TRANSCRITO DE INTRODUÇÃO À INFORMÁTICA NA ODONTOLOGIA - EDITORA  PANCASTE 1996


VIZUALIZAÇÃO COMPUTADORIZA DA EXPECTATIVA DE TRATAMENTO ORTODONTICO E ORTOGNATA (VCETOO)
Atualização deste escrito


Cléber Bidegain Pereira
A Visualização Computadorizada da Expectativa de Tratamento Ortodôntico e/ou Ortognata (VCETOO) é um método que executa, graficamente, com o auxílio do computador, aquilo que se espera acontecer ou pretende-se fazer durante o tratamento. O computador possibilita, com facilidade, a composição gráfica desse planejamento, o qual, sendo visualizado previamente, pode ser mais bem avaliado e reestudado, além de servir como parâmetro para avaliações subseqüentes.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O profissional não deve errar em seu diagnóstico e plano de tratamento. E é de esperar-se que seu prognóstico seja correto. A expectativa do tratamento, no entanto, deve ser tomada de maneira diferente, tanto pelo especialista, quanto pelo paciente. A expectativa do tratamento é aquele ideal, ao qual o profissional almeja chegar. Não é um ideal utópico, irrealizável, um sonho. Ao contrário, deve ser um objetivo planejado com possibilidade de concretização. Porém, como todo ideal, toda perfeição, é uma meta, que a nós, homens, só é dado aproximarmo-nos, chegar até bem perto, quase até atingí-la. Além disso, a expectativa de tratamento é a previsão otimista de onde se deseja chegar. Para atingir-se o resultado planejado é preciso confluírem diversos fatores de maneira favoráveis, sendo que, alguns deles, independem da intervenção do ortodontista. Assim a cooperação do paciente e o crescimento, que escapam ao controle do experto. O posicionamento dos lábios, em função das modificações dos incisivos, também não encontra nenhum processo absoluto de referência. Ele é baseado, mais que tudo, na arte e na experiência pessoal do ortodontista. Não existem regras fixas e determinadas que sirvam para todos os casos. São individuais as variáveis, em função da textura dos tecidos moles. O profissional reúne todos os recursos disponíveis de planejamento e coloca no computador aquilo que, antes, ficava, apenas, em sua imaginação. Uma das grandes vantagens é que, a visualização do que se planeja, pode evidenciar novos descobrimentos, possibilitando reavaliação e modificações que sejam necessárias. Na cirurgia ortognata, via de regra, não há a incógnita do crescimento. Porém, as grandes alterações nas estruturas esqueléticas geram maiores problemas com os tecidos moles de capeamento, que se portam de diferentes maneiras, dependentes da tonicidade e volume muscular.
O planejamento da expectativa do tratamento é mais arte do que ciência. E, assim sendo, só pode ser elaborado pelo próprio ortodontista que irá realizar o tratamento. No caso da cirurgia ortognata, o planejamento terá de ser um trabalho conjunto do cirurgião e do ortodontista. Por tudo isso, a expectativa do tratamento não deve ser tomada como um compromisso absoluto do profissional. É, antes, uma proposta, um rumo, que poderá ser mostrado ao paciente, ressaltando-se essas condições. Pode, no entanto, se assim entender o o ortodontista, ficar apenas como um estudo privativo do qual o paciente não tenha conhecimento.

