TRANSCRITO DA REVISTA GAÚCHA DE ODONTOLOGIA / RGO
29 (1); jan./mar., 1981



INCISIVO CENTRAL DILACERADO

Dr. Cléber Bidegain Pereira    (*)
Dra. Edela Puricelli  (**)
Os autores relatam um caso clínico de dilaceração do incisivo central superior, apresentando a técnica de recuperação ortodôntica do mesmo.
INTRODUÇÃO

A dilaceração do incisivo central superior permanente pode ter origem traumática ou ser causada pelo desenvolvimento do germe dentário em situação ectópica (7). Dilaceração foi definida por TIECKE et ai. (8) como um desvio na relação linear da coroa dentária com sua raiz. Não há prejuízo na calcificação. Segundo HOWELL e EDLER (4, 2), a deformidade mais comum no incisivo central superior é a coroa angulada para cima e para vestibular. É importante distinguir dilaceração de flexão, pois este último termo é aplicado para qualquer dente com curvaturas radiculares. Também distingue-se a dilaceração em sua gravidade, amentando na proporção em que a relação linear apresenta desvio angular maior e mais próximo do colo anatômico do dente. O tratamento habitualmente indicado para estes dentes dilacerados que se mantém retidos é a extração ( 1, 2, 3, 7). Entretanto, com um diagnóstico precoce e uma boa orientação cirúrgica e ortodôntica, pode-se provocar a erupção mecânica destes dentes.

CASO CLÍN I CO

A erupção do incisivo central superior direito, sem acontecimento semelhante de seu homologo, levou à pesquisa radiográfica da região. Foi constatado que o 21 estava retido e apresentava curva acentuada entre a raiz e a coroa dentária, posicionando-se com o bordo incisal para o lado vestibular, na altura do terço apical das raízes dos dentes vizinhos. A rizogênese não era completa, pouco menos do que se poderia esperar para a média de sua idade - sete anos e meio - e, também, pouco menos que os demais dentes, considerando-se a cronologia. A história clínica assinalou traumatismo violento, aos três anos e meio, com intrusão do decíduo correspondente, Por não ser o incisivo central superior substituível pela transposição ortodôntica de um dente vizinho, sua perda levaria, necessariamente, a uma prótese prematura, o que motiva a tentativa de seu aproveitamento. Optou-se por tracionar imediatamente o incisivo para a sua posição, na expectativa de que a rizogênese se completasse em situação mais favorável em relação à coroa dentada. O dente exposto cirurgicamente sofreu aplicação de dois aportes metálicos: um no bordo incisivo - através de perfuração - e outro no colo anatômico. O primeiro, mais justo e fixo, permitiu aplicação direta das forças de tração ortodôntica em todas as direções necessárias. Já o segundo braço metálico, no colo anatômico do dente, favoreceu a tração vertical moderada. O incisivo foi sendo tracionado, lentamente, com auxilio de Placa Móvel, que servia de ancoragem, e da ação de elásticos que o próprio paciente manipulava. A erupção se deu por vestibular, em posição elevada, avolumando o lábio superior e ferindo a mucosa. Confeccionou-se Placa de acrílico que se interpôs entre o lábio e o segmento anterior da arcada dentária superior. Protegeu-se, assim, o lábio e a força da musculatura impulsionou favoravelmente o dente. Com a verticalização da coroa dentária, a rizogênese, que sempre continuou na direção normal, passou a ter o mesmo longo eixo da coroa. A raiz do dente adquiriu a forma de baioneta. Bandas com aditivos de "edgewise" em 46, 42, 41, 11, 12 e 16 concluíram o posicionamento desejado.

DISCUSSÃO

A consulta à literatura demonstra grande porcentagem de casos semelhantes - dilaceração do incisivo central superior - cujo tratamento é a extração. O diagnóstico precoce deste tipo de deformidade favorece a conduta clínica, permitindo um tratamento cirúrgico-ortodôntico oportuno, com conservação e erupção do dente afetado. O germe dentário do incisivo permanente, que tinha formado pouco mais do que a coroa, sofreu deslocamento pela ação traumática. Mas a rizogênese continuou em sua direção normal, com o longo eixo quase na vertical, resultando o desvio na relação linear entre a raiz e a coroa dentária.

Aspeto clínico inicial do caso
Retirada dos aportes metálicos
Nivelamento de fechamento de espaços
Aspeto clínico final do caso
Radiografia inicial. A corôa, pela injúria, tomou a 
posição horizontal, porém a rizogênese continua 
na vertical. 
É necessário iniciar a verticalização da corôa 
imediatamente.
Foram colocados dois aportes metálicos,
um no colo anatômico do dente e outro 
na borda incisal.
A tração foi iniciada pelo aporte metálico da
borda incisal. Depois tracionou-se pelo outro
aporte metálico. 
Retirados os aportes metálicos, a rizogênese
continuou , dando à raiz a forma de "baioneta". 
Quase concluída a rizogênese
  Aspeto radiográfico  em janeiro de 1997
  16 anos após a conclusão do tratamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 - BECKER, A. et al. Utilization of a dilacerated incisor tooth as its own space maintainer. J. Dentist. 4. 6. 263 264, 1976.

2 - EDLER, R. Dilaceration of upper central and lateral incisors: a case report. Br. Dent. U. I 35, 331-332, 1975.

3 - EDMONDSON, H. D. and CRABB, J. J. Dilaceration of both upper central incisor teeth: a case report. J. Dent. 3, 223-224, 1975.

4 - HOWE, G. L. Minar Oral Surgery, 2nd ed. 135-137. Wright Bristol.

5 - ROSE, J. S. Treatment of central incisors: two case reports. Dent. Practit. 20, 153-1 57, 1969.

6 - SANCHEZ. M. F. Comunicação pessoal.

7 - STEWART, D. J. Dilacerate unerupted maxillary central incisor. Brt. Cent. J. 145, 229,1978. 8 - TIECKE, R. W- et al. Pathological physiology of oral disease. Mosby, St. Louis, 1959.


(*)   Especialista em Ortodontia pelo C.F.O.

          (**) Prof. Adjunta do Dep. Cirurgia e Ortopedia da FO/UFRGS/P. Alegre/RS
          Instituto Puricelli


    NOTA: SUA MANIFESTAÇÃO SERÁ SEMPRE BEM VINDA.
    FAÇA REFERÊNCIA AO CASO E CITE  SEU NÚMERO.