Pesquisadores: Cléber Bidegain Pereira, Astor Riesinger e Astor Sérgio C. Riesenger
Data: 1971
Local: Selva Amazônica - Território do Amazonas e Norte do Estado do Amazonas, que agora encontra-se dividido
Assunto: Saúde periodontal, oclusão, desgaste e outras características dentárias dos índios Yanomami, aborígenes brasileiros
Apoio Projeto Rondon e Universidade Federal de Santa Maria

Autor: Dr. Cléber Bidegain Pereira, C.D.

Co-autores: Dr. Júlio Barrancos Mooney, C.D.; Dr. Astor Riesinger, C.D.; Dr. Astor Sérgio C. Riesinger

Estas fotografias foram tomadas no ano de 1971, quando os índios yanomami eram isolados e muito pouco aculturados.

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[ Nossa chegada ] [ As famílias ] [ Caras pretas ] [ Maturidade ] [ Os enfeites ] [ Os costumes ]
[ Examinando os índios ] [ Nosso avião ] [ Sem o avião ] [ Uma descoberta ] [ Outras fotos ] [ Fotografias intra-orais ]
Nossa chegada

Foto da esquerda é na nossa chegada no território dos índios yanomomais, na Missão Tototobi. Saímos de Boa Vista e fomos diretos em avião para a Missão Tototobi. Lá encontramos o missionário Kiti e sua esposa os quais foram extremamente hospitaleiros e amenizaram a nossa primeira e assustadora impressão. Nós sabíamos, que naquele então em 1971, os Yanomami eram isolados e com um mínimo de aculturamento. Mesmo assim tivemos um choque. Eles estavam nus, não falavam uma palavra de português e usavam arcos e flechas que carregavam consigo. Por intuição usamos a linguagem do riso. Assim foi nossa primeira comunicação. Astorzinho e eu abraçamos o "Tuxawa" Roberto, o líder, que se mostrou nosso grande amigo. Leal e colaborador nas várias excursões que fizemos pela mata ou no rio (fotografia da direita). Ele gostou da camisa que lhe presenteamos e passou a usar sempre.
As famílias

Na esquerda família típica Yanomami, em que os filhos nascem mais ou menos de dois em dois anos. Falava-se que eles tinham anticoncepcionais de sua cultura na flora medicinal. Os filhos não poderiam vir mais seguidos, pois a mãe Yanomami carrega a criança no colo até aos 2 anos de idade, quando ela pode caminhar com mais segurança.

As tarefas são bem definidas na família. Ao homem cabe cuidar da segurança e do sustento da família, a mãe cuida dos filhos.

A criança mama quanto tem vontade, está sempre perto do seio da mãe. Observe na primeira foto a posição de amamentação é com a criança quase na vertical, ao contrário de nossa cultura. Leia mais sobre o assunto. Ainda na primeira foto, a mãe tem a cara pintada de preto. Isto mostra de que ela está de luto. Realmente, seu marido havia morrido recentemente, vitima da mordida de uma cobra.

A cultura Yanomami não permite que a mãe Yanomami tenhas filhos gêmeos, pois ela não pode cuidar de duas crianças ao mesmo tempo. Assim ela deixava que a criança mais fraca seja levada pelo rio, geralmente ganhavam seus filhos sozinhas na beira do rio.

Também quando a criança nascia com defeito congênito não podia viver no agreste da mata. Era deixada para que a corrente do rio lhe levasse. Em contra partida, conhecemos um índio que havia caído do alto de uma árvore e quebrou as duas pernas. Não podia caçar.... Este a comunidade protegia, ele recebia comida de outros.

As crianças, desde cedo, ajudam a cuidar dos irmãos menores. (Surucucu) O velho Tuchaua (chefe) Chico com sua mulher. (em Tototobi) Observa-se que a mulher é quem leva a carga pesada. O homem caminha na frente, com as flechas na mão e está livre e pronto para a defesa do casal.

Adolescente e jovem Yanomami. São evidentes as características morfológicas mongólicas. (Catrimani)

Da mesma maneira, são evidentes as características morfológicas nestas duas mulheres. (de Surucucu)
Caras pretas

Vimos muitos outros casos de luto com a cara pintada de preto nos em nossa estada com o Yanomami, como a da mulher na foto.

É interessante que na nossa cultura, também o preto representa luto. Na minha mocidade as viúvas usavam roupa preta por muitos anos, bem como as mulheres parentes próximas. Os homens colocavam uma tarja preta na lapela ou em redor da manga do casaco.