ELABORAÇÃO DO VCETOO NO COREL DRAW
Encontram-se, no mercado, programas de cefalometria computadorizada que propiciam a simulação do tratamento ou da expectativa do tratamento. Ainda que estes programas possam ser de relevante utilidade como sugestões preliminares, cada caso deve ser projetado em acordo com as individualidades do paciente, das técnicas e da habilidade de cada profissional, fugindo de padrões pré-estabelecidos, baseados, algumas vezes, em proposições não bem esclarecidas e alheias ao conhecimento de quem as aplica. Por outro lado, a cada dia fortalece-se a tendência atual, em informática, de utilização dos sistemas especializados, apenas até onde eles são imprescindíveis. Depois, os arquivos são transferidos para programas de utilidade genérica, onde são manipulados com a exuberância e riqueza de recursos que esses programas oferecem. Com esse espírito, utilizamos o sistema de Cefalometria Computadorizada ORTOVIEW, onde se compõe o cefalograma pela tradicional digitalização de pontos cefalométricos. Os arquivos produzidos têm o formato "PLT", o qual, pelo IMPORT, entra com absoluta fidelidade para o Corel Draw (*). O Corel é um programa multiutilitário, com grande riqueza de opções para a editoração de slides e vídeo. Presta-se, muito bem, para a composição da VCETOO, como se tivesse sido feito especialmente para isso. Realmente, é quase incrível como o Corel possibilita todos os movimentos de composição que se pode imaginar. No caso das rotações, é possível levar o centro de rotação para o ponto que se deseja. Há a alternativa de anotar os valores, angulares ou lineares, dos movimentos realizados, ou medi-los na sobreposição do cefalograma original e da expectativa do tratamento, impressos com exatidão. Os traçados podem ser feitos em diferentes cores, espessura, linha cheia ou pontilhada. É possível, inclusive, fazer-se a sobreposição do traçado cefalométrico na fotografia da face do paciente (**). Cabe ao profissional elaborar, passo a passo, a VCTEOO. Partindo do cefalograma original, irá modificando as estruturas anatômicas, de acordo com aquilo que planeja e imagina irá acontecer. A VCETOO, elaborada em utilitários genéricos, como no caso o Corel Draw, vem abrir um novo caminho na Cefalometria Radiográfica Computadorizada, permitindo que os serviços de documentação ortodôntica ofereçam aos profissionais, em disquetes, as imagens geradas pelo computador. E os ortodontistas podem, então, trabalhar o cefalograma em acordo com o seu plano, sua filosofia de tratamento e peculiaridades próprias. Basta que tenham computador com plataforma exigida para o Windows . Com isso, dispensam-se a mesa digitalizadora, o sistema de Cefalometria Computadorizada e o trabalho de digitar os pontos craniométricos. Representa tudo isso um importante avanço, pois diminui o investimento do ortodontista em tempo e equipamentos, dando-lhe espaço para expressar sua individualidade.
(*) Outros programas de Cefalometria Computadorizada, que trabalhem dentro do Windows, não tendo um arquivo que seja lido pelo Corel diretamente, podem transferir a imagem do cefalograma para o Corel Draw, através do "Clip Board". Ainda dentro do programa de Cefalometria, com a imagem já digitalizada, ela é levada para a memória RAM ( EDIT - COPY ou ^ + C ). Sem sair do Windows, fecha-se o programa de Cefalometria e entra-se no Corel Draw, onde se busca na RAM a imagem que foi digitalizada ( EDIT - PASTE ou ^ + V ). Geralmente as linhas retas apresentam distorções e devem ser excluídas com o delete, uma a uma. Para tanto, previamente, a imagem deve ser desagrupada. O cefalograma não tem distorções, apenas, ao imprimir, o tamanho deve ser ajustado.
(**) A sobreposição de cefalogramas em fotografias da face não é um método confiável. Ocorre que a telerradiografia tem um tipo de distorção e a fotografia outro. Além de que são tomadas em momentos diferentes.

SUGESTÕES PARA A ELABORAÇÃO DA EXPECTATIVA DE TRATAMENTO

1. - Iniciar o planejamento nas estruturas esqueléticas, posicionando maxila e mandíbula nas localizações que imaginamos que deverão chegar ao concluírmos o tratamento.
1.1 - Considerar a posição da mandíbula, em que foi tomada a telerradiografia. As imagens telerradiográficas devem ser avaliadas e comparadas com o exame clínico da oclusão do paciente em estudo. Na maioria dos casos, as telerradiografias são tomadas em posição de máxima intercuspidação, a qual, nas más oclusões, geralmente, apresentam desvios significativos da relação cêntrica, sejam transversais ou sagitais. O primeiro procedimento será fazer a recolocação da mandíbula em sua posição normal, na qual deverá ficar, depois de eliminadas as interferências dentárias, causadoras dos desvios. Estes desvios são altamente significativos quando ocorrem no sentido postero-anterior.
1.2 - Para a previsão do crescimento utilizam-se todos os recursos disponíveis: indicações da literatura; experiência própria e sugerências genéticas. Observar o padrão de crescimento: pacientes com padrão esquelético de Classe II, por exemplo, devem ser comparados com estatísticas de indivíduos com o mesmo padrão de crescimento. É incorreto esperar que, pacientes com padrão de crescimento anormal, comportem-se da mesma forma que indivíduos normais. Como padrão de crescimento, devem ser consideradas as estruturas esqueléticas, independentes da oclusão dentária. Algumas vezes, oclusão de Classe II tem bom padrão esquelético. E um mau padrão esquelético tem, não raras vezes, boa oclusão dentária. 1.3 - Nos casos de sobre-mordida, em que se pretende aumentar a dimensão vertical (D.V.), deve-se rotar a mandíbula, abrindo a "mordida".
1.4 - Nos casos de cirurgia ortognata, em comum acordo com o cirurgião, buscam-se as posições a que se pretende chegar com a maxila e mandíbula. Os templates, como o de Jacobson, são uma orientação inicial valiosa.

