Paulo Sant'ana - A memória e a saudade

Transcrito das colunas do jornal Zero Hora, página 63, edição de 14 de novembro de 2007

A memória é que mantém o homem preso à sua vida. É impossível a uma pessoa não recordar. Baldados são os esforços das pessoas que se recolhem a mosteiros, assim como os anacoretas, lá em seus tugúrios e em suas celas, não poderão jamais se livrar de seus passados. O passado é uma canga e um estigma que acompanharão o homem por toda a sua vida. Sou tentado a crer que o grande diferencial entre os loucos e os lúcidos é que os primeiros se livraram da memória, a lembrança do passado lhes era insuportável.

Voltando aos frades e aos anacoretas, os que se separam de suas origens, rompendo quase todos os liames com a vida. Eles se recolhem aos mosteiros para livrar-se das situações em que são obrigados a defrontar-se com seu passado, quando são tolhidos a recordações que os torturam. No ambiente de clausura, fica menos difícil para eles ter de prestar contas dos seus atos ou de rememorar as suas desgraças. O passado é um cativeiro, de cujos grilhões é impossível ao homem libertar-se.
Quem foge do passado está tentando fugir do seu destino. Se não fugir, será infeliz e só lhe resta ficar louco.

O homem bebe ou usa drogas para fugir do passado. Para esquecer de suas faltas. E para driblar o destino. O homem saudável ou feliz é aquele para quem o passado traz boas recordações. Só esse tipo de pessoa está aparelhada para viver equilibradamente. Já as pessoas para quem as lembranças só servem como culpas, estas estão condenadas a serem infelizes, pelo menos incompletas. Culpa no caso não quer só dizer erro, quer dizer também fatalidade, desgraça, culpa de outrem recaída adversamente sobre si, ou então dúvida sobre se é culpado, algo assim como o raciocínio de que, se algo de mau lhe aconteceu, então é porque de alguma forma o merecia.

A saudade se situa numa faixa de terreno entre o deleite e o amargor na alma humana. A saudade é a presença de uma ausência entre deliciosa e amarga, contém os dois valores, ao mesmo tempo em que comemora (traz de volta à memória) a lembrança saborosa de alguém ou de algum fato, traz em seu seio a recordação de algo não auspicioso, de uma despedida, de uma ruptura. A saudade é ao mesmo tempo uma lembrança crivada de doçura mas repleta de trauma. Celebra-se na saudade a recordação indelével de fato, circunstância, pessoa que nos fizeram felizes, cuja lembrança no entanto nos amassa pela certeza de que aquilo jamais poderá voltar a nos acontecer. A saudade quase sempre nos lembra de que nunca mais poderemos nos sentir felizes como nos sentíamos quando vivíamos aquele tempo de ventura, ao lado de alguém ou no centro de uma situação favorável, incogitável para o presente, absolutamente improvável no futuro. A saudade nos orgulha do que fomos mas nos envergonha e sufoca por não podermos voltar a sê-lo.

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Escrevi esse e-mail para o Paulo Sant'ana em junho de 2008:

"Paulo Santana,

Sou seu fã incondicional. Estou ficando velho que nem o senhor... Apenas na idade estou um pouco a sua frente.

Perdi minha amada mulher depois de 60 anos de amor, carinho e companheirismo. Sonho todas as noites com ela.

Amei, amei seu escrito "A Memória e a Saudade". Com sua genialidade parece que escreveu para mim. Obrigado.

Desculpe, mas transcrevi na minha página que é eminentemente científica: www.cleber.com.br. Porém, abri uma excessão e coloquei algumas coisas da vida de minha amada Hilde e eu em www.cleber.com.br/minha_vida. Aí coloquei sua coluna, mesmo sem lhe pedir permissão, o que peço agora..."