Avaliação do padrão de estética facial para brasileiros da raça negra, segundo o ponto de vista dos ortodontistas, cirurgiões plásticos e dos próprios leigos da raça negra*

Avaliation of the facial profile pattern for Brasilian negroes, by oppinion of Orthodontists, Plastic Surgeons and the negroes themselves.*
 

    AUTORES:
    MARQUES, Ariane M.P. **
    OLIVEIRA, Antônio G. ***
 



* Resumo da monografia apresentada ao Curso de Especialização em Ortodontia e Ortopedia Facial da UEMG, unidade de Lavras.

** Aluna do Curso de Especialização em Ortodontia e Ortopedia Facial da UEMG – Lavras e autora da pesquisa.

*** Professor dos Cursos de Especialização em Ortodontia e Ortopedia  Facial da UEMG – Lavras e UNIFENAS e orientador da pesquisa.


RESUMO
Devido a escassez de pesquisas na literatura sobre a opinião de indivíduos da raça negra a respeito de seus próprios perfis, este trabalho se propõe a avaliar o conceito de estética, em nível de perfil facial mole, de brasileiros desta raça, do ponto de vista dos ortodontistas, cirurgiões plásticos e principalmente dos próprios negros.

SUMMARY

Due to research scarcity in literature about Negroes’ opinion regarding to their own profiles, this investigation intends to evaluate the concept of esthetics considering the facial soft tissue profile of Brazilian Negroes, by orthodontists, plastic surgeons and the Negroes themselves.

UNITERMOS
Perfil mole, raça negra, estética.

KEY WORD
Soft tissue, negro race, esthetic.


1. INTRODUÇÃO

A preocupação com a estética é o alvo das atenções de toda a humanidade, e esse interesse pela beleza tem aumentado a cada dia que passa. O homem tem seu conceito de padrão de beleza baseado na cultura recebida e costumes do local onde vive. Os meios de comunicação também  influenciam  fortemente a população quanto a este fato, taxando como padrão de beleza, o tipo facial de indivíduos da raça branca, que apresentam traços delicados e perfil mais retilíneo, o que é bem diferente das características faciais de indivíduos da raça negra, que apresentam lábios volumosos, nariz curto e achatado e um perfil bem convexo. Porém, será que os próprios negros estão satisfeitos com suas características faciais?

As características faciais de cada raça são influenciadas pelo tratamento ortodôntico, podendo este, alterar a estética. É de fundamental importância que se discuta e leve em consideração os interesses do paciente quanto ao resultado estético final esperado com o tratamento ortodôntico. Assim, esta pesquisa se propõe a avaliar o conceito de estética, em nível de perfil facial mole, de brasileiros desta raça, do ponto de vista dos ortodontistas, cirurgiões plásticos e principalmente dos próprios negros.
 

2. REVISÃO DA LITERATURA

2.1- Cefalometria
Sendo um dos primeiros ortodontistas preocupados em estabelecer valores cefalométricos representativos para uma determinada população, DOWNS, em 1956, selecionou 20 adolescentes da raça branca, divididos igualmente por sexo, com oclusões excelentes, e sugeriu dez medidas representativas dos padrões dentário e esquelético, entre estes, o ângulo da convexidade facial (NAP= 0º), para avaliar o grau de protrusão maxilar;  o ângulo do plano mandibular (21,9º) e o ângulo interincisivos  (135,4º) .

Com a evolução da Ortodontia, foi-se percebendo que não era cabível tentar utilizar as mesmas medidas de indivíduos da raça branca em indivíduos da raça negra. Assim, COTTON, em 1949,  selecionou 20 jovens negros, sendo 10 de cada sexo, com faixa etária de 11 a 34 anos, com oclusões aceitáveis. Obteve as medidas cefalométricas, no qual estabeleceu o valor médio para o ângulo de convexidade facial de 9,6° e de  27,25° para o plano mandibular.

Utilizando medidas de 40 traçados cefalométricos de jovens negros, e comparando-as com as medidas já existentes de um estudo realizado na Universidade de Alabama, de 40 indivíduos da raça branca, DRUMMOND, em 1968, objetivou determinar as medidas normais para americanos negros e  verificar, se de fato, estas medidas são estatisticamente diferentes daquelas para indivíduos brancos. Concluiu que as diferenças entre as duas raças parecem ser a biprotrusão dentária, plano mandibular aumentado e posicionamento  mais anterior da maxila em relação à mandíbula  e à base do crânio, na população americana negra.

