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Pesquisadores: Cléber Bidegain Pereira, Astor Riesinger e Astor Sérgio C. Riesenger
Data: 1971 Local: Selva Amazônica - Território do Amazonas e Norte do Estado do Amazonas, que agora encontra-se dividido Assunto: Saúde periodontal, oclusão, desgaste e outras características dentárias dos índios Yanomami, aborígenes brasileiros |
As tarefas são bem definidas na família. Ao homem cabe cuidar da segurança e do sustento da família, a mãe cuida dos filhos.
A criança mama quanto tem vontade, está sempre perto do seio da mãe. Observe na primeira foto a posição de amamentação é com a criança quase na vertical, ao contrário de nossa cultura. Leia mais sobre o assunto. Ainda na primeira foto, a mãe tem a cara pintada de preto. Isto mostra de que ela está de luto. Realmente, seu marido havia morrido recentemente, vitima da mordida de uma cobra.
A cultura Yanomami não permite que a mãe Yanomami tenhas filhos gêmeos, pois ela não pode cuidar de duas crianças ao mesmo tempo. Assim ela deixava que a criança mais fraca seja levada pelo rio, geralmente ganhavam seus filhos sozinhas na beira do rio.
Também quando a criança nascia com defeito congênito não podia viver no agreste da mata. Era deixada para que a corrente do rio lhe levasse. Em contra partida, conhecemos um índio que havia caído do alto de uma árvore e quebrou as duas pernas. Não podia caçar.... Este a comunidade protegia, ele recebia comida de outros.
É interessante que na nossa cultura, também o preto representa luto. Na minha mocidade as viúvas usavam roupa preta por muitos anos, bem como as mulheres parentes próximas. Os homens colocavam uma tarja preta na lapela ou em redor da manga do casaco.
Porém nos Yanomami a cara pintada de preto, principalmente nos homens indica festa ou guerra. Os dois homens nas fotos pintaram as caras de preto para demonstrar alegria pela nossa chegada.
As meninas quando mestruam pela primeira vez isto é revestido de um cerimonial e daí em diante elas podem casar, o que ocorre muito cedo.
Na foto do centro esta indiasinha deveria ter no máximo 15 anos e já estava com seu filho nos braços. Observe que a criança está mamando sempre em posição vertical. A mamãe da direita parece ser um pouco mais velha e forte, seu filho também é bem mais gordinho e aparenta ser mais saudável.
Foi na Missão Catrimani com o Padre Giovanni que ficamos sabendo muitas das particularides.
Algumas delas que nos pareceram sumamente importantes, meditando sobre elas entendemos melhor suas razões.
1. Os Yanomami são muito apegados aos seus familiares. Irmãos, primos, sobrinhos, formam grupos poderosos. Assim quando maior o número de familiares mais força tem o seu líder, o mais velho do grupo, que chega a chefiar um pequeno "exército". Em cada grupo tribal há várias linhagens que competem pelo "poder" de decisão, escolha de novas rocas, casamentos, etc. Geralmente, o "líder" de um grupo tribal tem tanta força política quanto maior for o número de familiares-parentes quem tem em oposição a outras linhagens.
2. Os yanomami vivem em pequenas comunidades, geralmente em número de 50 à 80. Todos moram na mesma maloca grande, onde há divisões que são propriedades de cada casal com seus filhos. Estes grupos têm seu território respeitado pelos grupos próximos, que podem estar separados por um rio ou riacho. E assim uma maloca pode até estar em frente da outra, separada pelo pequeno rio. A agricultura era muito insipiente e a terra pertencia a toda comunicade daquela maloca. Os Yanomami são cultivadores, cada família planta uma roca, cerca daquele de um parente, onde cultiva várias qualidades de bananas, mandioca, tabaco, mamões e frutas tropicais, como açaí, bacaba, etc.
3. Não há lei nem juiz na selva. As leis são os costumes da sua cultura. O Tuxawa, que é o chefe do grupo, não tem poder de julgar nem mesmo de mandar, apenas ele tem a habilidade de convencer os demais do que deve ser feito. A falta de luz artificial, faz com que as noites sejam grandes, dorme cedo acorda cedo. É na madrugada que o líder inicia sua "pregação" tratando de convencer os demais dos seus propósitos para trabalho ou ação em grupo.
4. Geralmente o Yanomami caça sozinho ou em dois. De tal forma que quando caça um espécime de grande porte, como a anta, não pode ele e sua família comer tudo antes que se estrague com o calor que se faz presente sempre. Então é necessário dividir entre outros e ele prefere compartir com seus familiares. Isto fortalece mais aqueles chefes de grupos que tem muitos familiares.
5. Não havendo lei na cultura Yanomami nem que lhes aplique na forma de um juiz ou polícia, o que vale é a "vendeta". A lei de Damião, "quem com ferro fere, com ferro será ferido". Quando um Yanomami mata outro, ele sabe que seus dias estão contados. Os parentes da vítima irão matá-lo em breve. Conhecemos um índio, o qual havia matado quase acidentalmente outro. Mesmo assim estava condenado para morrer de um dia para outro.
6. A poligamia masculina é permitida. Um homem pode ter quantas mulheres puder sustentar.
Destes acontecimentos e outros, ditados pela vida na selva, acontece que os chefes poderosos, têm muitas mulheres, pois seus parentes lhe protegem e lhe oferecem caça. Conhecemos um, o chefe Chico, que tinha 10 mulheres. Quanto mais mulheres, mais filhos, quanto mais filhos mais parentes e assim o poder aumenta cada vez mais. Durante sua longa vida, o líder Chico dos Opiktheri, que morreu um 1987, teve mais de duas dúzias de filhos, de 8 esposas.
Como em todas as populações do mundo homens e mulheres são aproximadamente no mesmo número, em redor aproximado de 50% para cada sexo. Assim, tendo alguns poderosos mais de uma mulher falta para outros, geralmente os mais jovens... Não é raro um jovem casar com uma mulher bem mais velha que ele, viúva ou desprezada pelo marido.
Mulheres ocupam lugares importantes na comunidade Yanomami, tanto quando estamos valorizando nos dias de hoje em nossa civilização. Elas são importantes pelo que elas têm de valor próprio. Sempre há falta de mulheres nos grupos Yanomami e vez por outra eles fazem incursões para roubar mulheres na comunidade vizinha. Quando isto acontece pela primeira vez entre dois grupos, o acontecimento é tomado como um ato válido e não significa guerra. De tal forma que os defensores de suas mulheres tratam de rechaçar os outros com pedradas ou pauladas, sem recorrer a flechas. Quando o ato é repetido, então na segunda vez é guerra e os invasores são recebido com flechas que podem matar.
Vale ressaltar que as pontas das flechas têm curare, que imobiliza a vítima, sendo que a paralisia pode atingir o coração e matar.
Cada Missão tinha sua pista de pouso. O avião nos deixava lá e voltava.
Outras vezes viajávamos pelos rios, o que era bem mais confortável, mesmo quando tínhamos de subir corrente acima exigindo muito dos remadores. Todos remávamos. Os índios nos acompanhavam sem ter nenhuma recompensa por isso. E eram os que remavam mais forte...