
AUTORES:
MARQUES, Ariane M.P. **
OLIVEIRA, Antônio G. ***
** Aluna do Curso de Especialização em Ortodontia e Ortopedia Facial da UEMG – Lavras e autora da pesquisa.
*** Professor dos Cursos de Especialização em Ortodontia
e Ortopedia Facial da UEMG – Lavras e UNIFENAS e orientador da pesquisa.
RESUMO
Devido a escassez de pesquisas na literatura sobre a
opinião de indivíduos da raça negra a respeito de
seus próprios perfis, este trabalho se propõe a avaliar o
conceito de estética, em nível de perfil facial mole, de
brasileiros desta raça, do ponto de vista dos ortodontistas, cirurgiões
plásticos e principalmente dos próprios negros.
SUMMARY
Due to research scarcity in literature about Negroes’ opinion regarding to their own profiles, this investigation intends to evaluate the concept of esthetics considering the facial soft tissue profile of Brazilian Negroes, by orthodontists, plastic surgeons and the Negroes themselves.
UNITERMOS
Perfil mole, raça negra, estética.
KEY WORD
Soft tissue, negro race, esthetic.
1. INTRODUÇÃO
A preocupação com a estética é o alvo das atenções de toda a humanidade, e esse interesse pela beleza tem aumentado a cada dia que passa. O homem tem seu conceito de padrão de beleza baseado na cultura recebida e costumes do local onde vive. Os meios de comunicação também influenciam fortemente a população quanto a este fato, taxando como padrão de beleza, o tipo facial de indivíduos da raça branca, que apresentam traços delicados e perfil mais retilíneo, o que é bem diferente das características faciais de indivíduos da raça negra, que apresentam lábios volumosos, nariz curto e achatado e um perfil bem convexo. Porém, será que os próprios negros estão satisfeitos com suas características faciais?
As características faciais de cada raça
são influenciadas pelo tratamento ortodôntico, podendo este,
alterar a estética. É de fundamental importância que
se discuta e leve em consideração os interesses do paciente
quanto ao resultado estético final esperado com o tratamento ortodôntico.
Assim, esta pesquisa se propõe a avaliar o conceito de estética,
em nível de perfil facial mole, de brasileiros desta raça,
do ponto de vista dos ortodontistas, cirurgiões plásticos
e principalmente dos próprios negros.
2. REVISÃO DA LITERATURA
2.1- Cefalometria
Sendo um dos primeiros ortodontistas preocupados em estabelecer
valores cefalométricos representativos para uma determinada população,
DOWNS, em 1956, selecionou 20 adolescentes da raça branca, divididos
igualmente por sexo, com oclusões excelentes, e sugeriu dez medidas
representativas dos padrões dentário e esquelético,
entre estes, o ângulo da convexidade facial (NAP= 0º), para
avaliar o grau de protrusão maxilar; o ângulo do plano
mandibular (21,9º) e o ângulo interincisivos (135,4º)
.
Com a evolução da Ortodontia, foi-se percebendo que não era cabível tentar utilizar as mesmas medidas de indivíduos da raça branca em indivíduos da raça negra. Assim, COTTON, em 1949, selecionou 20 jovens negros, sendo 10 de cada sexo, com faixa etária de 11 a 34 anos, com oclusões aceitáveis. Obteve as medidas cefalométricas, no qual estabeleceu o valor médio para o ângulo de convexidade facial de 9,6° e de 27,25° para o plano mandibular.
Utilizando medidas de 40 traçados cefalométricos de jovens negros, e comparando-as com as medidas já existentes de um estudo realizado na Universidade de Alabama, de 40 indivíduos da raça branca, DRUMMOND, em 1968, objetivou determinar as medidas normais para americanos negros e verificar, se de fato, estas medidas são estatisticamente diferentes daquelas para indivíduos brancos. Concluiu que as diferenças entre as duas raças parecem ser a biprotrusão dentária, plano mandibular aumentado e posicionamento mais anterior da maxila em relação à mandíbula e à base do crânio, na população americana negra.
Devido a escassez de trabalhos cefalométricos concernentes a brasileiros da raça negra, em 1977, SILVA, estudou o comportamento de várias medidas cefalométricas das relações dentárias e esqueléticas do complexo craniofacial e a influência do dimorfismo sexual entre elas. Através de 50 telerradiografias de 25 meninas e 25 meninos, todos brasileiros negros, com oclusão normal, o autor encontrou os seguintes valores cefalométricos: SNA (85,96°), SNB (81,98°), ANB (4°), FMA (30,06°), 1.NA (22,53°), 1.NB (34,21°), 1-NA (4,78mm) e 1-NB (7,82mm). Os resultados mostraram não haver influência do sexo em nenhuma das medidas estudadas.