Devido a escassez de trabalhos cefalométricos concernentes a brasileiros da raça negra, em 1977, SILVA, estudou o comportamento de várias medidas cefalométricas das relações dentárias e esqueléticas do complexo craniofacial e a influência do dimorfismo sexual entre elas. Através de  50 telerradiografias de 25 meninas e 25 meninos, todos brasileiros negros, com oclusão normal, o autor encontrou os seguintes valores cefalométricos: SNA (85,96°), SNB (81,98°), ANB (4°), FMA (30,06°), 1.NA (22,53°), 1.NB (34,21°), 1-NA (4,78mm) e 1-NB (7,82mm). Os resultados mostraram não haver influência do sexo em nenhuma das medidas estudadas.

 Como a literatura relata que indivíduos negros possuem características craniofaciais diferentes dos brancos, MEDEIROS, em 1986, se propôs a determinar o padrão cefalométrico dentário para jovens negras brasileiras, bem como verificar a validade da proporção de Holdaway e o dimorfismo sexual para essa raça. O pesquisador concluiu que as jovens negras apresentaram uma protrusão e inclinação vestibular acentuadas dos incisivos, quando comparadas com as medidas preconizadas para os brancos; o método de avaliação proposto por Holdaway não pode ser utilizado em negros; não houve dimorfismo sexual entre os jovens negros masculinos e femininos.

2.2- Tecido Mole
A Ortodontia teve um grande avanço com a aplicação da cefalometria, sendo ainda muito utilizada nos dias atuais. Porém, uma maior atenção tem sido dada à estética facial, em nível de perfil mole, podendo este, camuflar muitas deficiências esqueléticas e dentoalveolares.

DRUMMOND, em 1968, fez um estudo comparativo entre jovens negros e brancos americanos, no qual salientou que os primeiros apresentam uma língua grande, e os lábios flácidos, permitindo que seus dentes mantenham-se em equilíbrio e harmonia em uma posição protruída. Afirmou, também, que a posição protruída dos dentes e a espessura dos lábios fazem com que o terço inferior da face aparente ser mais cheio. Pelo fato do plano mandibular ter uma inclinação excessiva, o pogônio aparece pouco no contexto facial.

Interessado em propor medidas cefalométricas para indivíduos da raça negra, quanto à linha estética de Ricketts, de Steiner e de Holdaway, e compará-las com as padronizadas para a raça branca, SUSHNER, em 1977, estudou 100 fotografias de perfil de americanos negros divididos igualmente entre mulheres e homens, selecionados por ortodontistas, como tendo os perfis mais agradáveis  entre 1000 fotos. Verificou que os negros apresentam um perfil tegumentar mais protrusivo que os brancos, e quanto ao dimorfismo sexual, essa protrusão é maior nos homens que nas mulheres negras. Concluiu que os valores estabelecidos para os brancos, quanto à linha estética de Ricketts, Steiner e Holdaway não são aplicáveis aos negros. Assim, o autor defende que a avaliação de perfis negros deve ser feita sem a imposição dos padrões para brancos.

Com o propósito de avaliar a capacidade de percepção das pessoas quanto aos seus próprios perfis, HERSON & GIDDON, em 1980, usaram um simples instrumento de simulação de perfis através do qual, 42 pacientes tratados e 42 não tratados ortodonticamente indicaram como eles se acham em relação a seus próprios perfis e como eles gostariam que fossem. Esses autores verificaram que a grande variação entre o verdadeiro perfil e o que cada paciente acredita ter, demonstra o desejo destes em alterar seus perfis. Além disso, os resultados demonstraram um menosprezo dos pacientes à protrusão labial.

Em 1989, O’REILLY, estudou as alterações ocorridas no tecido  tegumentar, após cirurgia ortognática para redução da biprotrusão maxilar, em 14 negros americanos. A pesquisadora defendeu a indicação de tal procedimento em casos severos, uma vez que anormalidades dessa natureza, podem comprometer o indivíduo social e psicologicamente.

Preocupados em descobrir a opinião dos americanos negros em relação aos seus próprios perfis, FARROW et al., em 1993, alteraram, através do computador, os perfis de quinze pacientes negros americanos de ambos os sexos, colocando-os com perfis retos, ligeiramente biprotrusos, biprotrusos e acentuadamente biprotrusos. Assim, os pacientes, bem como grupos de ortodontistas, clínicos gerais e pessoas leigas avaliaram e classificaram os perfis segundo o seu padrão de beleza. Os pesquisadores constataram que os americanos negros preferem um perfil mais retilíneo que o considerado normal para sua raça, porém não necessariamente um perfil característicos para os brancos.