Porém nos Yanomami a cara pintada de preto, principalmente nos homens indica festa ou guerra. Os dois homens nas fotos pintaram as caras de preto para demonstrar alegria pela nossa chegada.

Mãe Yanomai com quatro filhas. Sua cara está pintada de preto indicando que é viuva recente. O marido morreu por uma mordida de cobra. De uma maneira geral, os filhos nascem de dois em dois anos. Dizem que tomam ervas anti-concepcionais. Amamentam até os 2 anos. (Tototobi)
Maturidade

Quando o Yanomami mata sua primeira onça então é declarado guerreiro e está apto para casar (Foto da esquerda).

As meninas quando mestruam pela primeira vez isto é revestido de um cerimonial e daí em diante elas podem casar, o que ocorre muito cedo.

Na foto do centro esta indiasinha deveria ter no máximo 15 anos e já estava com seu filho nos braços. Observe que a criança está mamando sempre em posição vertical. A mamãe da direita parece ser um pouco mais velha e forte, seu filho também é bem mais gordinho e aparenta ser mais saudável.

Os enfeites

As mulheres Yanomami gostam de se enfeitar. Perfuram o lóbulo do ouvido de forma a que entre o caule de uma flor. Sempre em ocasiões festivas colocam flores na orelhas, as quais usam até que fiquem murchas como em uma das fotos. Também constumam enfiar no lábio inferior, no centro e nos cantos da boca, talos de capim ou de outras ervas. Este palitos são usados principalmente pelas mulheres. Vimos apenas alguns homens e então usam só um palito central.

Índias Yanomami. Como "roupas", as mulheres usavam apenas uma "franja" em torno da cintura, feitas com casca de árvore. (de Catrimani)

Índios Yanomami. Sua "roupa" era apenas um fio amarrado na cintura e no prepúcio, levantando o pênis para cima. Quando desprendia-se a amarração do pênis, eles rapidamente amarravam novamente, escondendo-se um pouco, como se tivessem vergonha de mostrar o pênis para baixo, parecia que dessa forma sentiam-se "desvestidos...". (Catrimani)

Yanomami do Catrimani. As flechas são as armas para defesa e caça. São envenenadas com curare. Os enfeites com penas de pássaros são de sua cultura. O chapéu de palha e o facão foram aculturamento recentes, levados pelos missionários.

Yanomami com enfeites de penas de tucano. (Catrimani)

A pintura de todo o rosto e sinais no corpo é preparativo para a guerra ou para festas. Tanto a guerra quando as festas têm o mesmo sentido para eles. (Catrimani)
Os costumes

Na foto acima o Padre Giovanni Saffirio e o irmão Carlos Zacquini, ambos missionários da Consolata de Turim (Itália), trabalham na missão Catrimani desde 1968.

Foi na Missão Catrimani com o Padre Giovanni que ficamos sabendo muitas das particularides.

Algumas delas que nos pareceram sumamente importantes, meditando sobre elas entendemos melhor suas razões.

1. Os Yanomami são muito apegados aos seus familiares. Irmãos, primos, sobrinhos, formam grupos poderosos. Assim quando maior o número de familiares mais força tem o seu líder, o mais velho do grupo, que chega a chefiar um pequeno "exército". Em cada grupo tribal há várias linhagens que competem pelo "poder" de decisão, escolha de novas rocas, casamentos, etc. Geralmente, o "líder" de um grupo tribal tem tanta força política quanto maior for o número de familiares-parentes quem tem em oposição a outras linhagens.

2. Os yanomami vivem em pequenas comunidades, geralmente em número de 50 à 80. Todos moram na mesma maloca grande, onde há divisões que são propriedades de cada casal com seus filhos. Estes grupos têm seu território respeitado pelos grupos próximos, que podem estar separados por um rio ou riacho. E assim uma maloca pode até estar em frente da outra, separada pelo pequeno rio. A agricultura era muito insipiente e a terra pertencia a toda comunicade daquela maloca. Os Yanomami são cultivadores, cada família planta uma roca, cerca daquele de um parente, onde cultiva várias qualidades de bananas, mandioca, tabaco, mamões e frutas tropicais, como açaí, bacaba, etc.

3. Não há lei nem juiz na selva. As leis são os costumes da sua cultura. O Tuxawa, que é o chefe do grupo, não tem poder de julgar nem mesmo de mandar, apenas ele tem a habilidade de convencer os demais do que deve ser feito. A falta de luz artificial, faz com que as noites sejam grandes, dorme cedo acorda cedo. É na madrugada que o líder inicia sua "pregação" tratando de convencer os demais dos seus propósitos para trabalho ou ação em grupo.