Como a literatura relata que indivíduos negros possuem características craniofaciais diferentes dos brancos, MEDEIROS, em 1986, se propôs a determinar o padrão cefalométrico dentário para jovens negras brasileiras, bem como verificar a validade da proporção de Holdaway e o dimorfismo sexual para essa raça. O pesquisador concluiu que as jovens negras apresentaram uma protrusão e inclinação vestibular acentuadas dos incisivos, quando comparadas com as medidas preconizadas para os brancos; o método de avaliação proposto por Holdaway não pode ser utilizado em negros; não houve dimorfismo sexual entre os jovens negros masculinos e femininos.
2.2- Tecido Mole
A Ortodontia teve um grande avanço com a aplicação
da cefalometria, sendo ainda muito utilizada nos dias atuais. Porém,
uma maior atenção tem sido dada à estética
facial, em nível de perfil mole, podendo este, camuflar muitas deficiências
esqueléticas e dentoalveolares.
DRUMMOND, em 1968, fez um estudo comparativo entre jovens negros e brancos americanos, no qual salientou que os primeiros apresentam uma língua grande, e os lábios flácidos, permitindo que seus dentes mantenham-se em equilíbrio e harmonia em uma posição protruída. Afirmou, também, que a posição protruída dos dentes e a espessura dos lábios fazem com que o terço inferior da face aparente ser mais cheio. Pelo fato do plano mandibular ter uma inclinação excessiva, o pogônio aparece pouco no contexto facial.
Interessado em propor medidas cefalométricas para indivíduos da raça negra, quanto à linha estética de Ricketts, de Steiner e de Holdaway, e compará-las com as padronizadas para a raça branca, SUSHNER, em 1977, estudou 100 fotografias de perfil de americanos negros divididos igualmente entre mulheres e homens, selecionados por ortodontistas, como tendo os perfis mais agradáveis entre 1000 fotos. Verificou que os negros apresentam um perfil tegumentar mais protrusivo que os brancos, e quanto ao dimorfismo sexual, essa protrusão é maior nos homens que nas mulheres negras. Concluiu que os valores estabelecidos para os brancos, quanto à linha estética de Ricketts, Steiner e Holdaway não são aplicáveis aos negros. Assim, o autor defende que a avaliação de perfis negros deve ser feita sem a imposição dos padrões para brancos.
Com o propósito de avaliar a capacidade de percepção das pessoas quanto aos seus próprios perfis, HERSON & GIDDON, em 1980, usaram um simples instrumento de simulação de perfis através do qual, 42 pacientes tratados e 42 não tratados ortodonticamente indicaram como eles se acham em relação a seus próprios perfis e como eles gostariam que fossem. Esses autores verificaram que a grande variação entre o verdadeiro perfil e o que cada paciente acredita ter, demonstra o desejo destes em alterar seus perfis. Além disso, os resultados demonstraram um menosprezo dos pacientes à protrusão labial.
Em 1989, O’REILLY, estudou as alterações ocorridas no tecido tegumentar, após cirurgia ortognática para redução da biprotrusão maxilar, em 14 negros americanos. A pesquisadora defendeu a indicação de tal procedimento em casos severos, uma vez que anormalidades dessa natureza, podem comprometer o indivíduo social e psicologicamente.
Preocupados em descobrir a opinião dos americanos negros em relação aos seus próprios perfis, FARROW et al., em 1993, alteraram, através do computador, os perfis de quinze pacientes negros americanos de ambos os sexos, colocando-os com perfis retos, ligeiramente biprotrusos, biprotrusos e acentuadamente biprotrusos. Assim, os pacientes, bem como grupos de ortodontistas, clínicos gerais e pessoas leigas avaliaram e classificaram os perfis segundo o seu padrão de beleza. Os pesquisadores constataram que os americanos negros preferem um perfil mais retilíneo que o considerado normal para sua raça, porém não necessariamente um perfil característicos para os brancos.
DIELS et al. utilizaram, em 1995, radiografias cefalométricas de 60 jovens negros americanos, sendo 30 de cada sexo, que se submeteram a tratamento ortodôntico com extração de quatro pré-molares, para correção da biprotrusão maxilar. Verificaram, através de sobreposição dos traçados cefalométricos pré e pós-tratamento, que houve um aumento significante no ângulo nasolabial em ambos os sexos, e que a protuberância dos lábios superior e inferior diminuiu. Concluíram que a opção de se extrair os pré-molares é bem indicada para melhorar o perfil facial em indivíduos negros com protuberância labial, decorrente da biprotrusão maxilar.