DIELS et al. utilizaram, em 1995, radiografias cefalométricas de  60 jovens negros americanos, sendo 30 de cada sexo, que se submeteram a tratamento ortodôntico com extração de quatro pré-molares, para correção da biprotrusão maxilar. Verificaram, através de sobreposição dos traçados cefalométricos pré e pós-tratamento, que houve um aumento significante no ângulo nasolabial  em ambos os sexos, e que a protuberância dos lábios superior e inferior diminuiu. Concluíram que a opção de se extrair os pré-molares é bem indicada para melhorar o perfil facial em indivíduos negros com protuberância labial, decorrente da biprotrusão maxilar.

Visando estabelecer a preferência estética de ortodontistas, artistas plásticos e leigos, para cada raça brasileira, quanto ao contorno do perfil facial mole, OKUYAMA & MARTINS,  em 1997, selecionaram 180 fotografias pertencentes a 60 jovens de cada raça (negra, branca e amarela), 30 de cada sexo, as quais foram classificadas em bom, regular ou deficiente por 27 avaliadores, divididos em três categorias: leigos, artistas plásticos e ortodontistas. A pesquisadora fez as medições de tecido mole dos 21 perfis classificados como bom, para cada raça, e constatou que os avaliadores da raça negra selecionaram os perfis de sua raça que mais se aproximaram dos perfis dos brancos. Além disso, verificou que os perfis preferidos pelos 27 avaliadores apresentaram uma suave convexidade facial para todas as raças e maior convexidade e maior protrusão labial para os brasileiros da raça negra.
 

4. MATERIAIS E MÉTODOS

4.1 Materiais
A amostra consta de um questionário visual que consiste de seis séries de perfis, sendo três para o sexo masculino e três para o sexo feminino. Cada série é composta de sete perfis, sendo a página 1 com perfis para o sexo masculino e a página 2, com perfis para o sexo feminino. Porém, os perfis desenhados são os mesmos para ambos os sexos.

Participaram 150 avaliadores, que foram divididos em categorias: 50 ortodontistas, 50 cirurgiões plásticos e 50 leigos da raça negra. O grupo de leigos negros foi composta por pessoas com nível de escolaridade de segundo  e  terceiro grau.
 

4.2 Métodos

4.2.1 Construção dos perfis
 Tomando-se como referência um perfil do trabalho de mestrado de MEDEIROS23 (1986), foi utilizado o traçado cefalométrico do perfil de uma mulher jovem brasileira da raça negra, portadora de “oclusão normal” e que nunca se submeteu a tratamento ortodôntico (FIG. 1).
 

                             FIGURA 1 -  Perfil  referência utilizado para a confecção de todos os demais perfis
                             Fonte: MEDEIROS, 1986

Baseado neste perfil, foram feitas variações gradativas no tamanho dos lábios e   aumento no tamanho do nariz e mento.

Essas alterações nos perfis foram executadas com a ajuda da computação, pelo programa Corel Draw, após a captura da imagem, pelo Scanner do traçado do perfil mole acima citado.

A primeira série de perfis, no exame visual, apresenta lábios que foram protruídos ou retruídos em 2mm, gradativamente, em relação ao perfil de referência. Assim, foram produzidos três perfis com retrusão labial e três perfis com protrusão labial, totalizando 12mm de alteração entre o perfil mais retruído (nº.1 com -6mm)  e o perfil mais protruído (nº.7 com + 6mm), conforme pode ser visto na FIG. 2.

 

                        FIGURA 2 -  Primeira série de perfis, cujos lábios apresentam retrusão ou protrusão labial
 

A segunda série de perfis (FIG. 3), utilizou os mesmos perfis da primeira série, porém aumentando o tamanho do nariz, no sentido sagital, em todos os sete perfis em 6mm.
 

 
 
                               FIGURA 3 -  Segunda série de perfis com alterações labiais e aumento do nariz
 
 

  A terceira série de perfis também utilizou os mesmos perfis da primeira série, aumentando  todos os  mentos em 6mm
  (FIG. 4).