4. Geralmente o Yanomami caça sozinho ou em dois. De tal forma que quando caça um espécime de grande porte, como a anta, não pode ele e sua família comer tudo antes que se estrague com o calor que se faz presente sempre. Então é necessário dividir entre outros e ele prefere compartir com seus familiares. Isto fortalece mais aqueles chefes de grupos que tem muitos familiares.

5. Não havendo lei na cultura Yanomami nem que lhes aplique na forma de um juiz ou polícia, o que vale é a "vendeta". A lei de Damião, "quem com ferro fere, com ferro será ferido". Quando um Yanomami mata outro, ele sabe que seus dias estão contados. Os parentes da vítima irão matá-lo em breve. Conhecemos um índio, o qual havia matado quase acidentalmente outro. Mesmo assim estava condenado para morrer de um dia para outro.

6. A poligamia masculina é permitida. Um homem pode ter quantas mulheres puder sustentar.

Destes acontecimentos e outros, ditados pela vida na selva, acontece que os chefes poderosos, têm muitas mulheres, pois seus parentes lhe protegem e lhe oferecem caça. Conhecemos um, o chefe Chico, que tinha 10 mulheres. Quanto mais mulheres, mais filhos, quanto mais filhos mais parentes e assim o poder aumenta cada vez mais. Durante sua longa vida, o líder Chico dos Opiktheri, que morreu um 1987, teve mais de duas dúzias de filhos, de 8 esposas.

Como em todas as populações do mundo homens e mulheres são aproximadamente no mesmo número, em redor aproximado de 50% para cada sexo. Assim, tendo alguns poderosos mais de uma mulher falta para outros, geralmente os mais jovens... Não é raro um jovem casar com uma mulher bem mais velha que ele, viúva ou desprezada pelo marido.

Mulheres ocupam lugares importantes na comunidade Yanomami, tanto quando estamos valorizando nos dias de hoje em nossa civilização. Elas são importantes pelo que elas têm de valor próprio. Sempre há falta de mulheres nos grupos Yanomami e vez por outra eles fazem incursões para roubar mulheres na comunidade vizinha. Quando isto acontece pela primeira vez entre dois grupos, o acontecimento é tomado como um ato válido e não significa guerra. De tal forma que os defensores de suas mulheres tratam de rechaçar os outros com pedradas ou pauladas, sem recorrer a flechas. Quando o ato é repetido, então na segunda vez é guerra e os invasores são recebido com flechas que podem matar.

Vale ressaltar que as pontas das flechas têm curare, que imobiliza a vítima, sendo que a paralisia pode atingir o coração e matar.

Este menino é o Antonio, que depois mudou de nome: agora é Ademar. Esta informação é do Irmão Carlo Zacquini (Boa Vista). Vale ressaltar que na cultura Yanomami, eles não gostam de dizer seu verdadeiro nome, temendo que sejam chamados para o além. Então aceitam de bom grado que lhe dêem outros nomes que, para eles, são de "mentirinha" e podem mudar a qualquer momento.

Yanomami do Catrimani, o Dr. Astor está atrás.

De uma maneira geral os Yanomami têm estatura baixa. O missionário que está com a índia não é de estatura alta. (Surucucu)

Yanomami do Catrimani.

Jovem guerreiro Yanomami com sua flecha, única arma de que dispunham na época. (Catrimani)

Jovem mãe Yanomami com seu saudável filho. A amamentação é natural até os 2 anos. (Tototobi)

Jovem mãe amamentando seu filho. Segundo informações especializadas, está é a maneira correta de amamentar, com a criança na vertical.

Yanomami maduro e jovem Yanomami. Sendo que o jovem recentemente havia adquirido a posição de guerreiro, pois havia matado sua primeira onça. (Catriamni)
Examinando os índios

As missões em que estivemos (Tototobi, Surucucu e Carimani) eram ao lado de uma maloca Yanomami. Examinávamos os dentes dos índios, fazendo fotografias e moldes dos casos mais peculiares. Primeiro examinamos os índios que estavam na proximidade da Missão e alguns que aí chegavam. Depois saíamos pela selva ou pelos rios, buscando outros grupos de Yanomami. Ocorrreu de encontrarmos grupos em plena selva e aí mesmo examiná-los como aconteceu nas duas últimas fotos aqui deste conjunto.

