TRANSCRITO DO JORNAL CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISA EM ORTODONTIA DA BAHIA – Ano I, N 2 – Dezembro 1997


Reabsorção Radicular Externa

Wellington Pacheco (*)

A reabsorção ao radicular externa é um problema idiopatico, algumas vezes associado ao tratamento ortodôntico e que poderá ser  definido como uma redução do comprimento da raiz do dente. Essa perda de material radicular e imprevisível e, dependendo da extensão irreversível, podendo comprometer o resultado e os benefícios do tratamento. Entretanto, na maioria das vezes, a redução do comprimento radicular após a terapia ortodôntica não diminui a função de suporte mastigatório desempenhada pela unidade dentaria.

Uma vez que o cemento apresenta maior resistência a reabsorção que o osso alveolar, as forcas aplicadas geralmente promovem remodelação do tecido ósseo, permitindo o movimento dentário. Entretanto, a reabsorção do cemento e da dentina também podem ocorrer, pois as células que reabsorvem a raiz, os odontoclastos, possuem características citológicas e funcionais similares aos osteoclastos.

Estudos recentes tem demonstrado que a atividade de reabsorção ocorre em resposta a estímulos mecânicos ou químicos das células do ligamento periodontal, caracterizados pela síntese de prostaglandina E com o concomitante aumento do AMP cíclico (cAMP). Estas características podem estar relacionadas com a concepção de que, no processo de reabsorção, os osteoclastos são células controladas pelos osteoblastos.

Pesquisas em animais e humanos demonstram que a hialiniazacão precede a reabsorção radicular durante o tratamento ortodôntico, ocorrendo a perda de material na região adjacente e subjacente a esta. Quando a pressão decresce, abaixo da força ótima de até 26 g/cm2, a reabsorção radicular cessa. O reparo das lacunas de reabsorção pode ser visualizado após 35 a 70 dias subseqüentes à aplicação de força. Esse reparo é descrito pela migração de cementoblastos para a superfície reabsorvida, exclusão dos osteoclastos e proliferação na superfície lesada.

As reabsorções  radiculares são freqüentemente encontradas nos apices, seguido pelas superfícies mesial, vestibular, distal e lingual. Os dentes mais freqüentemente afetados, de acordo com o grau de severidade, são os incisivos laterais superiores, incisivos centrais superiores, incisivos inferiores, raiz distal dos primeiros molares inferiores. segundos pré-molares inferiores e segundos pré-molares superiores.

Os fatores que afetam a reabsorção radicular podem ser descritos como biológicos, mecânicos, ou uma combinação de ambos. Dentre os fatores biológicos pode-se citar a susceptibilidade individual, predisposição hereditária, fatores sistêmicos, fatores nutritivos, idade cronológica e idade dentária.

A influencia genética ainda não é bem compreendida, mas existe grande possibilidade de haver associação entre a genética e as reabsorções radiculares. Os problemas endocrinológicos, incluindo o hipertireoidismo, hipopituitarismo e hiperpituitarismo, são relacionados a reabsorção radicular.

Outro elemento bastante investigado como causador de reabsorção é o fator nutricional, mas o assunto e controvertido.

Parece haver uma grande susceptibilidade para a reabsorção radicular notada entre adultos. Isto pode ocorrer devido a membrana periodontal tomar-se menos vascular, aplástica e estreita, o osso mais denso, avascular e aplástico e o cemento mais largo.

Com relação a idade dentária, tem-se observado que as raízes  parcialmente formadas parecem desenvolver-se normalmente durante o tratamento ortodôntico. Sabe-se ainda que raízes incompletas apresentam menos reabsorção radicular do que as totalmente formadas.

A presença de reabsorção radicular antes do tratamento ortodôntico predispõe o indivíduo a uma perda mais acentuada de material dentário. Quanto a anatomia dentaria, as raízes em forma de pipeta são mais susceptíveis do que as possuidoras de uma anatomia normal. Dentes que foram previamente traumatizados podem exibir um grau de reabsorção radicular sem tratamento ortodôntico. Mover estes dentes ortodonticamente  pode causar problemas, se não houver um período de reestruturação bioilógica entre o trauma e o movimento ortodôntico.

Quanto aos fatores mecânicos é sabido que, quando forças ortodôticas excedem o nível ótimo de 20 a 26 g/cm2, causam isquemia no ligamento periodontal e podem levar a reabsorção radicular. Considerando o tipo de movimento dentário, pesquisas revelam que a intrusão é o  que mais causa reabsorção apical.

Uma previsão da predisposição a reabsorção radicular não e possível de ser realizada. Durante o tratamento ortodôntico e recomendável: a) controle radiográfico periódico - radiografias iniciais, intermediarias e finais são importantes na detecção da reabsorção radicular externa; b) a utilização de forças leves e intermitentes; c) o menor tempo possível de tratamento e  d) esclarecimentos ao paciente ou aos responsáveis sobre o risco de possíveis encurtamentos radiculares durante o tratamento ortodôntico.



(*) Mestre em Ortodontia - UFRJ e Professor do Curso de Especialização