                            FIGURA 4 -  Terceira série de perfis com alterações labiais e aumento do mento
 

Os perfis foram reduzidos para 30% em relação ao tamanho normal da face.
4.2.2 Obtenção dos dados
O questionário foi reproduzido aos avaliadores, junto com uma carta explicativa solicitando-os que enumerassem todos perfis de cada série, tanto para o sexo masculino (página 1) quanto para o sexo feminino (página 2), em ordem de preferência: número um para o melhor perfil até número sete para o pior perfil. Ainda foi solicitado aos avaliadores que demarcassem, com um círculo, o melhor perfil entre os três de cada página selecionados como número um.
 

 
 

4.2.3 Registro dos dados obtidos

Foram construídos seis quadros para anotação das respostas, sendo três para registrar as respostas para os perfis masculinos e os outros três, para os perfis femininos, de cada grupo de avaliadores. Cada quadrado localizado abaixo de cada perfil,  da primeira série de perfis da primeira página, que se refere a perfis masculinos, foi classificado em A1, A2, A3, A4, A5, A6, A7, respectivamente aos quadrados de resposta, da esquerda para direita (FIG. 5). Isto foi feito para facilitar o registro e a contagem das respostas e identificar cada tipo de perfil. A segunda série de perfis da primeira página foi classificada em B1 até B7. A terceira série de perfis da mesma página teve a letra C como referência. Seguindo esse critério, a página 2, correspondente a perfis femininos, teve as letras D, E, F para se referir às primeiras, segundas e terceiras séries de perfis, respectivamente.

 

                   HOMENS                                MULHERES 
                         FIGURA 5 - Apresentação dos perfis classificados por letras e números

Em seguida, foram registrados nestes quadros, os perfis selecionados pelos examinadores como número um  e número sete, referindo-se ao melhor e ao pior perfil de cada série, para cada sexo. Ainda foi registrado o melhor perfil selecionado entre os três melhores de cada página, do questionárivisual.
 
As avaliações quantitativa e qualitativa foram utilizadas para a obtenção dos resultados.
 

5. RESULTADOS

5.1 Avaliação dos perfis escolhidos para o sexo masculino

Os perfis que obtiveram o maior número de votos como o melhor e o pior, de cada série, para o sexo masculino, pelos ortodontistas, cirurgiões plásticos e leigos da raça negra estão apresentados na FIG. 6.
 
 

                      FIGURA 6 - Perfis mais votados como o melhor e o pior de cada série de perfis,
                  pelos três grupos de avaliadores, para homens negros

5.2   Avaliação dos perfis escolhidos para o sexo feminino

Os perfis escolhidos como os melhores e os piores de cada fileira, para o sexo feminino, por cada grupo de avaliadores, estão demonstrados na FIG. 7.
 
 

                    FIGURA 7 - Perfis escolhidos pelos avaliadores considerados o melhor e o pior
                    de cada fileira, para mulheres negras
 

5.3         Avaliação do melhor perfil para o sexo masculino e para o sexo feminino

O perfil mais votado pelos ortodontistas, cirurgiões plásticos e pelos leigos da raça negra, como o melhor entre todos os tipos de perfis construídos para negros brasileiros do sexo masculino, foi o perfil C2 (FIG. 8 e TAB. 7). Este perfil se assemelha às características de perfil para indivíduos da raça branca, ou seja, perfil mais reto, com mento proeminente e lábios menos protruídos (GRAF.7).
 
 

                                            GRÁFICO 7 - Votos dos melhores perfis masculino e feminino,
                                            para a raça negra,  selecionados pelos avaliadores
 
 
                                   FIGURA 8 - Perfis votados como os mais agradáveis pelos
                               ortodontistas (OR), cirurgiões plásticos (CP) e leigos negros (LN)
 

                                                                                         TABELA 7
                                     Votos dos melhores perfis masculino e feminino, para a raça negra, 
                                     selecionados pelos avaliadores

Melhor perfil para  
o sexo masculino
            Melhor perfil para  
            o sexo feminino
Ortodontistas          C2 (11)                    F1 (12)
Cirurgiões plásticos           C2 (16)                    F3 (16)
Leigos negros          C2 (9)                    F3 (9)
 
 
 
 Para o sexo feminino, o perfil votado pelos ortodontistas, como o mais agradável para as negras brasileiras, entre todos os perfis construídos, foi o perfil F1, que tem os lábios com 6mm de retrusão e 6mm de protrusão do mento. Diferindo da opinião da maioria dos ortodontistas, os cirurgiões plásticos e os leigos negros escolheram o perfil F3,  que se apresenta com  apenas 2mm de retrusão labial em relação ao perfil referência (FIG. 8). Porém, tanto o perfil F1 quanto o perfil F3, apresentam características mais próximas de um perfil para pessoas da raça branca (GRAF.7).