Os Yanomamis têm exelentes dentes. Somente as mãos e os dentes são usados para a alimentação. O jovem Yanomami está comento coquinhos, que colheu enquanto viajávamos pelo rio. Com facilidade seus dentes conseguiram matigá-los. Nós tentamos e não conseguimos... (Tototobi)

Na Missão Tototobi, examinamos os índios que vivem junto da Missão, e mais alguns que aí chegavam. Nota-se o macaquinho muito amigável. Os Yanomamis costumam ter animais domésticos, como macacos, araras, tucanos e papagaios. Se estão domesticados não os comem. (Tototobi)

Examinando índios Yanomami em Tototobi. O Dr. Astor Sérgio toma fotografias. O Dr. Astor toma modelos.

Examinávamos os índios onde os encontrávamos, fosse nas imediações das Missões ou em nossas viagens a pé pela selva amazônica. (Tototobi)

Examinando os Yanomami em plena selva amazônica. Tenho orgulho dessa fotografia, a qual ganhou o primeiro prêmio em concurso da Associação Paulista de Cirrugiões Dentistas (APCD). Foi capa da Revista da APCD. (Surucucu) O índio que está sendo examinado parece ter face semelhante a primitivos, como os aborígenes australianos. Na realidade somente este indivíduo apresentou estas características. Os Yanomami são homo-sapiens. No mesmo estágio de evolução física que nós.

Os três companheiros de pesquisa: Astor Sérgio, Astor e Cléber. Cléber tomando fotos. (Surucucu)

Grupo de índias Yanomami a espera de serem examinadas. Esta era a nossa "sala de espera"... (Tototobi)
Nosso avião

De uma Missão para outra viajávamos em um pequeno avião que servia para abastecer as Missões, partindo de Boa Vista (Roraima). Como conceção especial o avião nos levou direto de uma Missão para outra, sem retornar a Boa Vista. Isto lhe obrigava a fazer um caminho diferente, que só era possível graças a grande habilidade dos pilotos em reconhecer a região, visto que em baixo tudo é selva fechada, os pequenos rios não aparecem, bem como as pequeas elevações. Tudo fica coberto por um "tapete" verde que nivela tudo. Para nós foi um mistério como este piloto conseguia encontrar as Missões, pequenas clareiras na imensidão do verde.

Cada Missão tinha sua pista de pouso. O avião nos deixava lá e voltava.

Na selva em Surucucu.

Chegando em Totobi no avião monomotor do Lee. (Asas para Socorro) Navegando no rio Tototobi, um afluente do rio Demini, em busca de agrupamentos de Yanomami.

Yanomami, apenas saindo da "idade da pedra", passou direto para o facão e conheceu o avião. Os Yanomamis não estão acostumados ao sol. Vivem dentro da floresta fechada, onde não entra o sol. Com a chegada do avião e a necessidade de abrir uma pista de pouso, as clareiras ficaram maiores e o sol castiga-lhes muito. O chapéu de palha é um aculturamento que chegou com os primeiros avanços culturais, levados pelos missionários. (Catrimani)
Sem o avião

Quando saíamos das Missões em busca de outros agrupamentos Yanomami, fazíamos caminhando pela floresta por estreitas picadas como a da imagem esquerda.

Outras vezes viajávamos pelos rios, o que era bem mais confortável, mesmo quando tínhamos de subir corrente acima exigindo muito dos remadores. Todos remávamos. Os índios nos acompanhavam sem ter nenhuma recompensa por isso. E eram os que remavam mais forte...

Uma descoberta

Na viagem de Surucucu para Catrimani foi um percurso não usual pelo piloto. Um pouco mais fácil de encontrar a Missão porque ela ficava na beira do rio Catrimani que era visível do alto, de tal forma que ele tomou a direção até encontrar o rio. Nesta ocasião passamos por este grupo Yanomami, com sua maloca, que não era conhecida de ninguém até o momento. Não estava nos planos da região. Foi uma descoberta de que participamos. Não chegamos até aí caminhando pela floresta.
Outras fotos

Grupo Tribal Opiktheri. Moravam a 4 horas de distância da missão Catrimani, rumo Nordeste. Da esquerda para a direita: Xokoaxi, Tixo, um não identificado, Jose Maroaka, e outro não identificado.




Fotografias intra-orais

Algumas Fotografias de Dentes de Yanomami

Algumas Indicações Bibliográficas

Livro Completo Sobre os Yanomami - Português e Inglês

Veja Mais Fotografias dos Yanomami

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