora deve dizer: " Segundo os dados fornecidos pelo governo a inflação é de  .... "   Assim a senhora livra sua pele e nos continuamos a creditar no que diz.
Afetos
Cléber Bidegain Pereira, C.D.
 



 

Prof. Dr. Miguel Nobre
Presidente do CFO

Ouço falar de Previdência Privada como se fosse coisa nova no Brasil. Será que sou só eu que tenho memória ou estou equivocado ?  Segundo minhas lembranças, toda uma geração foi roubada no Brasil. Roubada, esvaziando nossos bolsos e roubada na ilusão de uma aposentadoria compensadora. Tudo parecia absolutamente perfeito. Uma das opções era ter o equivalente ao soldo de Coronel do Exército Nacional.  Outra,  até 20 salários mínimos. Um dia, na calada na noite, desvincularam-se os benefícios do soldo e do salário...
Venho sugerir que encomende uma investigação, para seus assessores econômicos, e apure quanto estão recebendo hoje aqueles que investiram, em Previdência Privada no Brasil, em anos passados. E, assim, procure esclarecer porque dá certo nos países desenvolvidos e não deu certo no Brasil.

Saúde, amor e trabalho

Cléber Bidegain Pereira, C.D.



 
 
 

OLAVO DE CARVALHO

Entrevistando meu vizinho

 Meu vizinho ai da página de trás, que nela desfruta as delicias da liberdade de imprensa como eu as desfruto aqui, e, como ninguém ignora, candidato crônico a Presidência da Republica e corre o sério risco de ser eleito um mal que, se aconteceu até a um professor da USP, pode acontecer a qualquer um de nós.
Em vista dessa eventualidade, pensei se não seria o caso de tirar um sórdido proveito da proximidade quase indecorosa que nos une na mesma folha de papel e lançar-lhe de chofre, através desta tênue barreira de celulose, umas quantas perguntas que, se ele não me responder agora, muito menos respondera depois de eleito.
A primeira é formulada no meu interesse próprio. Prezado sr. Inácio: uma vez presidente, o senhor vai deixar que eu continue escrevendo que o senhor é um comunista, bajulador de regimes genocidas, friamente insensível a sorte de 100 milhões de vitimas imoladas no altar de uma ideologia bem parecida com a sua, ou vou ter de mudar de assunto ?
A segunda, faço-a no interesse geral. O senhor, que é socialista, já disse que nada tem contra o capital estrangeiro. Lenin, que não o era menos, também não tinha. Muito menos tem os atuais governantes da China, que provaram por a + b a compatibilidade de uma sangrenta ditadura comunista com os interesses dos grandes investidores ocidentais e vice-versa. Quando o senhor diz que o regime da China é um exemplo para o Brasil, é disso que o senhor esta falando ?  Se não é, então a que raio de China está se referindo ?  Existe outra ?
Terceira. Quando uns militantes da CUT quiseram atravessar a fronteira pare fazer manifestações políticas ilegais em solo argentino e foram barrados, choveram protestos da esquerda nacional. Agora, quando foram barrados os 10 jornalistas que o acompanhavam a China para o simples desempenho de suas ligadíssimas funções profissionais, tudo o que o senhor fez foi lamentar a falta de cobertura da sua viagem, sem emitir um pio, um gemido, uma "ai" sequer contra o ostensivo cerceamento da liberdade de imprensa. O senhor já pensou no que aconteceria se os repórteres fossem impedidos de entrar, não na China comunista, mas no Chile de Pinochet ? Já imaginou os editoriais coléricos, as lágrimas de indignação, as vigílias cívicas na ABI ? Já imaginou, sobretudo, o que o senhor próprio diria, mesmo levando em conta que proporção entre os crimes de Pinochet e os do regime chinês é de um para
20 mil ?  O senhor não acha mesmo que sua duplicidade de pesos e medidas já está dando na vista ?
Quarta.  Vamos falar um pouco do seu virtual antecessor.  O senhor sabe que o papel dos governantes na história não é assinalado por seus erros ou acertos passageiros, mas pelas mudanças duradouras que imprimem no rumo das coisas.  O senhor sabe que o controle da inflação, que o governo alardeia como sua grande obra, é coisa efêmera como bolha de sabão. Sabe que as privatizações malfeitas ou uma política econômica errada de alto a baixo também são males transitórios, podendo ser corrigidos pelo próximo governo. De tudo o que FH fez, só uma coisa e irreversível: a distribuição de terras e dinheiro ao MST, que esse movimento não vai devolver nunca mais. O senhor sabe perfeitamente que, se o MST não plantar aí um único pé de feijão, mas decidir usar as terras para fins estratégicos totalmente alheios a agricultura, o governo não terá a mínima condição de tomar tudo de volta, pois ele próprio transformou essa entidade, que não tem nem registro legal, num poder territorial, político e econômico incontrolável. O senhor sabe que, pela sua própria estrutura  - nem  sindical, nem partidária, nem paramilitar, nem empresarial, nem  burocrática, mas sim  um pouco de tudo isso ao mesmo tempo ?, esse movimento é rigorosamente indiscernível dos sovietes da Rússia pré-revolucionário. Dar poder a essa coisa, com as
terras dos outros e o dinheiro do governo, foi no fim das contas a realização máxima e essencial do presidente FH. Dito isto, vem a pergunta: o senhor acha  que  poderá  fazer mais  do que ele fez em pról da revolução socialista ? Olhe lá o que vai responder ! Veja bem que nem Lenin teve na sua  folha de  realizações  um  feito  de  tal envergadura,  pois  afinal  já encontrou os sovietes prontos. O senhor tem certeza de que uma gestão socialista "de transição pacífica" depois de FH não será um redundante videoteipe?
São essas as perguntas. Peço que o senhor não as interprete como provocações de um adversário. Não sou seu adversário. Até votei no senhor ? é verdade que após tomar três engoves ? para não ter de votar no Collor. Talvez até vote de novo, nas próximas eleições, dado que seu concorrente principal, José Serra, é um antitabagista fanático que ameaça proibir o fumo até ao ar livre, e eu conto com a sólida aliança de interesses entre o petismo nacional e a industria cubana de tabacos para me garantir  o direito de fumar na cadeia.
Dito isso, encerro esta nossa amável conversa e dirijo-me aos demais leitores, para tranquilizá-los. Não, amigos, não temam pela minha segurança. No Brasil socialista, a cadeia será provavelmente o lugar mais seguro, pois todos os membros do PCC terão sido retirados de lá para ocupar cargos na nomenklatura”, e a população carcerária do país será constituída de apenas duas pessoas: eu e o embaixador Maira Penna.  E o embaixador, coitado, nem sequer fuma.