Quando foram comparados os resultados entre o melhor perfil masculino e o melhor perfil feminino escolhidos pelos ortodontistas, cirurgiões plásticos e para o grupo de leigos da raça negra, verificou-se que os perfis escolhidos foram muito semelhantes para os dois sexos. Ou seja, tanto para o sexo masculino quanto para o feminino, os perfis apresentam mentos proeminentes e lábios menos protruídos que o considerado normal para a raça negra (FIG. 8).
 

6. DISCUSSÃO

É de conhecimento dos  ortodontistas que a maioria dos pacientes busca o tratamento ortodôntico por estar insatisfeito com um ou mais  aspectos de sua aparência facial, podendo, tal fato, dificultar a integração do indivíduo na sociedade.

 Vários trabalhos foram realizados com o intuito de se encontrar um padrão estético ideal  (FARROW, 1993; OKUYAMA & MARTINS, 1997). Porém, o conceito de beleza é muito pessoal e subjetivo, variando de acordo com a época, sociedade  e grupos étnicos  ( OKUYAMA & MARTINS, 1997).
DOWNS, (1956); DRUMMOND, (1968); MEDEIROS, (1986) e FARROW, (1993); afirmaram que não pode existir padronização do perfil facial, devido às grandes diferenças encontradas nos grupos étnicos. Defendem que o indivíduo deve ser tratado de acordo com o seu padrão racial.

 Entretanto, como foi relatado por FARROW, (1993) e outros, e relatado na presente pesquisa, os próprios negros preferem perfis mais retos, semelhantes às características da raça branca.

Alguns autores (O’RREILY, 1989 e DIELS et al., 1995) propõem a extração de quatro pré-molares ou cirurgia ortognática como opção de tratamento para correção da biprotrusão dentária, uma vez que esta é uma característica da raça negra, mas que não é do agrado dos próprios negros. Essas condutas alteram o contorno facial e podem proporcionar a redução da proeminência labial, reduzindo a convexidade do perfil..

Os achados do presente trabalho confrontam  com os de OKUYAMA & MARTINS (1997), cuja preferência estética dos  avaliadores, quanto ao perfil facial para as diversas raças, não foram concordantes. Os 21 perfis negros escolhidos pelos avaliadores apresentaram uma maior convexidade facial e maior protrusão labial que os brancos. Porém, quanto à opinião dos próprios negros, houve concordância com os resultados deste trabalho.

Nos resultados desta pesquisa, comparando os perfis masculino e feminino mais votados entre as três séries de perfis, como os preferidos pelos ortodontistas, percebe-se que esses profissionais aceitam um perfil com um pouco mais de retrusão labial para as mulheres que para os homens, confirmando os achados de SUSHNER (1997. Os cirurgiões plásticos e os leigos negros já preferem a retrusão labial para o perfil masculino. Desse modo, pode-se verificar que não houve nenhum perfil que tivesse mais de 50% dos votos pelos avaliadores, comprovando que a avaliação estética é muito subjetiva.

Pode-se perceber que tanto os ortodontistas, que têm conhecimento das características raciais,  quanto os próprios negros, têm como padrão de beleza  os traços faciais de indivíduos da raça branca.

Essa preferência estética pode estar sugestionada pela influência massificante  dos meios de comunicação e da sociedade que passa a  valorizar esse tipo de perfil.

Talvez isso possa envolver uma discussão filosófica, uma vez que a discriminação racial é secular e a raça branca é predominante no mundo. Além disso, o poder sócio-econômico-cultural encontra-se em quase sua totalidade com os brancos. Em conseqüência disto, os meios de comunicação acabam por colocar como “belo”,  as pessoas “loiras de olhos azuis” e de perfis retilíneos. Fica então a dúvida sobre a opinião dos negros, se esta situação fosse invertida, ou seja, se fossem os negros predominantes em número e os “donos” da situação sócio-econômico-cultural do mundo, não seriam os seus perfis eleitos como os mais belos?

Porém, a real situação não é esta, e o desejo por parte dos negros de se ter um perfil mais retilíneo é um fato demonstrado nesta pesquisa, onde sugere-se que não se deve descartar a oportunidade de avaliar e discutir com cada paciente as possibilidades de se atingir, ao final de  um tratamento, o padrão estético preferido por este, porém, respeitando os limites fisiológicos e anatômicos de sua raça.