2. - Depois de se terem as e struturas esqueléticas planejadas, passa-se ao posicionamento dentário.
2.1 - Sugere-se iniciar pela posição dos incisivos inferiores. Busca-se, sempre que possível e recomendável, fazer o movimento indicado pela discrepância cefalométrica. Considerar a D.C. presente depois de acertadas as estruturas esqueléticas. Concorrem, aí, conceitos pessoais, técnicos e estéticos, adotados pelo ortodontista. Determinada a posição dos incisivos inferiores, os superiores são recolocados, buscando-se a melhor inclinação, o mais próxima possível do ideal de 130 graus.
2.2 - Depois da cirurgia ortognata, muitas vezes, casos de Classe III, passam a ter oclusão de Classe II, e como tal devem ser tratadas pelo ortodontista. Também, severas protrusões dentárias inferiores tornam-se retrusões dentárias ou posição normal, quando é feita a rotação cirúrgica da estrutura esquelética mandibular. Aliás, no planejamento ortognático cirúrgico da mandíbula, sempre que possível, deve ser buscada a posição em que os incisivos inferiores fiquem com D.C. zero. Devem-se ter em mente as possibilidades de modificação dos incisivos inferiores, em função da morfologia da sínfise mentoniana
3. - A recolocação dos tecidos moles é a parte mais incerta do planejamento, pois o comportamento destas estruturas é dependente de fatores individuais, variáveis com a tonicidade e volume muscular, nem sempre facilmente previsíveis.
Trabalho publicado no Jornal da Sociedade Paulista de Ortodontia


MODELO DE CARTA AO PACIENTE


Dr. Céber Bidergain Pereira, C.D.
A Visualização Computadorisada da Expectativa de Tratamento Ortodôntico e/ ou Ortognata (VCETOO), poderá ser mostrada ao paciente e até mesmo entregue para ele uma cópia. Porém, é imprescindível que fique bem esclarecido, por escrito, que esta expectativa não é um compromisso profissional, é o que se espera que irá ocorrer. "Modelo de carta ao paciente" é uma sugestão para este escrito. Poderá ser modificado, adaptando-se às individualidades de cada caso.
EXPECTATIVA DO TRATAMENTO EM ORTODONTIA E CIRURGIA ORTOGNATA

O profissional não deve errar em seu diagnóstico e plano de tratamento. E é de esperar-se que seu prognóstico seja correto. A expectativa do tratamento, no entanto, deve ser tomada de maneira diferente, tanto pelo especialista, quanto pelo paciente. A visualização gráfica da expectativa do tratamento, realizada com o auxílio do computador, é aquela solução ideal, à qual o profissional almeja chegar. Não é um ideal utópico, irrealizável, um sonho. Ao contrário, deve ser um objetivo planejado com possibilidade de concretização. Porém, como todo ideal, toda perfeição, é uma meta a que, a nós, homens, só é dado aproximarmo-nos, chegar até bem perto, quase até atingí-la. Além disso, a expectativa do tratamento é a previsão otimista de onde se deseja chegar. Para atingir-se o resultado planejado é preciso confluírem diversos fatores de maneira favorável, sendo que, alguns deles, independem da intervenção do ortodontista, como a cooperação do paciente e o crescimento, que escapam ao controle do experto. O posicionamento dos lábios, em função das modificações dos incisivos, também não encontra nenhum processo absoluto de referência. Ele é baseado, mais que tudo, na suposição empírica do ortodontista. Não existem regras fixas e determinadas que sirvam para todos os casos, pois as variáveis, em função da tonicidade muscular, são individuais. A visualização da expectativa do tratamento não pode ser tomada como um compromisso absoluto do profissional. É, antes, uma proposta, um rumo, que será tomado nessas condições.
 

LEITURA RECOMENDADA




1 - Atualização deste escrito 

2 - Recolocação Computadorizada da mandibula 

3- Posição da mandíbula na telerradiografia 

4- Pronunciamento da Soc.Bras.de C.Plásticos