Visando estabelecer a preferência estética
de ortodontistas, artistas plásticos e leigos, para cada raça
brasileira, quanto ao contorno do perfil facial mole, OKUYAMA & MARTINS,
em 1997, selecionaram 180 fotografias pertencentes a 60 jovens de cada
raça (negra, branca e amarela), 30 de cada sexo, as quais foram
classificadas em bom, regular ou deficiente por 27 avaliadores, divididos
em três categorias: leigos, artistas plásticos e ortodontistas.
A pesquisadora fez as medições de tecido mole dos 21 perfis
classificados como bom, para cada raça, e constatou que os avaliadores
da raça negra selecionaram os perfis de sua raça que mais
se aproximaram dos perfis dos brancos. Além disso, verificou que
os perfis preferidos pelos 27 avaliadores apresentaram uma suave convexidade
facial para todas as raças e maior convexidade e maior protrusão
labial para os brasileiros da raça negra.
4. MATERIAIS E MÉTODOS
4.1 Materiais
A amostra consta de um questionário visual que
consiste de seis séries de perfis, sendo três para o sexo
masculino e três para o sexo feminino. Cada série é
composta de sete perfis, sendo a página 1 com perfis para o sexo
masculino e a página 2, com perfis para o sexo feminino. Porém,
os perfis desenhados são os mesmos para ambos os sexos.
Participaram 150 avaliadores, que foram divididos em categorias:
50 ortodontistas, 50 cirurgiões plásticos e 50 leigos da
raça negra. O grupo de leigos negros foi composta por pessoas com
nível de escolaridade de segundo e terceiro grau.
4.2 Métodos
4.2.1 Construção dos perfis
Tomando-se como referência um perfil do trabalho
de mestrado de MEDEIROS23 (1986), foi utilizado o traçado cefalométrico
do perfil de uma mulher jovem brasileira da raça negra, portadora
de “oclusão normal” e que nunca se submeteu a tratamento ortodôntico
(FIG. 1).
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Baseado neste perfil, foram feitas variações gradativas no tamanho dos lábios e aumento no tamanho do nariz e mento.
Essas alterações nos perfis foram executadas com a ajuda da computação, pelo programa Corel Draw, após a captura da imagem, pelo Scanner do traçado do perfil mole acima citado.
A primeira série de perfis, no exame visual, apresenta lábios que foram protruídos ou retruídos em 2mm, gradativamente, em relação ao perfil de referência. Assim, foram produzidos três perfis com retrusão labial e três perfis com protrusão labial, totalizando 12mm de alteração entre o perfil mais retruído (nº.1 com -6mm) e o perfil mais protruído (nº.7 com + 6mm), conforme pode ser visto na FIG. 2.
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A segunda série de perfis (FIG. 3), utilizou os
mesmos perfis da primeira série, porém aumentando o tamanho
do nariz, no sentido sagital, em todos os sete perfis em 6mm.
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A terceira série de perfis também
utilizou os mesmos perfis da primeira série, aumentando todos
os mentos em 6mm
(FIG. 4).
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Os perfis foram reduzidos para 30% em relação
ao tamanho normal da face.
4.2.2 Obtenção dos dados
O questionário foi reproduzido aos avaliadores,
junto com uma carta explicativa solicitando-os que enumerassem todos perfis
de cada série, tanto para o sexo masculino (página 1) quanto
para o sexo feminino (página 2), em ordem de preferência:
número um para o melhor perfil até número sete para
o pior perfil. Ainda foi solicitado aos avaliadores que demarcassem, com
um círculo, o melhor perfil entre os três de cada página
selecionados como número um.
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4.2.3 Registro dos dados obtidos
Foram construídos seis quadros para anotação das respostas, sendo três para registrar as respostas para os perfis masculinos e os outros três, para os perfis femininos, de cada grupo de avaliadores. Cada quadrado localizado abaixo de cada perfil, da primeira série de perfis da primeira página, que se refere a perfis masculinos, foi classificado em A1, A2, A3, A4, A5, A6, A7, respectivamente aos quadrados de resposta, da esquerda para direita (FIG. 5). Isto foi feito para facilitar o registro e a contagem das respostas e identificar cada tipo de perfil. A segunda série de perfis da primeira página foi classificada em B1 até B7. A terceira série de perfis da mesma página teve a letra C como referência. Seguindo esse critério, a página 2, correspondente a perfis femininos, teve as letras D, E, F para se referir às primeiras, segundas e terceiras séries de perfis, respectivamente.
| HOMENS &nbs |