Com o aumento do número de brasileiros negros que procuram tratamento especializado de ortodontistas, cirurgiões buco-maxilo-faciais, cirurgiões plásticos e outros, é importante determinar o que constitui uma face agradável ou não pelos próprios negros. Esta informação deveria se tornar parte do diagnóstico para esses e outros profissionais, cujas intervenções, envolvem direta ou indiretamente alterações dos contornos naturais  da face.
 

7. CONCLUSÃO

 Baseado na metodologia aplicada e nos resultados obtidos, podemos concluir que:
a. os ortodontistas, cirurgiões plásticos e os leigos negros compartilham a mesma preferência estética, em nível de perfil mole, para  os indivíduos brasileiros da raça negra;
 
b. os ortodontistas, cirurgiões plásticos  e os negros preferem um perfil facial mais reto, com proeminência do mento e pouca protrusão labial para o sexo masculino. Porém, para o sexo feminino, os cirurgiões plásticos e os negros optaram por um perfil com pouco mais de protrusão labial que os ortodontistas;
 
c. não houve coincidência da preferência dos negros com as características de sua própria raça, sendo que eles preferiram  um perfil tegumentar que se assemelha aos traços faciais característicos da raça branca. Assim, é fundamental levar em consideração a opinião dos pacientes quanto à sua expectativa em relação ao perfil facial desejado ao final de um tratamento.
 
Com base nos resultados obtidos nesta pesquisa, sugere-se aos ortodontistas que produzam uma maior retrusão labial nos pacientes da raça negra, se estes assim o desejarem. Porém, recomenda-se que se façam outros trabalhos, cujos resultados ortodônticos busquem este tipo de perfil, para se verificar a estabilidade pós-contenção desses tratamentos, uma vez que “foge” das características naturais da raça negra.


9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.   COTTON, W. N, 1949 apud COTTON, W. N. et al. The Downs analysis applied to three other ethnic groups. Angle Orthod., v.21, p.213-220, 1951.
 
2.   DIELS, R. M. et al.  Changes in soft tissue profile of  African-Americans following extraction treatment.  Angle Orthod., v.65, n.4, p.285-292, Feb., 1995.
 
3.   DOWNS, W. B. Analysis of the dentofacial profile. Angle Orthod., v.26, n.4, p.191-212, Oct. 1956.
 
4.  DRUMMOND, R. A.  A determination of cephalometric norms for the Negro race. Angle Orthod., v.54, n.9, p.670-682, Sept. 1968.
 
5.  FARROW, A. L. et al. Bimaxillary protusion in black Americans - an esthetics evaluation and the treatment considerations. Am. J. Orthod. Dentofacial Orthop., v.104, n.3, p.240-250, Sept. 1993.
 
6.  HERSHON, L. E., GIDDON, D. B. Determinants of facial profile self-perception. Am. J. Orthod., v.78, n.3, p.279-295, Sept. 1980.
 
7.  MEDEIROS,M. A. Q. B. Estudo cefalométrico do padrão dentário de jovens melanodermas brasileiros do sexo feminino, com “oclusão normal”. Bauru: Faculdade de Odontologia, 1986. 85p. ( Dissertação, Mestrado em Ortodontia).
 
8.  O’REILLY, M. T.  Integumental profile changes  after surgical orthodontic correction of bimaxillary dentoalveolar protrusion in black patients. Am. J. Orthod. Dentofacial Orthop., v.96, n.3, p.242-248, Sept. 1989.
 
9.  OKUYAMA, C. C., MARTINS, D. R. Preferência do perfil facial tegumentar, em jovens leucodernas, melanodermas e xantodermas de ambos os sexos, avaliados por ortodontistas, leigos e artistas plásticos. Ortodontia, v.30, n.30 , p.6-18, jan./fev./mar./abr. 1997.
 
10.  SILVA, A. N.  In: MEDEIROS, M. A. Q. B. Estudo cefalométrico do padrão dentário de jovens melanodermas brasileiros do sexo feminino, com “oclusão normal”. Bauru: Faculdade de Odontologia, 1986. 85p. ( Dissertação, Mestrado em Ortodontia).
 
11.  SUSHNER, N. I. A photographic study of the soft-tissue profile of the Negro population. Am. J. Orthod., v.72, n.4, p. 373-385, Oct. 1977.